Imagem: reprodução da Internet.

Por que a pseudociência faz sucesso?

A ciência não explica tudo, e nem deveria. Existem várias formas de entender a vida, o mundo e o universo, uma delas é através da ciência. A ciência nunca chegará a entender tudo o que dá para entender, pois existe um vasto campo de coisas conhecíveis, das quais, provavelmente, não conhecemos nem 1%. Além disso, ainda que eficiente, o método científico tem um campo limitado de atuação. Uma vez que a ciência se constrói em cima de hipóteses que possam ser testadas através de métodos específicos, aquilo que não pode ser testado foge do escopo da ciência (o que não torna a ciência menos fascinante, diga-se de passagem). Existem dois possíveis motivos para algo não poder ser testado pela ciência: ainda não existe tecnologia/método para isso, ou é algo que, pela sua própria natureza intangível, jamais poderia ser testado por métodos científicos, como a existência de um(a) criador(a) do Universo, por exemplo. A ciência não vai descobrir, através de sua metodologia, se Deus existe ou não, entre outras coisas que a ciência não vai descobrir, e tudo bem que ela não descubra. O fato da ciência não ter evidências de que Deus existe não significa necessariamente que ele não existe, significa apenas que, pela própria definição de ciência, ela não pode atuar nesse campo de estudo. O problema é que quando falamos que a ciência é limitada, pode dar uma impressão de que a ciência não é confiável, ou, pior do que isso: quando ignoramos o fato de que a ciência é limitada e/ou quando desejamos que a ciência comprove algo que ela não pode comprovar, tendemos a acreditar em coisas que recebem o rótulo de ciência, mas na realidade não o são: as chamadas pseudociências.

Homeopatia. Imagem: Pixabay.

Existem, por exemplo, os fenômenos que podem ser e são testados pela ciência, mas sobre os quais as pessoas não querem abrir mão de suas crenças, como por exemplo, a homeopatia. De uma maneira geral, os estudos científicos apontam que a homeopatia ou não é eficaz ou funciona apenas por efeito placebo. Aqueles estudos que apontam para uma eficácia no tratamento com homeopatia apresentam imprecisões, seja por não deixarem claro a metodologia utilizada, seja por não apresentarem um grupo controle (aquele grupo de pessoas que não recebe o tratamento, para uma base de comparação), entre outras exigências do método científico. Assim, infelizmente, a homeopatia não tem eficácia comprovada. O que não significa que ela não possa funcionar para algumas pessoas e/ou para algumas doenças específicas, mas que os resultados são imprecisos e é imprescindível levar esses resultados em consideração ao aderir a um tratamento e principalmente, ao receitar um tratamento, quando se é um agente de saúde.

Uma vez que a ciência pode não ter as respostas que se espera que ela tenha, ou pior, ter a resposta oposta à desejada, a ciência muitas vezes é vista com maus olhos, e assim, vai perdendo a sua credibilidade entre alguns segmentos da nossa sociedade, como consequência de uma expectativa equivocada de como a ciência deveria ser. A pseudociência, por sua vez, ganha voz, uma vez que ela diz aquilo que as pessoas querem ouvir, eis porque ela faz sucesso. No entanto, se colocamos a pseudociência e a ciência no mesmo patamar, vão se perdendo os critérios para se confiar ou não em uma informação.

Não estou dizendo que só a ciência é confiável, muito menos que ela é a detentora de toda a verdade (até porque, um dos pilares da ciência é o princípio de falseabilidade, ou seja, todo conhecimento científico pode ser colocado à prova), mas não podemos esquecer que por trás de muitas descobertas importantes, sem as quais nossas vidas seriam radicalmente diferentes hoje, existem anos de estudos feitos por diversos cientistas, seguindo metodologias objetivas e padronizadas. Dar o mesmo valor para esses cientistas (ou até menos) do que para uma ou outra pessoa que da noite para o dia vem com uma ideia radical contrária a um conhecimento estabelecido ao longo de anos de dedicação, é um grande absurdo. Mesmo que essa pessoa tenha uma posição prestigiada no meio científico (sem citar nomes aqui pra não gerar polêmica), é bom manter um pé atrás com o que ele fala. O aquecimento global, por exemplo, é um consenso entre grande parte do meio científico, tem um ou outro que afirma que ele não existe ou não tem influência antrópica, baseado em argumentos que não seguem dados científicos.

