Imagem via AO5.

Por que parece que estamos todos sempre falando sobre a mesma coisa e na mesma hora?

Algoritmo, dê um passo à frente.


Na época de escola, imagino que vocês consigam lembrar do aluno questionador que sempre tentava complementar a fala de algum professor, inclusive, no final da aula. Era tido como “caxias”, o “chatão” da sala, afinal, esse aluno esbarrava no principal objetivo da turma que era, nada mais, nada menos, do que pular o horário de aula para o verdadeiro entretenimento juvenil, como ir jogar bola, no intervalo, ou lanchar; ir para casa, depois de todas as aulas, almoçar e ver televisão.

Hoje em dia, falamos com certo saudosismo fake em relação aos anos 1990/2000. É fake, porque todos sabemos que não tinha lá muita coisa de importante/construtivo para fazermos depois de uma aula cansativa e repetitiva na escola, pois quem tinha videogame ou Internet boa era rico, e nossos pais eram mais duros em relação à dependência desse tipo de “vício” do que os pais dos anos 2010 (que também têm seus próprios vícios, tais como ficar no smartphone), portanto, mais proibitivos em relação a passarmos horas jogando ou vendo coisas bobas na Internet.

(Cabe aqui um parênteses: embora muitos daqueles mesmos pais hoje nos entendam, já que muitos filhos made in 90’s/00’s tem reclamado de seus pais mais afeto, já que aqueles mesmos pais também fora contaminados pela cultura de scrollar — termo chique para dizer quem fica só passando o dedo pela linha do tempo das redes socias, sem objetivo definido).

Pois bem: se antes, porém, detestávamos a “repetição” de assuntos na época de escola, embora isso fosse fundamental à agregação e absorção de conhecimento, hoje, fazemos questão de praticá-la nos meios sociais. Quando vemos, estamos todos falando do Oscar, do Surubão de Noronha, de mais uma cagada do governo Bolsominion, e por aí vai:

Meme sobre a premiação “Oscar” 2019.

O que antes achávamos extremamente desconfortável, no ambiente escolar, durante nossa infância/adolescência, agora achamos confortável nas redes sociais: a repetição.

E tudo isso devemos ao chamado algoritmo.


Não sou técnica da área de informações, mas o que me vem à mente quando ouço a palavra algoritmo empregada para se referir a exatamente o que queremos ver em nossas linhas do tempo de Facebook e feeds de Instagram, muitas vezes, sendo isso utilizado com fins comerciais, só consigo pensar que aderimos a um contrato sem ler as letrinhas miúdas, situação que arrepiaria qualquer pessoa do Direito ou advogado.

Apesar de a maioria das redes sociais nos permitir ler seus termos e condições de privacidade, é meio que letra morta ainda que fôssemos ler, afinal, não estamos, muitas das vezes, em uma rede social porque gostamos do design ou modo de funcionamento dela, mas porque está ali um conteúdo que queremos consumir e pessoas que queremos seguir. Na prática, ainda que se dissesse que, para acessar Facebook ou Instagram, você teria que fazer um vídeo vestindo um terno listrado em branco e azul e dançando a música tema de Bananas de Pijamas, creio que muita gente, ainda assim, pagaria o preço, sem pensar nas consequências futuras.

Posso estar falando mais do mesmo, mas já vi em algum lugar que escrever bem se trata justamente de escrever o óbvio: fomos convencidos a gostar de repetição, embora achássemos tedioso viver num mundo de repetições tempos atrás.

Ora, pra mim, é muito mais confortável abrir meus feeds, depois de um dia estressante, e ler mensagens que me confortam, sobre positividade, feminismo e piadas sobre o governo do atual presidente, do que posicionamentos reacionários de possíveis conhecidos, como aconteceu em boa parte na época das eleições (por sinal, estamos há um tempinho sem ouvir muito sobre política desses mesmos reacionários sazonais, curioso hã?).

A questão é que a repetição no ambiente das redes sociais virou nossa zona de conforto comum. E vocês conseguem imaginar em como isso resulta lucrativo para a maioria das empresas: “vamos vender padrões, e aumentamos os filtros desses mesmos padrões conforme nos pagam mais.”

É como se, instantaneamente, você pudesse dividir sua vizinhança em quem prefere dizer biscoito ou bolacha/azeite ou óleo/salsicha ou vina (sim, eu moro no Sul, mas não sou natural daqui e dá pra perceber que um filtro sobre isso me ajudaria muito) e oferecesse seu produto com base nesse linguajar.

Uma pessoa que prefere o termo biscoito certamente vai querer adquirir um produto que se anuncia como biscoito. E uma pessoa que acha bolacha o termo correto, idem (e se você é essa pessoa, não fale comigo, nem com meu anjo).

Porque passamos a preferir repetição, ao nosso modo, estamos quase sempre falando sobre as mesmas coisas e ao mesmo tempo. A minha única forma de resistência quanto a isso, ainda, era não assistir séries no momento do hype (fiz isso com How I Met Your Mother e GOT), pois sabia que o efeito manada na redes sociais compeliria a compartilhamento de spoilers e eu sou contra isso.

Então, odiávamos repetição, mas agora adoramos. O que muda com isso é a qualidade dessa informação.

Para mim, é cansativo ficar lendo sobre os princípios do direito penal (se eu tivesse estômago para área criminal, talvez tivesse mais dinheiro), mas ficar horas lendo, comentando e repostando sobre qual famosa deixou de seguir a Marina Ruy Barbosa no Instagram é muito mais confortável pra mim. Ou fazer mais uma enquete do Buzzfeed, que sempre já sabemos o resultado com base nas respostas que damos.

Ora, ora, temos aqui uma “Xérox Gomes”? Não, não precisa ser detetive para saber dessas coisas, mas precisamos, sim, refletir por que gostamos de consumir o que nos leva à cultura do prazer instantâneo.

Afinal, o que essa “terapeuta de blog” está tentando lhes convencer é de que devemos tentar repetir mais hábitos “menos prazerosos”. Claro, sem achar que isso é um sacrifício hercúleo, embora a mídia e a sociedade num todo, constantemente, estejam tentando nos convencer do contrário.

A título ilustrativo, tirando uma nata da sociedade que adora fazer exercícios físicos (inclusive, admiro esse tipo de pessoa feat. sinto um pouco de inveja), seria bom nos obrigarmos a fazer uma caminhada ou ir na academia todos os dias, ou seja, uma repetição mais frutífera do que passar, diariamente, duas ou três horas scroolando para ver nossa bolha de contatos comentar sempre sobre as mesmas coisas e vermos que concordam com o que pensamos ou adoramos.

Necessitamos menos de validação coletiva, e mais de validação interna. Necessitamos mais de atitudes que nos tirem da nossa zona de conforto, afinal, é isso que faz a sociedade evoluir. E talvez isso nos ajude, embora não combata totalmente, com uma série de conflitos massificados do século, como ansiedade e outros tipos de transtorno.

Falar é fácil, mas não custa refletir sobre isso e ver o que podemos reduzir todos os dias, claro, sem ser um masoquista, sobre o prazer inútil e agregar mais prazer útil. Afinal, duvido que você não ficaria orgulhoso de concluir aquele livro que, há muito, está te esperando na estante do seu quarto, simplesmente, porque você não sai do Instagram (ou do Medium, rá!).


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