Política, desmanche do Brasil e Museu Nacional do Rio

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Não sei quantos de vocês tem o hábito de ver vídeos educativos no Youtube, como os que a TEDx lança por aí, mas eu tenho essa mania. E hoje eu estava vendo o vídeo feito pelo TEDx com a Eliane Brum sobre o impacto da usina de Belo Monte nos ribeirinhos, em Porto Alegre, vale a pena assistir. No vídeo ela diz:

“O Brasil é um construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.”

E tem como discordar do que ela disse? Historicamente o Brasil realmente sempre fez isso, e o caso que eu quero e preciso abordar é o de ontem: o incêndio do Museu Nacional do Rio e seus desdobramentos na política continental, internacional brasileira, e seus motivos.

Darcy Ribeiro e o desmanche do Brasil

Darcy Ribeiro (que homem!) | Reprodução/Google Imagens

Desde o início de sua carreira como antropólogo, Darcy Ribeiro afirmava que o Brasil tinha um projeto pra desmanchar educação, cultura, e silenciar um povo que surgia reivindicando voz e espaço. Ninguém acreditava muito no que ele falava, parecia surreal, até mesmo porque ele foi ministro da educação e participou de uma reforma estrondosa na educação brasileira, sendo convidado pra fazer o mesmo em outros países como o Chile, Uruguai, Peru, Venezuela, e México. Deu pra entender que ele tem um certo gabarito pra falar o que ele falava.

“As elites brasileiras são cruéis, elas asfixiam as massas mantendo-as na escuridão da ignorância. As escolas não cumprem com o papel de educar e preparar os meninos do Brasil. Só vamos acabar com a violência quando resolvermos a questão da Educação”.

Darcy acreditou tanto em seu ideal de educação e modificação da história que o Brasil começou a mudar, lentamente, mas mudava. As universidades brasileiras estavam entrando nos rankings das melhores do mundo. Frequentemente ocorriam intercâmbios de conhecimento, o Brasil andava pra frente e o povo se educava. Realmente funcionou. Até a eclosão do Golpe Militar de 1964. Mas o que os militares têm a ver com isso? Então, o desmanche da educação, cultura e outras coisas começou com o Golpe.

Os militares exilaram todos aqueles que ameaçavam o regime, e pra ser contra os militares não era muito difícil, só precisava de um pouco de educação e revolta. Bem, os militares deram um jeito de desaparecer com os catalisadores da educação, exilando ou os matando. Não satisfeitos com tais ações, comandavam ações de espionagem dentro das universidades, em conjunto com uma invasão do exército dentro das mesmas. Foi tudo um grande projeto.

Na Universidade de Brasília, na qual eu estudei, as feridas do período militar nunca estancaram. Darcy foi fundador da UnB juntamente com seu amigo pessoal Anísio Teixeira, e ali seu projeto educacional começou. Quando todos fugiram do Brasil com medo do regime, a educação começou a sangrar, e a opressão quase a matou de vez. O que sobreviveu está se acabando agora com o sucateamento das universidades públicas pelo corte excessivo e errado nas verbas, e pelo aparente corte de verba do CNPq. Isso é um absurdo.

O IBRAM e o Museu Nacional do Rio

Museu Nacional do Rio antes do incêndio. | Reprodução/Google Imagens

O que é IBRAM? Se você não sabe, há grandes chances do desmanche educacional brasileiro ter chegado até você. O Instituto Brasileiro de Museus é o órgão público regulador dos museus dentro do nosso país, muito simples mas nem tanto. São milhares de museus espalhados pelo país, dos mais diversos temas. Nem todos são do governo, mas tem muito museu. Com uma verba muito pequena, é muito difícil regular e controlar tudo como se tem que fazer, é uma pena. Então a culpa é de quem? Do governo mesmo.

Esse incêndio só nos mostra que o Estado não tem interesse em promover cultura e educação. Se você pensar bem, faz muito sentido o que a elite brasileira junto com o Estado faz com o país. Se você chega ao topo, o objetivo é se manter lá. E um povo inteligente não o manteria lá, porque se alguém quer se manter e não ajudar ou fazer sua parte, ele já chegou mal intencionado.

O IBRAM bem que tentou fazer alguma coisa pra ajudar o museu, mas é muito difícil quando não se tem apoio do próprio Estado e menos ainda da população. Sim, o apoio populacional é baixo. Um povo que não recebe educação adequada não se interessa por cultura ou história, muito menos por um museu. O instituto tentou realizar diversos eventos para conseguir arrecadar dinheiro para o museu, e outros museus também, mas não deu em nada. Os funcionários do museu fizeram diversas vaquinhas online pra tentar manter o museu e realizar reformas para ao menos mantê-lo aberto. Deu tudo errado e não foi por acaso.

Como última alternativa, o IBRAM entrou para o IBERMUSEUS, que é um programa de apoio à proteção e salvaguarda do patrimônio museológico em situação de risco ou emergência dos países ibero-americanos. Ou seja, o Brasil aderiu a uma cooperação internacional para conseguir manter o Museu Nacional.

“O Fundo Ibermuseus para o Patrimônio Museológico é um exemplo disso. Desde 2013 apoiamos ações de assistência, socorro e proteção ao patrimônio museológico de regiões atingidas por inundações, terremotos, incêndios, conflitos bélicos, ameaças humanas e outras situações de calamidade no Brasil, no Equador e na Espanha. Mesmo com aportes modestos, estamos atuando para ajudar a preservar os bens da nossa região.”

Mesmo assim, não deu certo. O museu foi engolido pelas chamas ontem a noite, após anos de descaso. Sem falar que há alguns meses riscos de incêndio devido a idade da fiação do prédio. Interesses políticos, principalmente da elite, comandam o Brasil, e não dá pra negar.

Nós vimos como tudo isso terminou.

Desfecho

Olhem só esse museu!| Reprodução/Google Imagens

O que nos resta é tristeza e arrependimento. Fico triste pela perda imensurável que aconteceu ontem, e me sinto arrependido por este ser um dos museus que não consegui visitar. A vontade das elites brasileiras em conjunto com governantes que só querem a perpetuação do poder nos tirou mais um patrimônio. Um museu foi torturado durante anos e assassinado ontem a noite.

Para aqueles que se sentem revoltados e tristes como eu me sinto, há uma saída. Não podemos recuperar grande parte do que foi perdido ontem, não mesmo. Ainda não inventaram uma tecnologia pra reconstruir destroços de incêndio, ainda mais se forem de papel. Mas podemos evitar que isso aconteça de novo. Apoie o seu museu local, faça propaganda, se interesse por ele, visite museus quando você viajar, acesse os portais do IBRAM, links estarão abaixo, só não deixe eles morrerem.

A história que está dentro do museu é sua, não é só do Brasil. Neste incêndio nós perdemos Luzia, não deixemos que outros também sejam apagados da nossa história. Não deixemos que o Brasil se torne ruínas como o Museu Nacional do Rio. Essa ferida nós vamos conseguir estancar, mas o país precisa se unir.