Os negacionistas climáticos (aqueles que negam o aquecimento global), ainda por cima, se dizem céticos. O ceticismo é muito importante no desenvolvimento da ciência, por não tomar por garantida a visão que temos sobre as coisas. Os negacionistas climáticos, no entanto, distorcem o conceito de ceticismo e se apropriam dele, mas eles não são verdadeiramente céticos. O ceticismo questiona, mas uma vez que ele submeta a hipótese a variados testes e não consegue refutá-la, acaba por aceitá-la. O negacionismo, por sua vez, não questiona, apenas nega, assumindo uma posição dogmática, o que é bastante cômodo, uma vez que é mais confortável viver em um mundo onde o aquecimento global “não existe” e podemos dormir com a consciência tranquila.

E no fim a culpa cai no pobre Luci… Fonte: Um Sábado Qualquer

Além do negacionismo climático e da homeopatia, as áreas da pseudociência são vastas, abrangendo desde o terraplanismo à astrologia. Sim, eu sinto em te informar que nossa querida astrologia é uma pseudociência também. Houve um tempo em que astronomia (esta sim, uma ciência) andava de mãos dadas com a astrologia, o que pode explicar o fato da astrologia continuar com uma cara de ciência, no entanto, os conhecimentos acerca dos astros mudaram bastante, mudanças essas que não foram acompanhadas pela astrologia. Portanto, o céu astronômico como o conhecemos é diferente do céu astrológico. O céu astrológico é virtual, por assim dizer, ele serve de base para explicar vários eventos da vida de uma pessoa, no entanto, se correspondesse ao céu astronômico, sofreria alterações ao longo do tempo, devido à precessão dos equinócios, por exemplo, uma alteração gradual no eixo de rotação da Terra. Além disso, as interpretações astrológicas estão fortemente sujeitas ao que chamamos de viés de confirmação, ou seja, a tendência a dar mais atenção às informações que confirmem aquilo em que já acreditamos previamente.

Cada um desses exemplos renderiam textos dedicados exclusivamente a eles, mas que fique claro que meu ponto não é condenar a astrologia, a homeopatia ou o que quer que seja (mentira, eu condeno o negacionismo climático), o problema é que, dependendo do ponto até onde se estende essas pseudociências, elas podem literalmente causar danos a pessoas inocentes, inclusive morte, como o caso do menino na Itália que morreu com otite por ser tratado exclusivamente por homeopatia (Thiago Süssekind fala sobre o caso em seu texto sobre o perigo da homeopatia). Sem falar nos danos mais sutis que o crescimento das pseudociências podem gerar na nossa sociedade como um todo, criando uma população desinformada e com pouco senso crítico.

Voltando ao ponto inicial: a ciência não explica tudo e nem deveria. Dessa forma, eu acho sensato que a pessoa não confie exclusivamente na ciência, que ela tenha suas próprias crenças, seja lá quais forem, somos uma espécie que precisa ter algo em que acreditar. Porém, se sua crença entra em conflito com algo que já foi testado e refutado pela ciência, nesse caso é melhor dar mais crédito ao que a ciência diz, ou no mínimo, checar as evidências apontadas pela ciência. Você pode e deve ser uma pessoa questionadora, é isso que a ciência propõe. Não se deve aceitar uma teoria porque “se a ciência falou, está falado”, mas procurar as evidências, entender como se chegou naquela teoria e verificar se aquela teoria tem respaldo na comunidade científica. E evite acreditar só naquilo que convém, reconheça que existem mentiras que agradam, mas são nocivas, e verdades que doem, mas são necessárias.



Gostou? Clique nos aplausos — eles vão de 1 a 50 — e deixe o seu comentário!❤

Nos siga no Facebook, Instagram e Twitter.

Saiba como publicar seus textos conosco clicando aqui.

Leia a nossa revista digital clicando aqui.❤

Participe do nosso grupo oficial, compartilhe seus textos e adicione os amigos!