Pontes Em Chamas.

Sobre decisões irreversíveis.

Danilo H.

Hoje coloquei um fim em uma palavra que me perseguia com muito empenho (e por pouco não me destruiu). Engraçado como algo te faz tão bem em um momento é capaz de te machucar num piscar de olhos.

Fiz concessões demais, abri os portões de Troia para o seu ilustre presente passar e, em várias ocasiões, tive que lidar com os teus incêndios… os apaguei um a um sem pedir nada em troca.

Fiasco é a palavra da qual me livrei, não porque eu quis (irônico) e sim por uma questão de necessidade. Fiasco, o resultado desastroso ou insatisfatório. O fracasso. O desfavorável. A tragédia anunciada que eu fingi não ver. Você.

Agi contra a minha vontade e ao mesmo tempo ao meu favor.
Tramei contra você no nosso último encontro.
Acabei de fazê-lo e estou fedendo a álcool.

Ateei fogo contra todas as nossas conexões, incendiei o caminho que ligava você a mim.

Você nunca me conheceu de verdade e não poderá fazê-lo mais, estou do lado de e você de. Deixei as coisas da forma como estavam antes de nossos caminhos se cruzarem (ainda tive essa preocupação).

Mas nada será como antes por causa desse fio invisível inquebrável e indissoluto que nos ligará para sempre, nem que eu quisesse estilhaçá-lo em mil pedaços eu teria sucesso. O que fizemos juntos não pode ser desfeito.

No momento que caminhei pelas nossas pontes enquanto derramava aquela garrafa de álcool, eu estava plenamente ciente do que eu estava prestes a fazer. Pensei em desistir e te deixar mais um pouco ao meu redor, mas o benefício da dúvida não me saciava mais, fui perdendo, fui te perdendo até que me pedi.

Cheguei do meu lado da ponte, acendi um esqueiro com a outra mão e o arremessei logo em seguida… imaginei que você estaria ali no meio e queimaria junto com o “nós”.

Em segundos as chamas tomaram toda a estrutura e labaredas saltavam por todos os lados. Senti você morrer simbolicamente dentro de mim, dissipei no ar todas as memórias, sentimentos, toques, lençóis, nucas, bocas, olhos, cintura, pernas, mãos, pés, arrepios, ereções, suspiros, “nãos”, desvios morais, desvios de personalidades, ódio, amor, teu cheiro, teu sorriso, suas segundas intenções, suas manias, seus transbordos, teus vazios (e que vazios) e a sua ausência.

Arquitetei a minha morte no mundo das virtualidades para você não precisar se preocupar também, desatei os laços que eu mesmo fiz com os seus amigos/chegados/colegas… eles fedem a você… eles são parte do que tu és.

Ouvi o ranger das estruturas e tudo veio abaixo logo em seguida, você ainda não tinha chego do outro lado da finada ponte quando eu resolvi ir embora (como sempre), mas espero que tudo tenha ficado subentendido.

Você não falava muito, mas entendia as palavras não ditas.
Isso nunca funcionou comigo.
Por isso estou aqui.

Me cansei dos fiascos de todos os gêneros, cores e sexos.

No decorrer do tempo me tornei um piromaníaco.

Às vezes precisamos nos impedir de cruzar certas pontes, de beijar certas bocas e de partilhar momentos com aqueles que só estão de passagem.

De tanto me colocaram contra a parede, de tanto forçarem determinados atritos, eu me tornei faísca por dentro e inflamável por fora. Aprendi que o passado deve ser deixado para trás e, caso ele teime em regressar, transformarei seu caminho até a mim em fogo.

Se não me queres o bem, então te limitarei ao seu próprio mal.
Se não vier para somar, então te subtrairei minha presença.
Se não for em comum acordo, então será por vias dúbias.

E se você se atrever a vier até a mim feito lobo em pele de cordeiro, me reservo o direto de esfregar teu disfarce na sua cara e farei brasas queimarem teus pés até que você esteja suficientemente longe de mim.

Pois por esse ponte só caminha quem não tem medo de se queimar.
Se a sua alma não for cálida, então nem se atreva.

Com fogo não se brinca.


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