
“Por que você odeia o amor?”
Quando se trabalha com publicidade, as datas comemorativas tornam-se só mais um job na sua pauta. Tá lá o Natal, nascimento de Jesus, aquelas mangueiras de luz formando anjos deformados nos postes da cidade, o corredor de panetones no supermercado e, na sua pauta, uma penca de jobs. Um milhão de maneiras diferentes de dizer “feliz Natal” depois, você sai de férias, vai fazer a ceia com a sua família e percebe que aquilo já não significa muita coisa.
Aí tem datas que você sabe bem o motivo delas estarem ali: o calendário do varejo precisa dar um bom motivo para as pessoas continuarem comprando. Chega maio e aquela famigerada data vem se aproximando, com os seus cartões de coração e seus casais heterossexuais brancos. Você mal se recupera do dia das mães e já tem que escrever que o amor é lindo de novo, quando na verdade a unica coisa linda de fato é o som da cafeteira fazendo o seu trabalho na pia da cozinha.
Chega o dia dos namorados.
E eu não tô aqui pra falar sobre capitalismo e dizer que você não deveria presentear o seu mozão, longe de mim. O grande lance é que essa data é também conhecida como a empata pauta, quando eu demoro o dobro de tempo pra escrever o que deveria.
Isso porque eu não escrevo sobre nada que não entenda de verdade. Se o cliente trabalha com usinagem, primeiro eu quero entender o que é usinagem antes de tentar vender uma máquina deles. Se o cliente vende pastel, eu vou querer saber cada detalhe sobre esse pastel antes de fazer aquela chamada gritante em cima de um banner vermelho e laranja. Primeiro eu entendo, depois eu falo. Essa é a ordem.
E aí vem o dia dos namorados. Com a maioria dos assuntos, uma pesquisa rápida no Google resolve. Mas esse lance de namoro nem o Google sabe. Você procura amor na busca por imagens e vê um monte de casais sorrindo no meio de flores em um dia de sol. Eu realmente gostaria de estar no meio das flores em um dia de sol, mas a posição deles parece ser um tanto desconfortável.

Você desiste do Google e vai procurar informações com as pessoas. As pessoas descrevem o amor como algo avassalador. Não se escolhe quem vai amar, nem quando, nem onde. Parece até aquela virose que você pega quando vai com a família pra praia, não dá controlar.
Mas pra mim, ele parece ser bem mais lento e bem menos interessante.
Como não consigo sentir esse amor romântico, eu observo. E nas minhas observações, percebi que todo mundo ama muito e que tá todo mundo muito louco. O mundo é dividido entre as pessoas que se entregam e demonstram e as pessoas que enjoam fácil e não se apegam. Essas duas pessoas na verdade são a mesma coisa, dois sentimentos conflituosos dentro de cada ser humano.
E ninguém quer ter responsabilidade sobre os sentimentos de ninguém.
As pessoas são malucas. Elas querem um relacionamento onde são prioridade, onde o outro se dedica, ouve, está presente, dá carinho e abre mão de tudo por elas. Mas sem muito grude, a pessoa tem que ter autonomia também. Porque elas não querem abrir mão do rolê, de sair pra beber com os amigos no fim de semana. Mas a pessoa não pode se afastar muito também, mas também não pode ficar ali o tempo todo. Só que se a pessoa não demonstrar interesse, elas ficam inseguras. Mas se demonstrar demais, elas são taxadas de psicopatas. Tem que ter um equilíbrio, claro. Você não pode dar um presente logo no primeiro mês, mas “deixa pra ser frio quando morrer”, tem que demonstrar, ligar às três da manhã e tudo. Você também não pode demorar muito pra responder, mas se responder na hora vai parecer desesperado. E a qualquer hora elas podem perder o interesse e te deixar com uma pilha de sentimentos inacabados, alegando que “não estão prontos para um relacionamento”, quando na verdade estão sempre procurando por um.
Tão simples. Não sei por qual motivo as pessoas complicam tanto.
