Pantera Negra: Wakanda é o que a Africa poderia ser

Rei T’Challa / Foto: Divulgação.

Ouça Emicida — Pantera Negra enquanto lê para uma melhor experiência

Afirmo veementemente que hoje eu me senti extremamente representado e feliz ao assistir Pantera Negra. Foi a primeira, e espero que não seja a última vez, que eu choro em um filme onde finalmente o negro é herói. Saí de casa com a minha namorada com a intenção de ver um filme que os dois estavam empolgados para assistir, afinal os dois são negros. Mas a Marvel conseguiu sair de um clichê e superar expectativas ao colocar o negro como um herói e não como vítima de sua própria história. Esse texto será dividido em partes, incluindo uma participação da acima citada, Izabelly.

1) O negro e sua luta

“Salve o rei!” / Foto: Divulgação.

É extremamente triste ver que todos os filmes em que negros aparecem como personagens principais eles são escravos, ou vítimas de algum mal maior do que eles mesmos. E é extremamente empolgante ver que o preto saiu desse papel ridículo e tomou o protagonismo real das histórias, dessa vez como herói. Mas não é o ponto final, pois ainda me entristece ver que um universo tão vasto como o da Marvel, e até mesmo DC, apenas um herói preto é realmente poderoso, os outros são meros figurantes e morrem assim como nos famigerados filmes de terror que estamos acostumados a ver.

Pantera Negra representa tudo aquilo que diversas franquias do cinema mundial nunca se prestaram o papel de fazer: retirar estereótipos do negro. O filme que possui 99% dos seus personagens pretos não se utiliza de estereótipos sobre o negro, e vai além, critica os mesmos e os desconstrói. Ao colocar em choque a cultura africana de Wakanda com a cultura negra do subúrbio de Oakland os roteiristas deixam de explorar o crescimento do gueto e focam no “conflito” Ocidente X África, demonstrando a luta do negro americano contra a escravidão e os resultados posteriores disso, e a luta do africano com medo de ser explorado por suas riquezas.

“When I die, burn me and throw me into the sea. My ancestors jumped from the ships ’cause they knew death is better than prison”. (“Quando eu morrer, me queimem e me joguem no mar. Meus ancestrais pularam dos navios porque sabiam que a morte é melhor que a prisão”, em tradução livre)

Esse diálogo para mim ficou extremamente inteligente e marcante, pois por trás tem muito mais do que só uma frase de efeito bonita e comovente. Essa frase carrega consigo a ideia do filme e tudo que é explorado durante ele. O diretor e os roteiristas buscaram mostrar desde o começo que Wakanda era da maneira que era durante toda a sua história devido ao seu medo, devido ao medo de serem explorados e destruídos por colonizadores buscando suas riquezas e seu povo, e com o preto americano eles buscam demonstrar que os outros que não conseguiram se proteger foram explorados e escravizados pelos colonizadores.

Porém, chega a um ponto no filme em que o diálogo se estende e começa a se aprofundar em teoria política e relações internacionais, onde Wakanda não participa do comércio com outros países e não realiza cooperações. Mas tal aprofundamento apenas serve de pressuposto para se explorar o fato de que Wakanda se fechou e não ajudou ninguém, sendo o país mais tecnológico, rico e próspero, deixando de fora todos os outros também pretos e necessitados de ajuda externa. O sentimento de unidade negra também foi explorado com essa ideia, o que nos leva a pensar que a luta negra sempre precisou de união. Eu poderia falar bem mais, mas eu estaria dando muitos spoilers e o desfecho de toda essa luta negra é gratificante e feliz.

2) A África explorada

Explosão causada pelos Vingadores em Wakanda. / Foto: Divulgação.

Wakanda se mostra como um lugar mais evoluído que o resto do mundo em todos os aspectos, seja ele social ou mesmo tecnológico. Se trata de uma sociedade no berço da civilização e da humanidade. Uma sociedade que evoluiu e se tornou a mais avançada na Terra por serem os primeiros filhos da mesma.

E é exatamente aí que surge a tristeza e felicidade desse filme, para mim ao menos. Quando eu vi Wakanda, eu vi a África, óbvio. Não, eu vi o que a África deveria ser, o que a África poderia ser. Se não fosse o processo de colonização que deixou cicatrizes no coração do mundo. A colonização imposta sob a África vai além de transformar todo um continente em colônia de exploração. Ela entra na divisão dos territórios deliberadamente, gera guerras tribais, escravidão, exportação exagerada e intensa de todas as riquezas do continente, e independências violentas devido a resistência do colonizador que saiu do continente apenas após retirar tudo que se podia.

Não mais colonizando a África de maneira física, aqueles que lhe inflingiram mal encontraram maneiras de manter todo o continente africano em subdesenvolvimento e incapazes de se desenvolverem ao longo de sua história: dependência financeira. Seja ela de países específicos ou de órgãos internacionais, a África se encontra até hoje em um patamar de desenvovimento pífio e limitado, devido ao fato de que sua colonização foi cruel e deixou marcas que jamais serão apagadas.

Wakanda conseguiu se proteger dos ataques, pois sabia que seria vítima de suas riquezas, e infelizmente a nossa África real não.

3 ) As mulheres de Wakanda

Dora Milaje / Foto: Divulgação.

Enquanto mulher e negra, minha perspectiva do filme foi: o Pantera Negra foi praticamente um coadjuvante, pois, a Marvel teve a inteligência de elencar uma equipe espetacular de atores e principalmente atrizes, basicamente todas as personagens do filme são mulheres inteligentes, fortes e exclusivamente negras. Okoye, Nakia, Ramonda e Shuri são todas mulheres conectadas ao Rei de Wakanda (T’Challa) mas em nenhum momento representadas como dependentes do mesmo. Okoye enquanto general das Dora Milaje (a guarda real) se mostrou uma personagem imponente e totalmente independente representando para mim a execução real do feminismo negro em uma mulher livre de opressões da sociedade moderna. As demais citadas representaram, para mim, as múltiplas facetas de uma mulher negra, podendo ela ser uma grande companheira matriarca e ainda sim independente; uma jovem mulher de grande bom humor e criatividade; ou uma defensora de causas nobres e convicta de suas escolhas apesar dos contratempos emocionais.

A mulheres de Wakanda neste longa-metragem basicamente representam o que as mulheres hoje seriam se não tivessem sido subjugadas, representam o poder feminino em seu ápice e nos dão um pouquinho de esperança em um futuro negro e feminista.

Considerações finais

Pantera Negra. / Foto: Divulgação.

O filme é sem dúvidas o melhor filme já produzido pela Marvel, afirmo com tranquilidade, Rogerinho. Além de representarem um dos personagens mais fortes e importantes de toda a franquia, principalmente seu papel desempenhado dentro de Guerra Infinita e Guerra Civil, fizeram o mesmo com maestria ao trazer para o cinema o poder negro e debates eternos entre Colonizador X Colonizado e Ocidente X África. Ainda temos um longo caminho para percorrer em busca de grandes papéis para negros e filmes realmente relevantes e de cunho comum para nós.

Devemos reivindicar nossos espaços e exigir cada vez mais a igualdade tanto de participação como de representação. Sei bem que isso é só cinema, mas a vida imita a arte e eu adoraria que a vida imitasse nesse momento.


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