“O templo dos ventos” é um frescor na literatura nacional

Carol Vidal
Mar 13, 2018 · 4 min read
Foto: Carol Vidal

Desde que os primeiros seres humanos habitam esse planeta, está intrínseca a relação com a natureza, seja para a sobrevivência ou como parte de rituais religiosos. O ser e estar no mundo, desde os primórdios, passam pela relação com o ambiente em que se está inserido.

O livro “O templo dos ventos”, romance de estreia de Marcelo F. Zaniolo (lançado de maneira independente), explora de maneira muito especial essa relação. A obra é ambientada em um mundo pós-apocalíptico que, após a Grande Inundação, se resume a uma pequena aldeia com cerca de uma centena de pessoas. Toda a vida ali é uma “volta às origens” de uma relação mais pura com a natureza, sem interferências “externas”, uma vez que toda a base da subsistência da comunidade, dos talheres às comidas, das roupas às armas, vem do que está disponível no alto da montanha que foi transformada em novo lar.

A virada da história — e onde começa a aventura em si — se dá com a morte de um menino da aldeia em circunstâncias bem suspeitas, bem como com a aparição de uma águia misteriosa no Templo dos Ventos (local de adoração da aldeia), cobrando uma antiga dívida que os humanos teriam com as aves. A partir daí, a trama sai dos perímetros seguros da aldeia rumo ao desconhecido, em busca da causa da morte do menino, bem como na tentativa de entender que dívida era essa mencionada pela ave.

A relação dos personagens com a natureza vai além quando os personagens percebem que são capazes de se comunicar com os pássaros — o que já tinha sido notado quando a águia apareceu e somente Átila, líder do grupo de caça, conseguiu captar o recado. O que parecia algo isolado se revelou surpreendente ao longo do livro e a forma com que cada personagem se relaciona com uma ave — e com qual a espécie cada um tem ligação — é muito interessante e cria uma camada de complexidade a mais na trama.

O grupo que sai da aldeia não poderia ser mais diverso e improvável — e isso é um dos pontos fortes da obra. Noah, o personagem-narrador, é um rapaz sem nenhum porte atlético ou espírito aventureiro, que tem na aldeia a função de escrivão. A estratégia de não colocar Átila, por exemplo, como o narrador funciona muito bem, pois traz um frescor e uma novidade, já que Noah não é o herói que se espera nesse tipo de história. E mais para frente sua função de escrivão se mostra primordial para registrar o que ali acontecia, fora dos limites conhecidos.

É a partir dos olhos de Noah que o leitor vai se aprofundando mais na história e descobrindo que o mundo e o que aconteceu para que chegassem naquela situação pós-apocalíptica vai muito além do que é de conhecimento de todos. A relação de cumplicidade que é construída entre narrador e leitor enriquece a obra.

Conforme o livro avança, fica cada vez mais clara a posição maniqueísta adotada pelo autor, característica marcante em livros voltados para o público infantojuvenil. Os personagens são divididos entre os habitantes da aldeia e os Renegados, grupo que foi expulso por não comungar com as ideias da comunidade. Não há nenhuma complexidade entre os dois lados, que são divididos entre o bem e o mal.

Há uma tentativa de quebra desse padrão quando o grupo saído da aldeia conhece Zoe na floresta. A menina é a personagem que ganha mais nuances e gera no leitor a mesma dúvida que Noah apresenta: se, conforme aprenderam, todas as pessoas que foram expulsas da aldeia não são boas, ela pode ser confiável? Zoe precisa provar a lealdade ao grupo o tempo todo, mesmo salvando a vida deles por mais de uma vez. Mas não passa disso. Em nenhum momento é questionado se o que eles ouviram a vida inteira poderia ser uma mentira — ou, pelo menos, uma meia-verdade.

Com um bom ritmo, o livro prende o leitor até o fim e sustenta o tom aventuresco, entretendo de maneira leve. “O templo dos ventos” é o primeiro volume de uma trilogia e cumpriu sua função de ambientar o leitor no universo e apresentar os conflitos que serão aprofundados nos livros seguintes. Fica a expectativa de como se dará o desenvolvimento da história.

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