Resíduos da mente nas redes
A importância de filtrar as informações que chegam até nós.

Você já ouviu falar em “mental rape”? É um termo em inglês que começou a ser utilizado por alguns pesquisadores da área da saúde mental para definir o impacto que a enxurrada de informações provoca nas pessoas, e em tradução livre isso quer dizer “estupro mental”. É tanta coisa que vemos, ouvimos e sentimos durante o dia quando estamos na Internet que a nossa mente não tem tempo para processar tamanha quantidade de dados ou estímulos.
Por exemplo, suponha que você está com o seu celular ouvindo música, abre o Facebook ou o Twitter e imediatamente dá de cara com uma notícia que te deixa chocado, com raiva ou apreensivo; nesse meio tempo alguém te chama no WhatsApp para conversar e te envia um meme aleatório ou um vídeo interessante, tudo isso enquanto você faz um upload de uma foto no Instagram, e então chega uma notificação de e-mail, que na verdade é só uma propaganda de uma assinatura de revista, e antes que você sequer abra a caixa de entrada, alguém curte a sua foto. Você vai olhar quem é e vai direto nos stories daquela pessoa para ver o que ela está fazendo, afinal, você não pode ficar de fora, não é mesmo?
E isso tudo acontece em menos de 5 minutos.
Pode parecer exagero, mas é nessa velocidade que muitas pessoas estão levando suas vidas. É tudo tão instantâneo e raso que parece que não há mais espaço para o momento em que se está vivendo, também conhecido como o presente ou o agora. E isso significa que as pessoas de fato não estão vivendo, apenas existindo. Os números não mentem, o suicídio é uma realidade diária e está mais próximo de nós do que imaginamos. As mentes estão cada vez mais cheias de resíduos, e a maior parte desse lixo é virtual. Provém da busca desenfreada pela novidade, pela ansiedade de não perder o que está acontecendo na vida do outro ou no mundo.
E em seguida vem a frustração. Pois é muito fácil ser vítima do ciclo de validação que se busca ao se tornar um usuário frequente das redes, pois quanto mais se busca mais se frustra. E isso vai se repetindo, todos os dias, até o indivíduo começar a não ver mais sentido na sua própria vida. Qual o intuito de estar aqui se não for pra ser o mais popular ou mais bem sucedido? E então entra a depressão. Pois, por natureza nós já nos cobramos para sermos melhores a cada dia. Mas melhores para nós mesmos. A partir do momento que eu compartilho a minha vida na rede, estou entrando num campo de batalha para competir com os outros. Quem vive melhor? Quem fala melhor? Quem se veste melhor? Quem come melhor? E assim o propósito de vida vai se definhando, uma vez que o que era para ser uma comunidade de pessoas humanamente conectadas, se torna apenas uma vitrine de pessoas isoladas.
E essa é uma das consequências que o contato excessivo com o que é virtual pode trazer. Quando não há uma filtração dessas informações, o resíduo é tão tóxico que mexe com você, atrapalha o seu bem estar, te machuca, te choca, te faz chorar sem que você nem se dê conta disso. Em outro texto, citei quais são os caminhos que podem contribuir para que você estabeleça uma relação mais saudável com as redes e não deixar se perder nelas. Caso desejar, você pode lê-lo antes de continuar — “Redes sociais e seus efeitos colaterais.”
Por esse motivo e tantos outros, saúde mental tem sido um dos temas que mais precisa ser colocado em pauta e ganhar novos espaços. É mais do que evidente o efeito negativo que o mau uso das plataformas digitais tem causado na nossa sociedade. Mas nós podemos fazer a diferença. Nós podemos dizer NÃO à demanda surreal e ilusória de se ter cada vez mais. Um ambiente virtual saudável se constrói com a consciência coletiva de que ser quem se é, mesmo vulnerável, já é o suficiente e vale muito mais do que qualquer outra coisa. Crie o hábito de espalhar inspiração, amor e esperança nas suas redes. Com certeza você estará contribuindo para melhorar o dia de alguém, e consequentemente, o seu também.
Seja a limpeza que você quer ver na web.

