Porque nós somos feitos para os laços

Carolina Bataier
Sep 3, 2018 · 3 min read

Era meu primeiro ano de graduação. Eu tive uma briga no pátio da faculdade, estava cansada, triste e humilhada. Nada grave, nada que hoje fosse lembrado a não ser pelo fato a seguir. Diante da minha impotência, uma amiga segurou minha mão e disse: vem, vou te pagar um pastel. E caminhou comigo até a barraquinha do pastel. Depois, até a porta de casa. Ela não pediu detalhes sobre o que acontecia, não deu conselhos, não questionou. Fez somente o que considerou ao seu alcance para melhorar minha noite.

E melhorou. Isso ficou na memória. Ela é minha amiga até hoje.

Desde então, tenho a certeza de que uma das coisas mais importantes do mundo — senão a mais importante — é a capacidade de nos conectarmos com a dor do outro. É essa sensibilidade por saber o que fazer quando alguém está sofrendo. Talvez, não se trate exatamente de sabedoria, mas de ter algo dentro da gente que nos guia para pequenos gestos de conforto. Isso pode salvar vidas.

Não que a briga no pátio da faculdade fosse caso de vida ou morte. Longe, muito longe disso. Mas na rotina adulta há, sim, casos cruciais. Depois dos 20 ou 25, vem pedrada e o individualismo torna tudo mais doloroso. Ou, como diz David Foster Wallace, em Isto é água:

A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Na luta para construir algo socialmente aceito e financeiramente rentável, corremos o risco de perder o mais importante: a capacidade de perceber o outro. E, assim, tornarmo-nos também invisíveis aos olhos ocupados de quem divide conosco o cotidiano.

Naquele discurso famoso, em O Grande Ditador, Charles Chaplin lembra: não sois máquina, homem é que sois. Somos impotentes diante da estrutura que nos molda como seres produtivos, proativos e outros tantos aditivos mais próximos da mecânica que da poética, mas é preciso, sempre que possível, encontrar brechas e fugir da máquina de moer gente. Estar atento ao outro faz parte dessa fuga. A rotina tenta endurecer, mas nós somos feitos de matéria propensa aos laços. Não é por acaso que nossa pele tem seus tantos milhares ou milhões de conexões nervosas. Fomos feitos para receber o toque. E esse despertar das pequenas sensações só se dá em contato com o outro. O abraço acalma o coração e é isso que precisamos exercitar. Estudos da neurociência provam o efeito positivo do toque, mas eu sei que não preciso recorrer aqui ao cientificismo: é só você fechar os olhos e lembrar dos momentos de acalanto. O coração encontra paz é no contato da pele, no sabor da comida feita por quem nos ama, no carinho compartilhado.

Dinheiro, e tudo mais relacionado a ele — poder, sucesso, status — resolve questões práticas. Mas, nos momentos em que a vida aperta, não tem outra coisa que salva senão o ser humano e suas tantas capacidades de conexão. Então, neste mundo vasto, confuso e efêmero, não há talento maior que saber acalentar outra alma. Isso cria laços e dá sentido aos dias, porque nós somos assim, carne, osso, pele com suas milhares de terminações nervosas e coração; feitos para sentir o toque dos dedos, o cheiro do cabelo quando acontece o abraço, o tom da voz, a aspereza da vida, o bálsamo da cura, o vento, o som do mar, o ardor, o medo, a tristeza, o amor, o sabor do pastel da barraquinha em 2005, de queijo com massa fininha, esfarelando, e as mãos magrinhas sobre meu ombro numa noite tão escura.

*A foto deste post é da série Dancers Among Us, de Jordan Matter.

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Carolina Bataier

Written by

Autora do livro de crônicas “O pôr do sol dos astronautas”: https://amzn.to/2Wq2wRi. A ideia é usar este espaço como laboratório de textos.

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade