O teatro do desprezo

E alguns mantras providenciais

Eu deveria de modo que se fixe a ideia de quão inepta é a minha geração para se relacionar, parar de uma vez por todas de dar credibilidade a encontros banais, conexões passageiras e sentimentos utópicos.


Eu não tô apaixonada por ele. Paixão é visceral, deixa a gente meio obcecado cantando com passarinho e se vestindo de Cinderela. Isso não, de jeito nenhum. Não chega aos pés daquele outro, que eu nem lembro mais o nome. Nem no chinelo. Foi só a sintonia de uma noite de verão, a culpada foi a lua cheia. Ou pode até ter sido um sorriso de arrancar suspiro por aí. E quase me tirou o fôlego, esse jeito que na verdade é o meu jeito de olhar pra vida nos mínimos detalhes. Em panorâmica. Mas eu prometi que não ia escrever sobre isso.

Eu não vou mais ser essa besta desenfreada que corre pro abraço e fica tonta só de sentir um certo cheiro. Que acha que conexão só acontece uma vez na vida e só existe aquela única chance que a gente tem que agarrar, pra não morrer atormentado com o próprio arrependimento. E porque eu nunca encontrei alguém que fosse meu porta retrato e nem que tivesse as mesmas coisinhas que eu.

Mas eu disse que não tô apaixonada por ele. Não me vi conversando com o espelho, shampoo, toalhas, travesseiro e edredom. Não fiquei esquizofrênica em suspiros à espera do amor chegar. Nem do WhatsApp apitar. Nem rindo e nem chorando. Frejat disse que rir de tudo é desespero e eu nem tô achando graça. Prometi que não ia escrever sobre isso.

É só que em tempos de bigode de charreteiro e MC Livinho como filosofia dos pseudo relacionamentos, é quase que um milagre emergencial topar com alguém que se encaixa nas suas coisinhas. Minha mãe quando não quer me chamar de chata, diz que eu sou cheia das coisinhas. Cada dia que passa eu tenho mais certeza disso.

Se ele lesse o que eu escrevo acharia que eu tô histérica, apressada e louca pra devorar ele. Talvez até devoraria. Mas não tô apaixonada por ele. Tá tudo sob controle, tal qual meu coração nem sai pela boca quando ele encosta aquela barba meio rala no meu ombro. Minha mão não escorre e eu não perco a fala quando ele me dá aquele abraço que parece que vai estralar até minha última encarnação. Ele nem tem como saber, nem suspeitar. Eu prometi que não ia escrever sobre isso.

Nas atualidades as situações já vem com prazo de validade, saca? A crise é burocrática e afetou todos os âmbitos desse país. Encontrar minha versão masculina no mundo seria bom demais pra ser comigo. É sempre uma pequena morte a cada encontro e a vida não dá moleza. Se as coisas fossem assim tão simples, calotas polares não estariam derretendo e ninguém roía a unha. Esse conjunto de sensações depositaram mais em mim do que eu poderia suportar. Dessa vez não. De jeito nenhum.

E nesse meu sistema improvisado, ao menos sigo firme no mantra que apesar dos desvios, permanece vivo. É difícil quando ele aparece arrumadinho, enquanto eu bem que bagunçaria ele todo. De roupa limpinha e mente poluída. Com sonhos que dão pé e beijos que me tiram do chão. E me olhando como quem roubaria toda a minha energia. Talvez roubou e nem percebeu. Mas eu também não me importo.

Porque eu não tô apaixonada por ele.

E prometi que não ia escrever sobre isso.


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