Ode ao pensamento em “O homem que calculava”

Foto: Carol Vidal
“Sem o auxílio da Matemática — prosseguiu o sábio —as artes não podem progredir e todas as outras ciências perecem.”

Eu nunca pensei que gostaria de um livro sobre Matemática. Afinal, sou escritora e tenho formação em Jornalismo, que é de Humanas, além de que, desde a época do colégio, as matérias de Exatas nunca estiveram entre as minhas preferidas. Porém, não há como negar: a Matemática está em todo canto: natureza, música, artes, tudo bebe da fonte de cálculos, proporções e padrões. E a beleza dos conceitos matemáticos é muito bem explorada pelo livro “O homem que calculava”.

Escrita por Malba Tahan, pseudônimo do professor brasileiro Júlio César de Mello e Souza, a obra foi lançada pela primeira vez em 1938 e atravessou gerações encantando e ensinando. O livro acompanha a peregrinação do calculista Beremiz Samir, um viajante com o dom intuitivo da Matemática, “manejando os números com a facilidade de um ilusionista”, como diz a sinopse da última edição lançada em 2013 pela Editora Record (o livro da foto é da edição de 1986).

Em cada lugar que passa, Beremiz ajuda a resolver problemas do cotidiano usando o raciocínio lógico e aplicando teorias da Matemática. Todas as soluções são muito interessantes e bem explicadas no livro, que conta com anexo que expande a resolução dos problemas, para aqueles que desejem maior aprofundamento.

Esse é um livro que gostaria de ter lido enquanto estudante, pois certamente seria mais lúdico e perto da realidade aprender a disciplina percebendo a aplicação dela no cotidiano. Apresentar algo tão intrínseco à nossa vida de forma maçante em sala de aula é o que faz com que por muitos alunos não gostem de Matemática, por acharem que está muito distante da vida.

A narrativa passa-se dentro do mundo árabe, o que é uma decisão acertada, levando em consideração a contribuição de pensadores árabes para a Matemática, seja traduzindo obras, seja apresentando novas metodologias. Ao acompanharmos as andanças do protagonista, também somos apresentados aos costumes do islamismo, conhecemos diversas curiosidades de personalidades árabes e de como surgiram algumas invenções, como o jogo de xadrez.

“O homem só vale pelo que sabe. Saber é poder. Os sábios educam pelo exemplo e nada há que avassale o espírito humano mais suave e profundamente do que o exemplo. Não deve, porém, o homem cultivar a ciência senão para utilizá-la na prática do bem.”

O livro também tem alto teor filosófico, o que torna ainda mais especial a leitura. Durante a resolução das questões matemáticas, o calculista deixa importantes lições de conduta moral que têm a ver com a situação presenciada por ele, ora citando pensadores, ora usando suas próprias palavras.

Mesmo o início do livro sendo um pouco devagar, não demora para o leitor imergir na história e no universo apresentado por Tahan. Por ter uma linguagem de fácil acesso, “O homem que calculava” é um livro para todas as idades. Basta o leitor estar aberto para surpreender-se.

Em tempos de desinformação e fake news, um livro que valoriza o pensamento crítico e incentiva colocá-lo a serviço do outro é essencial para quebrar a hegemonia da ignorância.