Política, religião e futebol se discute sim

Os efeitos que nossas “bolhas” nas redes sociais e na vida causam

Uma das características culturais do senso comum brasileiro é impedir a discussão, mantendo uma falsa paz, além disso, esse impedimento pretende evitar as polêmicas e os atritos entre pessoas próximas ou não. Porém, esse processo de manter a neutralidade e não opinar vem sendo crucial para nossa sociedade a cada dia que passa, culminando em um caos social que abrange diversas instituições atuais.

O primeiro problema que podemos desmistificar desse velho ditado é o termo “discussão”, que é visto muitas vezes como algo negativo, problemático e sempre relacionado a briga. Entretanto, o termo discussão não significa necessariamente um atrito, aliás, a discutir, segundo o bom e velho dicionário Aurélio, significa: “tomar parte numa discussão”; “questionar”; “debater (um assunto)”. A não discussão de um assunto, “polêmico” ou não, pode custar caro aos cofres, mas principalmente a sociedade.

Enquanto não discutirmos futebol, por exemplo, os absurdos protagonizados pela CBF não irão cessar. Enquanto não discutirmos a religião, ao invés da religião proibir a pessoa que é devota de tal religião, ela vai continuar proibindo outras. Enquanto não discutirmos políticas, ainda estaremos fadados a uma democracia autoritária e a uma cidadania super restrita.

Alguns projetos vem sendo revividos pelo atual Supremo Tribunal Federal — a qual tenho minhas críticas — , entre esses projetos estão assuntos como “aborto” e descriminalização da maconha, por exemplo, ambas práticas amplamente discutida em outros países, porém, que continuam a serem evitadas no Brasil e em outros países, mas a falta da discussão sobre o tema é algo culturalmente implícito, o simples fato de evitar que uma pessoa tenha uma posição contraria a outra por ser um familiar, por exemplo, é prejudicial não apenas para o relacionamento, mas para o desenvolvimento de um consenso e, logo, um progresso.

Não há avanço sem discussão, até porque se todos concordassem com as mesmas coisas não haveriam diversas mudanças estruturais e culturais, por exemplo, ainda estaríamos jantando com a Inquisição Católica afirmando que o Sol gira em torno da Terra e não o contrário. Também não teríamos programas de combate ao racismo estrutural como, por exemplo, as cotas raciais nas universidades federais e estaduais.

Um dos episódios que marcaram o início de 2017 foi a crise nas prisões, algo que não vem sendo discutido há décadas, quando se é, há uma generalização e criminalização. O resultado disto é que mesmo sabendo que o problema dessa crise é o encarceramento em massa e a guerra as drogas, o que os governantes fazem é aumentar ambos os fatores, ao invés de ouvir diferentes opiniões e tentar criar um caminho que, de fato, faça a democracia, ou seja, a pluralidade de opiniões e ideias aconteça.

Esse processo de uma democracia vertical é algo estrutural em nosso cotidiano, o próprio fato do plebiscito, que seria o ato máximo da democracia — equiparável apenas com o voto — , não é uma prática comum aqui no Brasil. É certo que demandaria dinheiro dos cofres públicos pedir que houvessem urnas e eleições a cada tempo, porém, quanto dinheiro e caos social nos economizaria à frente? A questão não é material, mas sim de sobrevivência, a própria manutenção de um caminho único vem fazendo com que vidas sejam levadas pelo sistema prisional, pela falta de oportunidade e pelo avanço da distância dos mais ricos e os mais pobres.

A realidade e a conclusão que chego é que não há mudança sem embate, confronto, mas não digo fisicamente, mas sim de idéias. Enquanto fizermos a manutenção de nossas “bolhas” dentro das redes sociais, seremos equiparáveis aqueles que evitam que tenhamos direito a voz e voto sobre questões que dizem respeitos não apenas ao nosso individual, mas sim ao coletivo. Um dos problemas culturais que estamos enfrentando atualmente é o narcisismo e o egoísmo nos próprios movimentos sociais, onde não há mais uma pretensão de moldar uma sociedade socialmente e economicamente mais justa para todos, mas sim para seus pequenos nichos e grupos.

Enquanto não houver uma volta ao pensamento de um bem-estar universal e de uma oposição de ideias construtivas, voltaremos a época em que quem detinha mais voz, ganhava. O que acontece muitas das vezes em discussões no Facebook, não importando seu argumento, mas sim quem desistir da discussão primeiro. Devemos nos atentar não ao “Black Mirror”, mas a nós mesmos, porque cada vez mais estamos ficando cada vez mais estáticos em meio as turbulências que se aproximam, enquanto aqueles que detém já o controle do sistema, avançam.


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