Quem é o cego?
Uma ida comum ao banco, Marcos não caminhava distraído. Pelo contrário, tinha pressa, pois depois do banco deveria estar às 17 horas na faculdade. O banco era apenas há duas quadras de sua casa, então apenas o passo firme, sem apreensão era o suficiente. Na rua que é caminho para o banco tem um brechó, e na calçada que Marcos usava, vinha na contramão um homem, com uma bengala e óculos escuros.
Marcos percebeu sem dificuldades que o homem era cego e isso o inquietou, de modo que ele modelou o olhar e a expressão facial. Tinha visto em um documentário que eles não são “coitadinhos” e que vê-los assim era preconceito.
— Boa tarde, o senhor poderia me dizer se aqui é o brechó? — Perguntou o homem.
O homem não via Marcos, não havia motivos para o desconforto. Mas o que havia em Marcos não era desconforto, era a invisibilidade daquele homem desconhecido, que no fim da noite teria esquecido a voz. Aliás, a única coisa compartilhada entre ambos. Marcos respondeu:
— Sim, é aqui, porém já está fechado. O horário de funcionamento é das 13 às 17 horas e agora são 16:50, então devem ter fechado mais cedo. Funciona de segunda à sexta, o senhor pode voltar amanhã.
Não havia nenhum outro modo de informação para aquele homem sem que outra pessoa o ajudasse, a calçada não tinha a escrita em braile, todo o ambiente não lhe levava em conta como cidadão ou cliente. Ele era cego, mas quem não enxerga é o Estado, as lojas, as empresas…
Para Marcos era continuar sendo um sujeito normal, para aquele homem a invisibilidade nunca foi um poder como nos filmes da Marvel.
Até agora eu não sei quem é o cego. Se aquele homem ou eu? A sociedade com toda certeza.
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