Queer Eye — A bagunça emocional do homem se revela no exterior

Foto: Divulgação

É complicado falar sobre vaidade com homens. Cabelo, barba, roupas a vestir. Os tipos de decoração que o homem gosta. Sobre crescimento pessoal, emoções internas. Ou de receitas a fazer e tempo na cozinha.

Essa complicação não é novidade. Assim como não é novidade que nosso tecido social vive uma transformação. Mulheres conquistam seu espaço e caminho há décadas, lidando com uma série de resistências sistêmicas que privilegiam homens, em especial certos tipos de homens. Essas barreiras são fortes e muitas continuam presentes. A tensão está presente. Mas elas estão caindo.

Nesse movimento, o próprio homem se sente perdido por uma perda de espaço outrora ensinado como garantido. Certezas, garantias e o conforto de caminhos conhecidos caem. Cabe ao homem reencontrar seu espaço, consciente de que isso não significa tomar liberdades das mulheres e de outros gêneros.

Até aí a gente até já sabe. Mas como é isso na prática? Como enxergar um homem perdido?

É mais frequente que papos de vaidade relacionados a homens sejam rotulados em linhas sexuais. Apontados como metrossexualidade — um termo que até já soa atrasado — ou mesmo “acusados” de homossexualidade. Homens que andam por essas classificações estariam mais em contato com seus lados “femininos”. Surgem novos conceitos de “bro”, o “goy”, o “hétero que sai com homens” e afins. Rótulos e mais rótulos.

As classificações podem auxiliar minorias a se encontrar, se posicionar, a clamar por existência. Mas também podem ser fugas de gente perdida na maioria, que não quer perder privilégios e cria um novo rótulo apenas para evitar outro rótulo existente para o qual carregue preconceito.

Queer Eye não é sobre isso. Não é sobre a insegurança sexual masculina. Essa insegurança até pode ser uma das causas, até pode ajudar a enxergar um homem perdido. Mas é uma causa, não todas.

Queer Eye dá um passo para trás para darmos dois a frente. Ao invés de manter a discussão em uma causa já popularizada e polarizada, a série consegue abrir mais possibilidades.

Um incrível resultado para uma obra que teria todo o respaldo para focar a agenda LGBT.

Como funciona isso?

Um grupo de cinco homens homossexuais, os Fab 5 (Fabulous 5 ou 5 Fabulosos, em tradução livre), realizam um misto de mentoria com transformação (as famosas makeover da televisão americana).

Mas sem humilhar o pobre, não é Renan?

fraseschoquedecultura
Renan, personagem do programa Choque de Cultura, falando a frase: “O Caldeirão do Huck, sou grande fã desse programa… porque ele humilha o pobre… humilha, humilha, humilha e depois ajuda.
Fonte: fraseschoquedecultura

Karamo, Jonathan, Anthony, Tan e Bobby, cada um com sua especialidade, chegam na vida de um homem para ajudá-lo a se reencontrar. A sair do estado “perdido”.

No site Farofa Geek, o autor Marcos Malagris explora os armários em que os homens estão e faz um uso interessantíssimo da Recusa ao Chamado, o terceiro estágio da Jornada do Herói, que aprofundei nesse texto aqui sobre Pantera Negra:

Essa recusa estaria representada na negação natural dos homens sobre nossos problemas e nossas potencialidades. Os Fab 5, portanto, fariam o papel de Mentor.

Em um diálogo não programado com o texto de Marcos, podemos estabelecer que a Recusa ao Chamado é anterior ao início de cada episódio e é resolvida com um Atrator, alguém na vida íntima da pessoa protagonista daquela história. Seja uma esposa, um chefe ou melhor amigo. Essa pessoa ajuda o protagonista a resolver sua Recusa e aceitar a ajuda dos Mentores Fab 5.

Portanto, cada episódio começa com o quarto estágio da Jornada do Herói, o Encontro com o Mentor. Descobrimos sobre os passos anteriores, o Mundo Comum, o Chamado à Aventura e a própria Recusa, através das perspectivas dos Fab 5.

Eu não vejo os episódios de Queer Eye como Jornadas do Herói completas. Assim como eles já começam depois do primeiro passo, também cortam antes do fim. Ao final de cada episódio, quando os Fab 5 se reúnem para assistir ao protagonista viver o evento para o qual eles foram convocados para apoio, vemos o homem da vez passar pela sua Provação.

Todo o tempo do episódio mostra o período de Provas, Aliados e Inimigos, com as cinco especialidades dos apresentadores sendo trabalhadas junto ao protagonista.

