Quando paramos para ouvir estórias

Dizem que somos 70% água. Um outro tanto são moléculas, poeira das estrelas. Tudo o mais é metafísica e liberdade de preencher nossos espaços com o que nos convém.
Nossa situação de seres sociais nos faz, inevitavelmente, preenchermo-nos de histórias e estórias. Vivemos de ver e ouvir gente e a água que faz nosso corpo é também barco que balança entre tantas marés de verbo.
Por gosto ou costume, basta alguém entoar o “certa vez” e nosso olhar logo pousa na face do narrador, ansiando o porvir. Hábito que em mim vem da infância. De quando meu pai, antes de dormir, contava o causo do velho caseiro duma fazenda lá pros lados do Ribeirão Bonito, um cantinho de chão situado no interior de São Paulo. No fim de tarde, esse homem andava léguas para tomar uma cachacinha na venda da beira da estrada. Já com a lua alta, pegava o caminho de volta, arrastando as botas sobre a terra batida, o barulho dos passos lentos fazendo segunda voz na sinfonia da noite, da bicharada no mato. Era, esse velho, o personagem principal de uma estória de suspense, habitada por lobisomem, lua cheia e um punhal. Estória que ouvi repetidas vezes, mesmo sabendo o final.
Dos tempos em que ouvia essa narração para cá, outras tantas gentes me contaram e ouviram contar causos e fatos. E pelo gosto do ouvir e depois ver de perto é que me aventurei pelo Caminho do Sertão, uma caminhada pelo interior mineiro, passando por lugares que Guimarães Rosa narrou nas suas obras. Tudo feito a pé, para se ver e ouvir de perto.
No primeiro dia de caminhada foram 33 quilômetros, distância nunca antes por mim percorrida no andar. Rastejei os últimos metros e descansei os pés nas águas do rio Urucuia. Dali, adentrei na vila de Morrinhos, um ajuntado de casas, igrejinha e bar, onde passaríamos a noite. Precisada de banho, cheguei à casa de uma senhora que gentilmente abriu as portas para oferecer água corrente a alguns caminhantes — é como nos chamávamos, nós, os dispostos a essa aventura sobre as próprias pernas. Banheiros ocupados por quem chegou antes de mim, deitei na rede da varanda aguardando minha vez. Dali, ouvi a voz de sêo Margoli, como depois eu soube que se chamava, convidando os que esperavam na varanda para banhar na casa dele. “Que lá tem chuveiro quente, ocês querendo vem comigo, vem ocê mais as moça”, disse para um companheiro de caminhada.
Ergui meu corpo da rede e fomos, eu, um rapaz e uma moça, seguindo o homem. Silhueta escura abrindo caminho pela estrada de terra noite adentro. Em Minas, longe é perto e a casa do velho — logo ali — foi, para meus pés cansados, um tanto lá. Margoli seguia na frente levantando poeira da estrada. Chegamos na casa cercada de árvores, onde só a luz da varanda funcionava. O banho, como prometido, era quente, num banheiro iluminado pela claridade do quintal. Enquanto um de nós banhava, eu e outro sentamo-nos na varanda. Margoli, “que é como o povo daqui me chama”, ajeitou-se no canto da escada de alvenaria, em frente à porta da cozinha. A aba do chapéu encobria os olhos e a luz amarelada da varanda desenhava os traços das mãos negras, entrelaçadas. Cachorros latiam ao redor.
Soubemos então: um dia antes, havia morrido um rapaz ali no Urucuia. “O rio qué quem num sabe nadá, porque quem sabe ele já tem”. A correnteza desses dizeres nos levou a assuntos outros. Caboclo d’água, que vive nas águas e ajuda na boa pescaria. “Ocê pede o pêxe, ele dá. Mai tem que trazê fumo e cachaça de pagamento, sinão e’is vira sua canôa”.
— E diz que são pequenininhos, né?, os Caboclos d’água.
— São nada! Grandão, uns bração assim.
A mãe d’água tem dentes de ouro e cabelos longos. Prestando atenção, você vê por aí. Mas é necessário cuidado para não ser levado por ela para o fundo do rio.
Acordei no dia seguinte pensando se o delírio de cansaço havia me colocado em sonho a caminhar pela estrada junto do velho dos causos da minha infância. Tinha ele me falado de lendas? Os colegas, depois, confirmaram o vivido.
A vontade que ficou foi de tomar um café naquela varanda da noite anterior, ouvindo outras lendas, causos, fatos, nas palavras de sêo Margoli.
Por sorte, era só o primeiro dia de caminhada sertão adentro. Ao longo do caminhar, vieram histórias e estórias, de gente que andava ao meu lado e gente que surgiu pelo caminho. Durante o caminho, sentamos em roda muitas vezes para ouvir a voz do outro. É parte da jornada aprender um tiquinho mais do mundo com quem tem para contar. E cada um é dono de cordas vocais feitas na medida para dar tom ao que vê — ou imagina.
Se um lado nosso é feito de contar, há outro que está neste mundo para ouvir. É a disposição da poeira das estrelas: estar na terra para se encher de outros tantos verbos que pairam no ar.
Gente ouvindo história se ilumina. Veja você nas fotos aí embaixo:
Registros pessoais do Caminho do Sertão:




























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