Os filmes de fevereiro: Oscar, Truffaut e clássicos asiáticos

Carlos Massari
Mar 2 · 9 min read
Joias Brutas, de Josh e Benny Safdie

Minha relação com escrever sobre cinema é longa e cheia de idas e vindas. O que era um grande prazer (e uma carreira em potencial) na adolescência foi se tornando cada vez mais um fardo, uma atividade indesejada. E quando eu entrei na faculdade, quando a produção deveria ser maior do que nunca, o burnout pegou de vez.

Durante meus quatro anos de graduação, eu só escrevi sobre cinema quando fui obrigado por alguma das matérias. E mesmo depois de me formar, demorou um tempo considerável para que primeiro a cinefilia, depois o prazer em pensar a arte cinematográfica e, por fim, de produzir textos sobre isso, voltassem.

Aos poucos, eu me vi querendo devorar filmes como fazia na adolescênca e colocando metas de pelo menos 100 assistidos por ano e coisas similares. Depois, eu me vi pensando sobre a arte cinematográfica de forma bastante complexa, com associações e com repertório, de forma que não era capaz de fazer com 16 ou 17 anos de idade e nem jamais me senti estimulado por nenhuma das matérias da graduação (ou pelo breve mestrado sobre o film noir do qual desisti após alguns meses). Por fim, eu me vi ativamente colocando cada uma dessas coisas pensadas no papel (mais precisamente, na tela do computador).

Depois de escrever algumas críticas sobre filmes que me inspiraram, por bem ou por mal, a fazê-lo, chegou a hora de expandir esses limites. E é a partir daí que nasce a coluna os filmes do mês.

No início de cada mês, trarei aqui alguns pitacos sobre os filmes que assisti nos trinta dias anteriores. Ou, no caso dessa coluna de estreia, vinte e nove.

Fevereiro de 2020 teve 10 filmes assistidos. Número baixo relacionado com viagem (Recife e Olinda são espetaculares!) e com carnaval. Vamos à lista?

Melhor filme visto no mês: O Estranho, de Satyajit Ray
Pior filme visto no mês: Jojo Rabbit, de Taika Waititi


Fevereiro foi o mês do Oscar, e como é tradição, de assistir aos indicados a Melhor Filme que ainda faltavam. No caso, eram três: 1917, Jojo Rabbit e Ford vs. Ferrari.

1917, de Sam Mendes

1917 é um filme na mídia errada. Poderia ser um bom videogame, mas como filme só se salva a parte estética. O principal problema é que ele não confia em sua narrativa. Nada acontece de maneira convincente e o que existe é só uma história manipulada, uma tentativa de te convencer que existe tensão onde não existe.

Exceto por um plot twist na metade do filme, o protagonista vai passar por mil e um apuros, e vai escapar de cada um deles de forma milimétrica. Essa é a narrativa de um vídeo-game de plataforma, no qual você decora onde deve estar para não ser atingido pelo tiro do vilão depois de morrer algumas vezes. É assistir um detonado no YouTube de alguém que domina esse processo. Você sabe como tudo termina.

A explosão vai ser a centímetros de distância, o avião vai cair a centímetros de distância, os tiros vão passar a centímetros de distância (e o seu vai acertar o inimigo de primeira), as bombas vão cair a centímetros de distância.

Essa inabilidade narrativa gera quase que um anti-cinema, por mais divertida que a experiência possa ser em alguns momentos.

Ainda assim, tudo isso é muito superior do que a sordidez que é apresentada por Jojo Rabbit. Um filme que me deixa realmente chocado sobre como enganou tanta gente com repertório. Como eu batizei, o Green Book de nazismo.

É a história adorada por Hollywood sobre o racista/homofóbico/preconceituoso com grupo x de pessoas que conhece alguém do grupo x de pessoas, desenvolve uma amizade e para de ser preconceituoso. Só que com FUCKING NAZISTAS. Só que usando uma criança para gerar maior manipulação emocional.

Esse filme, em uma época de Trumps e Bolsonaros, é um ultraje completo. Estamos provavelmente vivendo o pior período histórico desde o próprio nazismo para contar uma história que tem, hum, redenção de nazistas.

