“O que eu proponho é que o jornalista seja um agente de mudança”

Revista Subjetiva
Aug 29, 2017 · 7 min read

Esta entrevista faz parte da série Vozes da Subjetiva, que pretende apresentar a fundo nossos colaboradores aos leitores a partir de um roteiro que irá explorar suas experiências pessoais e profissionais, bem como sua opinião sobre determinados assuntos.


Eu sou Verônica, sou jornalista e eu tenho projetos na internet, um deles é o “Jornalista 3.0”, onde ajudo colegas jornalistas a colocarem projetos no ar.

R.S.: Quando você começou a pensar no Jornalismo, o que fez até chegar onde está, quais foram suas inspirações?

V.M.: Decidi fazer Jornalismo porque estava envolvida com política desde meus 13 anos. Sempre tive essa coisa de mudar o mundo, a minha realidade, querer mudar meu bairro. No entanto, decepcionei-me com o cenário político e abandonei essa parte. Eu era atriz, eu tinha um grupo de teatro. Mas chegou a hora de escolher a faculdade e essa vontade de fazer a diferença fez com que eu escolhesse Jornalismo. Formei em 2011 e eu não escolheria outra carreira, apesar da crise. É uma questão de se adaptar e não de ruína da profissão.

Fui repórter do Correio Braziliense por 3 anos e chegou um momento em que eu perdia muitas oportunidades na redação por não falar inglês. Então pedi demissão, juntei tudo que eu tinha, todas as minhas economias, vendi o carro que eu tinha acabado de comprar e fui estudar o idioma no Canadá por seis meses.

Antes de voltar para o Brasil, minha mãe saiu do emprego e eu não tinha visto para trabalhar no exterior. Era o momento de montar o sonho dela: abrir um negócio ligado à alimentação, pois ela é chefe de cozinha. Eu de lá e ela daqui criamos o Delícia Pronta, uma loja virtual de pratos prontos congelados. Batalhamos muito para dar certo, era uma questão de sobrevivência.

Voltei e precisava estudar negócios, saber vender. Fui fazer uma pós-graduação em marketing digital, que ainda estou terminando. O negócio deu certo. O Delícia Pronta está no ar. Só que é um sonho da minha mãe, não meu. Minha área sempre foi comunicação.

Apesar de gostar muito da redação, não queria voltar. Um amigo me falou que eu tinha uma habilidade de saber as histórias das pessoas rapidinho, e de qualquer um, de um desconhecido na parada do ônibus, em qualquer lugar. Pensei: “Nossa, se é isso que eu mando bem, então vou dar um jeito de fazer disso o meu ganha pão”. Aí, surge o projeto “Vidas Contadas”, um site com vídeos curtos de histórias incríveis de pessoas comuns.

Eu tenho a certeza de que todo mundo tem uma boa história pra contar, assim o projeto deu certo. Até que o dinheiro acabou e eu não sabia o que fazer. Uns amigos da pós me sugeriram testar o financiamento coletivo — e como eu não tinha mais o que perder — e essa foi a minha última cartada. Consegui. Empresas, pessoas conhecidas e desconhecidas colocaram dinheiro no meu projeto para que ele sobrevivesse por mais dois meses. Eu não sabia o que aconteceria no terceiro mês e não importava.

Antes de acabar os dois meses, eu já estava rentabilizando a ideia com palestras profissionais, séries com o apoio de instituições. Eu estava muito feliz mas olhei para meus colegas jornalistas e eles estavam frustrados e desmotivados com a profissão. Pensei: “Além de contar a história das pessoas, preciso ajudar meus pares”.

Montei um blog chamado “Jornalista 3.0”, que era para compartilhar tudo o que tinha aprendido no “Vidas Contadas”, o que eu acreditava ser importante e que geralmente não se ensina na faculdade: como coloco um site no ar, contratar um servidor, ter domínio, fazer um podcast ou canal. Hoje, a comunidade do blog tem 11 mil pessoas.

Como primeiro produto, surgiu um curso online de dois meses intensos chamado Programa de Protagonismo Digital para Jornalistas, o “Realize”, onde a ideia era compartilhar o que aprendi nessa trajetória e passar a visão que os colegas precisam de uma postura de protagonista para realizarem projetos. E isso acabou virando minha bandeira. Até agora já são 3 cursos para jornalistas: o Idealize, o Realize e o Autonomia.

Nunca estive tão feliz, porque realmente descobri que eu estou bem quando me coloco a serviço das pessoas.

Curso Realize — Arquivo pessoal da entrevistada.

R.S.: A gente se conheceu através do Medium, por meio do seu texto sobre Aristóteles, o primeiro que publicou na Revista Subjetiva. Como você conheceu a filosofia e quando começou a fazer essa produção de textos que envolvem o tema?

