Por que o que eu faço com meu corpo interfere tanto na vida alheia?

Artista desconhecido

Eu tenho uma dificuldade extrema em entender como as liberdades individuais interferem na vivência de terceiros. Por isso, quando alguém vem me falar que é contra a descriminalização do aborto, eu acho muito complicado de compreender o porquê. “Sou a favor da vida”. Como se nós, que defendemos a descriminalização, fôssemos pessoas desalmadas que pouco se importam com os outros e que somos contra contra o bem precioso da existência.

Queria conseguir explicar que, na verdade, nos importamos demais. E é por isso que defendemos tanto que essa discussão seja feita, que as pessoas reflitam sobre o impacto que esta liberação traria na vida de muitas pessoas. Independente da sua opinião, mulheres abortam. Todos os dias. E muitas delas morrem neste processo. Elas são, em sua maioria, pobres, periféricas, sozinhas, sem a menor condição financeira ou psicológica de cuidarem de uma criança. Desesperadas, apelam para a saída que encontram neste um momento de desespero, o aborto. Claro que o final não é feliz, na maioria das ocorrências. De acordo com um dado de 2012, sete milhões de mulheres são internadas por ano por complicações de saúde provocadas por abortos clandestinos. O estudo foi realizado em mais de 26 países em desenvolvimento, dentre eles o Brasil, e publicado em agosto de 2015 no Journal of Obstetrics & Gynaecology (BJOG). As mortes passam das 22 mil. E é por isso dizemos que defender a descriminalização é defender uma vida. Mas é defender a vida da mulher, formada, adulta, existente.

Eu posso trazer mil dados e números, mas quem discorda de mim pode também trazer as suas pesquisas. Então, qual é o ponto? A vida humana não deveria ser reduzida a estatística, mas também não deveria se resumir a crenças religiosas ou pessoais, porque o aborto não é questão de opinião, é de saúde pública. Não existe um consenso se o feto é uma vida ou não até o terceiro mês da gestação, e isso abre para diferentes interpretações. Eu interpreto que não é, talvez você ache que é, e tudo bem termos diferentes opiniões sobre isso. O problema é que o ponto de vista de homens, brancos, classe média e héteros importa sempre mais que a das mulheres, que são quem sofrem diretamente com essa proibição. E, como eu já disse, abortos acontecem diariamente, independente da sua convicção. Algumas sobrevivem, outras não, mas esta é uma realidade. Ignorar o problema e levantar a bandeira de que defende a vida não muda o fato de que as nossas vidas são postas em risco neste processo, que somos nós que temos estampado no corpo que fizemos sexo sem preservativo, que ouvimos o tempo todo que nascemos para a maternidade, que somos xingadas quando temos qualquer descuido com o bebê. Enquanto homens são aplaudidos por fazerem o mínimo. Somos nós que somos cobradas de sentirmos amor pela maternidade, que somos chamadas de “assassinas” quando não queremos prosseguir com a gravidez, que somos consideradas egoístas quando dizemos que não queremos ter um filho. Enquanto o abandono paterno continua impune, enquanto homens chamam mulheres de vagabundas quando elas aparecem grávidas, enquanto esses mesmos homens duvidam que são os verdadeiros pais. Por que insistimos em culpar somente a mulher, quando os homens têm atitudes similares e circulam livremente por aí?

Por isso, eu repito: é muito difícil entender porque as pessoas acham que a descriminalização vai interferir na vida delas. Porque insistem em apontar o dedo na cara de uma mulher quando ela diz que não quer ser mãe. Porque somente nós temos que carregar o peso desta decisão. Você não precisa ser a favor do aborto, eu até me atrevo a dizer que ninguém é. É um processo traumático, sofrido, uma experiência triste que assombrará para sempre a vida desta mulher. Mas se você acha desumano e errado, simplesmente não faça. Não tente interferir na realidade de quem você não conhece. Não defenda o argumento de que basta colocar a criança na adoção, que basta se prevenir. Centros de adoção estão lotados, sem estrutura, sem amparo, sem o afeto que uma criança precisa. Métodos contraceptivos falham. Gravidezes indesejadas acontecem. Mas será que precisamos insistir nesta tese limitada de que somente a mulher é a culpada por ficar grávida? Novamente, eu peço, vamos ter empatia. Entendam que a sua realidade é diferente da de outras pessoas e que aquilo que fazemos com o nosso corpo não deveria ser pauta de discussão de quem sequer me conhece.


Este texto faz parte da Virada Pela Legalização do Aborto que ocorrerá entre os dias 26, 27 e 28 de setembro, promovida pela rede Ativismo de Sofá e pela Frente Nacional Pela Legalização do Aborto. Acompanhe tudo sobre pela #PrecisamosFalarSobreAborto nas redes sociais.