Essa estrutura permite que fique evidente na tela a atuação desse grupo de Mentores. Eles organizam a vida externa do homem em questão para chegar a uma transformação interna. Durante cerca de quarenta minutos, conseguimos ver em detalhes como a vida de cada um dos homens destacados em cada episódio está perdida. Basicamente, o ponto comum dessas vidas é estarem bagunçadas.

O que faz com que o ponto comum do início de todos os episódios seja o choque da bagunça externa em que esses homens vivem.

As casas são verdadeiras espeluncas na maioria das vezes. Móveis quebrados ou mofados, locais sem passagem tomados por brinquedos, roupas não só genéricas como espalhadas. Queer Eye deixa claro de cara que os espaços em que esses homens vivem são tão bagunçados quanto as mentes que vamos conhecer ao longo de cada episódio.

Na maioria dos capítulos, a primeira atuação mostrada na edição é a de Tan, o especialista em vestuário. Essa é a organização mais simples de se fazer no início. Todo homem sabe que precisa de roupas, ainda que possa ter dificuldades quanto aos tipos. A quebra de enfrentar roupas novas, na média, é menor do que a de cozinhar, usar cosméticos, fazer uma atividade como dança ou reformar a casa toda.

Essa lógica ajuda a estabelecer um leve guia, um caminho. Conquiste por partes e comece pelo mais fácil.

A resistência desses homens é quebrada inicialmente na roupa e segue para as outras especialidades, revelando as outras bagunças de cada homem, bagunças cada vez mais interiores.

É tentador pensarmos no caminho contrário. Da vida pessoal à gestão empresarial, somos inundados de metodologias e processos voltados a encontrar a “raiz do problema”. A máxima de que não podermos tratar apenas sintomas, mas a causa. No roteiro é a mesma coisa. Falamos em Jornada do Herói ou em Beat Sheet e outros conceitos e estruturas porque queremos chegar na “verdade” de nossos personagens, no motivo pelos quais os criamos.

Faz todo o sentido seguir esse tipo de mantra; queremos resolver a causa. Mas o problema dos homens não é só a causa. Os sintomas precisam ser resolvidos também. Pelos sintomas vivemos depressões, nos tornamos agressores, nos suicidamos mais, morremos mais cedo de doenças mil.

Nós homens, antes de qualquer causa, estamos travados. Cada episódio de Queer Eye escancara essa realidade visualmente.

Nessa realidade, o risco é que o mantra seja repetido como fuga. “Só podemos atacar os sintomas junto à causa”. Não sabemos as causas, não as atacamos, e nem nos despimos das camadas de sintomas que as acobertam.

Em meu processo de terapia — recomendo — , aprendi que a fuga é uma das formas pelas quais mente e corpo reagem a gatilhos de ansiedade. É a forma que eu mais demonstro, inclusive. A cada episódio de Queer Eye, minha mente viajava imediatamente, impulsionada pela bagunça do protagonista, para a minha própria bagunça. Para cada coisa jogada no quarto, para as louças espalhadas na cozinha, para as pendências de cuidados de saúde que ainda não cumpri.

Eu sentia como a diferença entre mim e o cara ali na tela, que parecia tão perdido e absurdo, era só a intensidade do sintoma. Sinto agora, escrevendo esse texto. Porque indo além das roupas e louças e pendências, questões profundas como as daqueles homens navegam pela minha mente. Sobre carreira ou segurança financeira ou minhas inseguranças sociais.

Arrumar o externo, apenas, não será a solução de nenhum problema, claro. Homens com imagens cuidadosamente projetadas também podem esconder interiores perdidos. Mas começar pelo externo, por coisas simples como a nossa casa ou quarto ou a roupa, pode ser um caminho.

Não é à toa que comentei que os episódios de Queer Eye se encerram na Provação. A atuação dos Mentores Fab 5 vai até onde é possível. Um caminho se tornou visível e palpável para cada homem destacado na série. Mas o caminho deve ser andando por cada um.

A Jornada do Herói chama isso de Caminho de Volta. O estágio em que o herói, com a Recompensa em mãos após enfrentar a Provação, retorna para o Mundo Comum capaz de concluir sua transformação. Sua Ressurreição.

Mais do que jornada do herói, parece que é essa a jornada que nós homens estamos precisando percorrer.

Se você ainda não abriu o link, te deixo com o texto do Farofa Geek citado lá em cima. Vale muito a leitura:


Você também pode ler outras análises de representações masculinas em histórias aqui. Para outros tipos de análise de filmes e séries, pode seguir por aqui. Esse texto foi originalmente publicado no Além do Roteiro.