Eu analisei os relacionamentos de forma antropológica mesmo, foi um longo período de estudo. De casais que brigam todos os dias a casais que parecem ter saído de um filme da Pixar, nenhum foi perdoado. Cheguei à conclusão nenhuma. Pra falar a verdade, só fiquei mais confusa.
Principalmente porque a maioria dos namoros parece ser uma responsabilidade, um segundo emprego. Alguém pra quem você deve satisfações sobre onde você tá, com quem você tá e que horas você volta. Eu tinha a mesma relação com os meus pais quando morava com eles e isso não era exatamente legal. Cheguei a me perguntar algumas vezes: afinal, por que diabos as pessoas namoram?
Pra ter alguém ao seu lado 100% do tempo, suprindo suas necessidades de carinho e atenção, é claro. Todo mundo tem essas necessidades, não vou ficar aqui bancando a fria, evoluída e esclarecida. Mas será que esse é o único jeito de lidar com a terrível solidão que assola o ser humano nos tempos modernos?
Porque, cara, eu já tenho responsabilidades demais. Não consigo nem adotar um gato porque acho que não ia dar conta, imagina ser responsável pelos sentimentos de outra pessoa? O ser humano é complicado demais até pro Google entender.
A pior parte é que as pessoas acham que namorar não é uma escolha, que “acontece”. Sentimentos acontecem, é assim que a vida é, segundo eles.
Sentimentos acontecem mesmo, mas só quando eles são simples e instintivos. Como a raiva, por exemplo. Você bate a cabeça na porta do freezer enquanto procurava aquele pedaço de queijo na geladeira. Primeiro você sente dor, depois você sente raiva. É rápido e você não tem tempo de controlar. Sentir raiva é como apertar um interruptor: depois de acionado, não tem como evitar que a lâmpada se acenda.
Já o amor é como acender uma fogueira com dois pedaços de pau. Primeiro você acha gravetos secos, depois procura um terreno adequado, depois encontra palha ou algo que acenda fácil, aí você fica quatro horas esfregando os dois gravetos e esperando uma faísca acontecer. Só então a fogueira acende, pega fogo na floresta inteira e você fica “meu deus, estou chocado com tamanha destruição, aconteceu do nada”.
Ele pode ser evitado, manipulado e inventado a qualquer hora. Você encontra alguém que te agrada fisicamente, se convence de que aquela pessoa combina 100% com você e cria conexões imaginárias até começar a saudade e a necessidade de tê-la por perto.
E de repente a sua vida já não faz mais sentido sem aquela pessoa que você conheceu não tem nem 10 dias.
Muitos anos atrás, isso acontecia comigo direto e, não, não me orgulho disso. Nada faz sentido, as pessoas não sabem o que querem e tá todo mundo se machucando no percurso. Há pouco tempo, eu achava que não conseguia sentir esse amor romântico porque tinha medo, mas agora esse medo se transformou em uma grande preguiça.
Sigo com problemas para escrever sobre o dia dos namorados, programando muitas viagens sozinha e observando os namoros alheios. Não posso dizer que sou infeliz, nem feliz pra caralho, mas que vivo como uma pessoa normal. Apenas alguém que aceitou a própria companhia e que associa a solidão à liberdade, algo que a maioria das pessoas passa a vida toda sem saber como é.
Mas não vou mentir, às vezes, ter que lidar com as coisas horrorosas da vida sozinha é bem complicado. Chegar em casa depois de um dia terrível e não ter alguém pra me acompanhar em uma garrafa de vinho pode ser bem desanimador. Mas mesmo em dias difíceis, prefiro encarar a solidão a ter que lidar com os caminhos tortuosos e malucos dos relacionamentos. É como tentar atravessar uma rodovia com 7 pistas, cada uma em um sentido. Prefiro seguir por esse lado da rua mesmo, que é mais seguro e me dá menos trabalho.
Já faz alguns anos que adotei esse estilo de vida e ele tem sido bastante eficaz. E mesmo que as pessoas insistam em dizer que o amor é um incêndio, que acontece do nada e que eu não posso ter controle sobre isso pra sempre, eu já sei que isso não é verdade.
Ainda assim, por via das dúvidas, espalhei várias placas de “não fume” em volta de casa.

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