Desses três filmes, Ford vs. Ferrari é o melhor. Não que seja grande coisa, mas ao menos consegue ser extremamente divertido em suas corridas de carros. Só que não consegue se destacar por também cair em uma velha artimanha de Hollywood: a distorção de fatos históricos para gerar maior manipulação emocional.

Eu repeti em dois dos parágrafos mais recentes a frase “para gerar manipulação emocional” e esse é um problema constante de Hollywood, mais ainda dos chamados Oscar bait. Esse foi um ano que a maior premiação do cinema norte-americano se rendeu a um filme extremamente original, extremamente criativo e extremamente brilhante, um clássico imediato, que é o sul-coreano Parasita. Tinha outra obra-prima, O Irlandês, entre os indicados. E bons filmes como Era uma vez… em Hollywood e História de um Casamento. Ainda assim, não conseguiu escapar das artimanhas de sempre na lista de indicados.

1917 (Sam Mendes, 2019) **
Jojo Rabbit (Taika Waititi, 2019) *
Ford v. Ferrari (James Mangold, 2019) ***


Uma grande reclamação da comunidade cinéfila sobre o Oscar foi a ausência de Joias Brutas, dos irmãos Safdie, nas categorias principais, e de Adam Sandler em Melhor Ator. Por aqui, o filme veio direto para a Netflix e pode ser conferido na plataforma de streaming.

Meu primeiro contato com os irmãos Safdie foi na Mostra de SP de 2009, com Traga-me Alecrim. Eles ainda eram completos desconhecidos, mas eu lembro de me impressionar com um filme capaz de ser tão empático com uma situação caótica. Era muito cassavetiano, e de um jeito positivo.

Desde então, cada novo filme da dupla se transforma num mergulho mais pesado em direção ao caos. Amor, Drogas e Nova York era sobre vício em drogas, sobre o que é ser sem-teto, sobre essa relação sempre dura de dependência. Pessoas sendo o mais auto-destrutivas que conseguem, mas ainda assim recebendo um olhar muito empático.

Essa tendência cresceu em Bom Comportamento e agora chegou ao auge em Joias Brutas. Aqui, a empatia é deixada totalmente de lado: O personagem de Adam Sandler, apesar de também um viciado em uma espiral de auto-destruição, é totalmente detestável. E praticamente todo mundo à sua volta também é.

É um cinema que vai ao visceral, que se assume como indutor de tensão e de ansiedade, que funciona quase como uma ópera de caos.

Existem muitos méritos cinematográficos, e não há dúvidas que os Safdie estão entre o que há de mais promissor no cinema mundial. Mas eu confesso que prefiro quando pelo menos a espiral ao caos tem algo de bonito em si, não só de destruição e de sentimentos negativos.

Joias Brutas (Josh e Benny Safdie, 2019) ***1/2


Em fevereiro, chegou ao fim a retrospectiva do MUBI dedicada ao cineasta François Truffaut. Estavam disponíveis alguns filmes da parte final do grande mestre francês, entre eles Amor em Fuga, última parte da saga de Antoine Doinel, e Finalmente, Domingo!, obra derradeira de sua carreira.

Finalmente, Domingo!, de François Truffaut

Truffaut é responsável por um dos meus filmes preferidos, Jules e Jim, e várias outras obras-primas, como A Noite Americana e Os Incompreendidos. Porém, a fase final de sua carreira é sempre lida como feita no piloto automático, com obras realmente pouco inspiradas, com pouquíssimo a dizer ou a acrescentar.

Ao mesmo tempo, é um cineasta absolutamente inconfundível tanto em seus melhores, como em seus piores momentos. O amor pelas mulheres e pelo cinema é latente, a criatividade dá algum jeito de aparecer, mesmo que forma tímida, e sempre algum diálogo irá se destacar.

Mas no caso de Amor em Fuga, essa preguiça é tão clara que uma boa parte da metragem se resume a cenas de filmes anteriores do próprio Truffaut cortadas e coladas. O charme ainda mora em algumas partes do filme, mas é claramente um charme decadente.

O próprio cineasta declarou que não deveria ter feito esse filme, e é fácil de se notar o porquê quando há tão pouco material original, tão pouco para se adicionar à saga de Doinel.

No caso de Finalmente, Domingo!, há algumas coisas que gritam Truffaut, como o discurso final na cabine telefônica sobre as mulheres serem mágicas. E há algumas coisas que gritam Hitchcock, principalmente nos enquadramentos, em janelas e em retratos.

