O presidente do Brasil, a avó traficante e a sogra 171

“Presidente, o senhor sabe por que está aqui?”

“Falaram que foi porque eu fui impestuoso.”

“Intempestuoso, presidente. Agiu de maneira inapropriada em um vídeo que publicou na internet.”

“Isso é perseguição.”

“Presidente, o ato de ser convidado, através de sua assessoria, à terapia, não é perseguição, é cuidado.”

“Tá bom. Fala, então. Fala um motivo pra eu ter sido impestuoso.”

“Intempestuoso”, a psicóloga pigarreia, em seguida, prossegue, “bom, gostaria de começar com um trecho do discurso que ficou bastante marcado. Posso?”

O presidente, irritado, gesticula aceleradamente, mandando prosseguir.

“Abre aspas: ‘esculacharam a vó da minha esposa que foi presa por tráfico. Foi presa, sim, por tráfico! Uma senhora com 80 e poucos anos de idade. Faz a covardia com ela, pra atingir a minha esposa, que tem um projeto social maravilhoso. O que a minha esposa tem a ver com a vó dela? Que foi presa, sim, por tráfico. Também acusação da mãe da Michelle, que tem um problema na justiça por falsidade ideológica. Teve, sim, problema! Mas por que essa exposição?.’ Fecha aspas”.

O presidente abre os braços, dá de ombros e franze a sobrancelha.

“E o foda-se?”

A psicóloga pigarreia novamente.

“Presidente, por favor, peço para que mantenha um padrão de linguajar.”

O presidente suspira. A psicóloga retoma.

“Bom, queria começar com a seguinte fala: ‘esculacharam a vó da minha esposa’. O senhor acha que ‘esculachar’ é vocabulário adequado para um presidente da República?”

“Aproxima do povo. Vocês não entendem nada de retórica. Ensinam retórica na faculdade de Psicologia? Pois é, eu aprendi retórica!”

“Não precisa me atacar.”

“Que ataque? Te ataquei? Isso é síndrome de perseguição!”

“O senhor se sente perseguido?”

“O tempo todo.”

“E por que acusa repetidamente as pessoas de serem perseguidas?”

“Porra, eu vim pra falar de mim ou do meu discurso?”

“Falar do seu discurso é falar do senhor, presidente.”

Silêncio.

“Bom, sobre a acusação à vó da sua esposa: você acha adequado ela ter cometido um crime?”

“Olha, todo mundo sabe que, pra mim, bandido bom, é bandido morto!”

“Você quer que matem a vó da sua esposa?”

“Não falei isso!”

“Tudo bem. Acalme-se”, a psicóloga se ajeita na cadeira, “você acha que usaram o crime da vó de sua esposa para expô-la?”

“Claro! Evidente!”

“E você acha que expõe sua esposa?”

“De maneira alguma.”

“Por que, então, citar os crimes de familiares dela, em um pronunciamento sobre um assunto totalmente diferente?”

“Os rapazes da minha assessoria deram mole.”

“Mas esse trecho não consta no discurso que haviam preparado pro senhor.”

“Não consta?”

A psicóloga nega com a cabeça.

“Então dei mole.”

“E, me diga, presidente: o senhor costuma não gostar de ONGs, mas elogiou o projeto social de sua esposa. O senhor sabe com o que ONGs trabalham?”

“Floresta, bandido e filme de gay. Às vezes, filme de gay bandido na floresta.”

“Não, presidente. Trabalham com projetos sociais. Sua fala não foi contraditória?”

“Mas não é de projeto social que eu gosto, é de projeto social da minha mulher!”

A psicóloga suspira.

“Presidente, quanto a fala ‘o que minha esposa tem a ver com a vó dela’, o que tem a dizer?”

“Isso é perseguição!”

“Presidente, não é perseguição, é uma questão de árvore genealógica.”

“Sempre distorcem o que eu falo!”

“Mas o senhor acha que é sempre claro no que fala?”

“Claro!”

Ela olha pro relógio, que indica terem passado 20 minutos. A consulta está no fim.

“Pra concluir, presidente, algumas perguntas finais: o que a mãe da sua esposa tem a ver com sua esposa?”

“Olha, só sei que sogra é uma merda!”

“Presidente!”

“Porra, e é mentira? Sogra, e ainda 171, é foda. Conhece aquela música do Bezerra? ‘Sequestraram minha sogra, bem feito pro sequestrador
Ao invés de pagar o resgate, foi ele quem me pagou’.”

O presidente gargalha.

“O senhor é fã do Bezerra?” Pergunta, surpresa.

“Evidente! Por que a surpresa?”

“Não. Nada, não. É porque ele era usuário de maconha, e normalmente o senh-”

“Ninguém é perfeito! Sou humano, não consigo ser perfeito! Acabou?”

“Sim.”

“Assina esse termo aqui.”

“Do que se trata?”

“É pra não vazar a conversa pra Globo. Tá com gravador aí? Levanta o paletó, por gentileza.”

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Victor Hugo Liporage

Written by

adepto a homeopatia e sommelier de pagode

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