Resenha: “O que é o Contemporâneo?”, de Giorgio Agamben

O texto “O que é o contemporâneo?” foi escrito a partir da lição inaugural para o curso de Filosofia Teorética, ministrado por Giorgio Agamben entre 2006 e 2007. Sua intenção foi a de demonstrar aos alunos que a capacidade de cada um deles de se fazer contemporâneo ao seu tempo, assim como ao de autores e textos que ali analisariam, era essencial para o sucesso do curso. O que encontramos nesse texto, portanto, é uma compreensão mais ampla do conceito de contemporaneidade.

Diferente da palavra — e do seu significado inscrito nos dicionários gramáticas — , Agamben se preocupa aqui com o conceito. Contrariando o que mais comumente pensamos, aquele que adere sem atritos ao seu próprio tempo, sentindo-se em harmonia total com ele e com seus elementos, não poderia ser contemporâneo. É com o conceito de intempestividade de Nietzsche que o autor começa a delimitar sua concepção. Mas como poderia o intempestivo, o inoportuno, definido como aquele que está “fora do tempo próprio”, “imprevisto, súbito”, ser tomado como uma característica do contemporâneo? Pois é. Assim é (ou deveria ser) a filosofia e a ciência: rejeitando as mais óbvias constatações, nos provam que aparências opostas podem constituir conceitos complementares.

Em suas “Considerações Intempestivas” Nietzsche declara que “Intempestiva essa consideração o é porque procura compreender como um mal, um inconveniente e um defeito algo do qual a época justamente se orgulha” (NIETZSCHE apud AGAMBEN, p.58). Nesse sentido, é por não se adequar perfeitamente a seu tempo que o filósofo poderia melhor compreendê-lo.

Ofereço novo exemplo: é muito comum a frase “quem está de fora enxerga melhor”; diria até que esse princípio é a base e legitimação para que procuremos ou aceitemos qualquer tipo de conselho. A mesma lógica perpassa a concepção de que a intempestividade é característica indispensável ao contemporâneo. Quando buscamos conselhos ou opiniões externas, recorremos não a qualquer um, mas ao amigo, aquele que trará o olhar de fora mas que só pode fazê-lo por conhecer os elementos envolvidos; ele é externo, mas nunca alheio. É também assim com a contemporaneidade. O contemporâneo não é aquele que deseja viver em outro tempo, um nostálgico que sente-se pertencente mais à Rússia de 17 ou ao Brasil de 64 do que ao período em que vive. Como define Agamben:

“A contemporaneidade, portanto, é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, essa é a relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo. Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela” (AGAMBEN, p.59).

O autor prossegue dizendo, com a ajuda de Osip Mandel’stam*, que o contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar em seu próprio tempo, para nele enxergar não as luzes, mas sua escuridão. O que seria essa escuridão? O que encontra o contemporâneo ao encará-la?


O Escuro

Segundo a neurofisiologia da visão, a ausência de luz desinibe as off-cells, células periféricas da nossa retina. Elas, quando em atividade, produzem uma forma específica de visão a que chamamos “escuro”. Nesse sentido, o escuro não é apenas “ausência de luz” ou uma “não-visão”, mas resultado de uma atividade especial da nossa retina.

Nesse sentido, perceber o escuro não é passividade. Implica a capacidade de neutralizar as luzes do seu tempo e enxergar as suas trevas, com a consciência de serem elas partes indissociáveis.

Já para a astrofísica contemporânea o escuro que enxergamos ao observar o céu noturno nada mais é do que a luz que não pode nos alcançar, ainda que sua viagem em nossa direção seja incansável. Isso porque ela provém de galáxias que se distanciam de nós a uma velocidade superior à da luz. O presente é como essa luz. O presente nunca pode nos alcançar.

“Perceber no escuro do presente essa luz que procura nos alcançar mas não pode fazê-lo, isso significa ser contemporâneo. Por isso os contemporâneos são raros. E por isso ser contemporâneo é, antes de tudo, uma questão de coragem: porque significa ser capaz não apenas de manter fixo o olhar no escuro da época, mas também de perceber nesse escuro uma luz que, dirigida para nós, distancia-se infinitamente de nós. Ou ainda: ser pontual num compromisso ao qual se pode apenas faltar” (AGAMBEN, p.65).

A contemporaneidade possui particular relação também com o arcaico. Isso porque é preciso, para ser contemporâneo, enxergar no que há de mais recente os vestígios de sua origem. Pois, assim como a infância se faz presente e atuante na vida adulta, o passado — a origem — permanece ligado ao caminho da história (ao seu devir) e agindo sobre ele.

Aqueles que se dedicaram a pensar a contemporaneidade só puderam fazê-lo pois introduziram no tempo uma cisão, uma ruptura, retirando o presente da “homogeneidade inerte do tempo linear”, de forma a ter um olhar renovado diante da relação entre os tempos (como entre o arcaico e o atual). Quando o indivíduo consegue se referir ao seu tempo, necessariamente deve enxergar um ponto de cisão, uma fratura no desenrolar da história. E é desse ponto de ruptura que pode lançar um novo olhar não só para o seu tempo, como também para o passado.

“Isso significa que o contemporâneo não é apenas aquele que, percebendo o escuro do presente, nele apreende a resoluta luz; é também aquele que dividindo e interpolando o tempo, está à altura de transformá-lo e de colocá-lo em relação com os outros tempos, de nele ler de modo inédito a história, de ‘citá-la’ segundo uma necessidade que não provém do seu arbítrio, mas de uma exigência à qual ele não pode responder. É como se aquela invisível luz, que é o escuro do presente, projetasse a sua sombra sobre o passado, e este, tocado por esse facho de sombra, adquirisse a capacidade de responder às trevas do agora” (AGAMBEN, p.72).

A contemporaneidade, portanto, pode ser compreendida como uma relação que o indivíduo assume com o seu tempo (ou com qualquer outro tempo sobre o qual lance seu olhar), por meio da qual produz ou identifica no desenrolar da história pontos de cisão e, a partir deles pode neutralizar o brilho que tudo aquilo que é novo e moderno emite, para enxergar suas trevas. É também o contemporâneo que, conhecendo o escuro do seu tempo, pode voltar-se para a origem (para o passado) e questioná-la quanto às suas consequências.

*Agamben coloca trechos do poema A Era, datado de 1923, demonstrando a relação que assumo o poeta com o próprio tempo.

Bibliografia

AGAMBEN, GIORGIO. “O que é o Contemporâneo?” In: O que é o Contemporâneo? e outros ensaios; [tradutor Vinícius Nicastro Honesko]. — Chapecó, SC: Argos, 2009.


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