Não é um filme no piloto automático como a maior parte dessa fase final da carreira do Truffaut. Até pelo contrário: É apaixonado e sabe onde quer chegar. Mas, infelizmente, ainda tem uma série de decisões bem difíceis de entender. O romance é muito mais prejudicial do que qualquer outra coisa.

Truffaut foi grande demais e podia ter se despedido com algo mais forte, mas quem somos nós pra reclamar de um filme divertido e cheio de referências.

Amor em Fuga (François Truffaut, 1979) **1/2
Finalmente, Domingo! (François Truffaut, 1983) ***1/2


O mês marcou também duas incursões por clássicos do cinema asiático que funcionam muito bem como aulas de antropologia. Retomando o início do texto, talvez meu interesse não tivesse se perdido tanto durante a faculdade se as obras selecionadas pelos professores fossem melhores, e essas duas certamente poderiam estar em Antropologia da Imagem.

A Vaca, um dos filmes mais importantes do cinema iraniano, é extremamente simples. Uma história sobre um homem que ama a sua vaca mais que tudo. Ele mora em um vilarejo afastado e vive em função do animal.

A experiência antropológica é fantástica aqui por acompanharmos esse ritmo de vida tão diferente, quase que afastado de tudo o que conhecemos como sociedade ocidental. Não é um filme com grandes méritos narrativos, tudo é bastante simples. Mas tem uma fotografia excepcional, atuações de primeiro nível e, principalmente, um jeito muito único de olhar e de retratar esse interior de um Irã que ainda não tinha passado pela revolução.

O Estranho, que elegi como o melhor filme no mês, é a despedida do mestre indiano Satyajit Ray. Ao contrário de Truffaut, porém, ele se foi em grande estilo. E, assim, como Truffaut, evocando um suspense que acaba por se transformar em outra coisa.

O Estranho, de Satyajit Ray

O filme se disfarça e joga com seus interlocutores quase como o personagem principal. Na primeira metade, é um suspense tradicional, com um mistério básico de quem ele realmente é?, mas extremamente cativante. Depois, ao mesmo tempo que a verdade começa a se revelar, ele também deixa cair a sua máscara.

As reflexões presentes na segunda metade são ricas demais e o minimalismo formal, capaz de deixar um diálogo de cerca de 20 minutos fluir em uma sala de forma simples, mas que prende totalmente a atenção, funciona muito bem.

Esse grande diálogo, no qual tanto personagem quanto filme se revelam completamente, é o ápice desses belíssimos 120 minutos.

Só me incomoda o final, que não me parece casar muito bem com todo o resto.

A Vaca (Dariush Mehrjui, 1969) ***1/2
O Estranho (Satyajit Ray, 1991) ****1/2


Completaram o mês duas obras também vistas no MUBI: Uma é a excelente A Religiosa, de Jacques Rivette, outro dos mestres da Nouvelle Vague que vieram da crítica, exatamente como Truffaut.

É um filme dirigido com uma precisão fabulosa, com especial atenção à composição das imagens. A história de uma freira enclausurada contra a sua vontade no século XVIII é retratada atavés de grades, de padrões visuais que lembram uma prisão, com imagens que remetem diretamente o estilo barroco, tão em voga na época.

A trama poderia se transformar em um torture porn, mas Rivette impede que isso aconteça. E Anna Karina entrega uma de suas performances mais inacreditáveis, também parecendo sair diretamente de uma pintura barroca.

Por fim, Deadlock, do alemão Roland Klick, é talvez o filme menos memorável, para bem ou para mal, visto no mês. Um eurowestern com algumas boas imagens, mas que logo se cansa e passa a viver de apenas alguns bons momentos.

A Religiosa (Jacques Rivette, 1966) ****
Deadlock (Roland Klick, 1970) **1/2


Para março, as metas são de mais de dez filmes, de aproveitar a retrospectiva Fellini do CCBB de São Paulo, de conseguir encontrar algo interessante no circuito e de seguir de olho no que o MUBI tem a oferecer. Até abril!

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Carlos Massari

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Jornalista, roteirista, escritor. Falo aqui sobre cinema e os esportes que não falo em outros lugares.

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