V.M.: O que mudou minha vida esse ano foi a filosofia, eu estou completamente apaixonada. Desde os meus 11 anos, faço aquelas perguntas existenciais “O que sou? O que serei?”, mas nunca tive suporte para conversar sobre isso. Meu namorado sempre gostou do assunto e eu me interessei ainda mais pela conversa e fui atrás. Do lado da minha casa, tem uma escola de filosofia clássica aplicada à vida prática chamada Nova Acrópole, é uma organização internacional que está em mais de 50 países, formada por voluntários. Comecei a fazer o curso no começo desse ano e estou completamente apaixonada. Eu me encantei com o que os sábios de 2 mil anos atrás falavam. Eles tinham as minhas dúvidas e respostas que acalmaram meu coração. Vi no Medium uma oportunidade de escrever sobre o que eu estava aprendendo.

R.S.: Um texto recente seu, na Subjetiva, fazia uma reflexão sobre as formas que a mídia tradicional tenta captar novos leitores. Quais são os prós e os contras dos veículos tradicionais de comunicação e dos veículos independentes?

V.M.: Sou muito otimista com o que vivemos hoje. Temos muita gente criticando o momento porque está perdendo o emprego e é compreensível, mas acredito que este é um mundo novo de possibilidades. Ninguém sabe como ganhar dinheiro com produção de conteúdo a médio e longo prazo, nem eu, nem você e nem o The New York Times. E, por isso, nós nos nivelamos. Olha só o que você fez com Revista Subjetiva, o que alcançou em pouco tempo… Talvez não conseguiria toda essa audiência 10 anos atrás. Se o conteúdo for bom e relevante e aproveitar uma audiência na internet, você, como pessoa física, pode fazer muito.

O jornalista já se transformou. Não é mais a profissão, virou com um conjunto de habilidades que pode ser usado para infinitas ideias de comunicação. Não adianta ter o diploma, tem que ser bom no que está fazendo, ter presença digital, construir audiência com conteúdo inteligente.

Significa que eu posso ser o que que quiser: doceira, costureira, escritora, com habilidades de jornalista. Eu não sou Verônica jornalista, eu sou a Verônica e ponto.

O mais interessante dessa reflexão é que todas as profissões que são intermediárias estão em crise, o Jornalismo que intermedia um fato ou as cooperativas de táxi, que provavelmente devem diminuir muito com o Uber e outros aplicativos, as agências de viagem com a Airbnb. O Jornalismo não pode ser mais um intermediador, alguém que olha para algo, escreve sobre aquilo e vai passar pra outra pessoa.

O que eu proponho é que o jornalista seja um agente de mudança, ele tem que interpretar a notícia, investigar porquês e soluções. As pessoas não veem mais valor de compra no ‘o quê’, não querem comprar o que aconteceu e sim o motivo do fato, e isso é uma característica muito forte hoje.

Arquivo pessoal da entrevistada.

R.S.: Você acredita que as pessoas estão procurando cada vez mais a opinião de uma determinada pessoa e esquecendo um pouco da “imparcialidade” no Jornalismo, como você vê essa discussão da opinião versus imparcialidade?

V.M.: Imparcialidade nunca existiu, sempre houve uma tentativa que se chegasse a isso, mas nunca existiu. E isso está muito evidente hoje ao avaliar o valor de compra. As pessoas não estão dispostas a pagar por matérias de “isso aconteceu, onde aconteceu, que horas aconteceu” e não vai mudar. Elas querem e vão pagar pelo “porquê isso aconteceu”, querem se identificar com quem opina, querem um jornalista que pense a respeito daquilo, que raciocine com todos os dados e apuração que ele fez e leve o porquê pra pessoa, a interpretação do fato.

Elas não vão deixar de ir ao G1 para saber o “o quê”, mas também não vão pagar por isso. Em seguida, procuram pessoas que falem a respeito, opinam e oferecem uma interpretação daquilo .

O Evaristo Costa, ex-âncora do Jornal Hoje, é um exemplo. Por causa das respostas dele nas redes sociais, o público se identificou com uma voz e personalidade. Eu não estou fazendo uma crítica aos outros, todo mundo tem o seu lugar e ainda vamos precisar dos jornalistas que produzem o lead básico, mas não dá para fechar os olhos à força do valor de compra da interpretação do fato.

Arquivo pessoal da entrevistada.

A partir do minuto 25 (se quiser continuar daqui) ou ouça toda a entrevista na integra, sem cortes. Faça o download gratuito (aqui) ou assista em nosso canal no YouTube. Não se esqueça de se inscrever e curtir o vídeo! ❤


Recomendação da Verônica Machado:

O Jornalista 3.0 está com um canal no YouTube e irá produzir vídeos para auxiliar jornalistas, se inscreva também!


Gostou desse texto? Clique em quantos aplausos — eles vão de 1 à 50 — que você acha que ele merece e deixe seu comentário!❤

Redes sociais: Facebook| Twitter |Instagram | YouTube

Ouça o nosso podcast oficial com seus autores favoritos do Medium!

Entre no nosso grupo fechado para autores e leitores.

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

)

Revista Subjetiva

Written by

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade