Revista Subjetiva
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Quem sou eu na quarentena

Uma pessoa muito menos perfeita do que eu pretendia ser

uma pessoa que só quer dormir no sol com um pano na cabeça cercada de cachorros

Não sou uma boa estudante. Não sei estudar, nunca estudei: eu só prestava atenção na aula. Agora, nem isso: tô sempre distraída com alguma outra coisa. Pra tu ter uma ideia, eu só consigo ouvir o que o professor tá falando quando ao mesmo tempo fico jogando tetris ou spider. Isso significa que estou sendo uma mestranda medíocre. Não consigo me dedicar ao que não me interessa muito (só quero ler sobre o antropoceno) e não estou fazendo todas as tarefas das disciplinas.

Tenho saudade de dançar forró, de gastar dinheiro, de pedir um delivery de comida de vez em quando, de beber um espresso na padaria, de sair caminhando por São Paulo, de comprar coisas online e receber em casa (aqui não chega correio e não tem delivery de comida vegana trasheira e nem não trasheira).

Tenho bebido vinho/cerveja e coca-cola e tenho fumado cannabis com muita frequência. Tenho sentido vontade de "tampar" coisas que nem sei o que são. Tenho sido descontrolada com comida. Não tenho conseguido comer bem nem fazer jejum. Tenho engordado e não tô gostando.

Acordo todos os dias meio enferrujada. Não tô querendo fazer exercícios e não tô caminhando na rua quase nunca. Tô sentindo meu corpo atrofiar. "Ocupa teu corpo", me digo de vez em quando. Tô me sentindo desocupando meu corpo. Meu principal problema pessoal com a quarentena é esse (e o abuso de comida/álcool, o que faz parte da mesma questão). Tô sumindo do meu corpo. Sem dançar nem correr nem caminhar nem beijar nem abraçar nem transar nem fazer exercício eu tô ficando pequena dentro do corpo. Meu corpo tá virando um saco vazio, desabitado e mole. Me falta também a vontade de fazer essas coisas todas.

O que eu quero com esse texto? Que alguém passe a mão na minha cabeça e me diga que tá tudo bem. Que tudo tem seu tempo, e seja gentil contigo mesma. Que são tempos difíceis e tu não é a mulher maravilha que passa com trator por cima de tudo. Que tá tudo bem, não reclama de barriga cheia, sua branquinha privilegiada do caralho.

Eu tô tentando passar com trator, o problema é esse. Eu tô em negação e não sinto nada.

Por favor, tira esse pacote de paçoca da minha frente.

Não sei chorar, escrever é o mais perto que chego de sentir alguma coisa.

@alenahra no Instagram

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