Os navios que não vimos naufragar

Uma maré atípica revelou, anteontem, a carcaça do navio naufragado numa praia de Santos. A embarcação, de mais de 50 metros, surpreendeu moradores, autoridades e jornalistas. Não há, neste século, registro de naufrágio por ali, o que indica que o barco afundou no mar há mais de cem anos.
Mais um.
Desde quando começou a secar, na década de 60, o mar de Aral — entre Cazaquistão e Usbequistão — tem deixado emergir embarcações enferrujadas que jamais viriam à tona não fosse o projeto de desvio dos afluentes daquele que já foi um dos maiores lagos de água salgada do mundo. Agora, as enormes estruturas metálicas atracadas para sempre no deserto de Aral servem de âncora a olhares curiosos.
Certa vez, num trem que cortava o País de Gales ruma à Inglaterra, vi pela janela um navio abandonado numa praia fria. Coberto de desenhos em grafite, era uma tela viva diante de céu cinza e mar escuro. Ainda hoje, penso em tomar esse trem outra vez para descer no ponto mais próximo e contemplar de perto os destroços.
Hoje, no monólogo A Descoberta das Américas, o ator Julio Adrião narrou a saga do personagem Johan, italiano fugido da inquisição que entra por engano na embarcação de Cristóvão Colombo rumo à América Espanhola. Tenho relutado em ir ao teatro porque sinto receio de ser traída pelo cérebro acostumado às tecnologias e querer deixar a sala antes do fim, entediada. Nunca acontece, felizmente.
Por 60 minutos, mantive a atenção na história de fuga, naufrágios e dominações, que Julio conta com detalhes, onomatopeias e muito suor. Mais uma parte de nós mesmos que ficaria submersa não fosse a habilidade daqueles que narram, entre fatos inventados ou documentados, o que foi um dia essa terra. A tecnologia evolui, mas a curiosidade nunca nos trai em querer saber o que foi feito das embarcações onde não estivemos. Basta emergir numa praia, numa quarta-feira comum, os restos de um navio, que somos tragados para longe do marasmo dos dias, inventando hipóteses, desejando ver de perto o que sobrou da máquina imponente de levar gente para longe. Nada, afinal, é imbatível, a não ser nossa memória quando passada adiante.
É o que nos sobra: a ânsia em buscar uma parte de nós mesmos nos navios submersos, desde os tempos quando eles ainda costumavam naufragar.
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