Roma: o pecado pelo excesso (ou pela falta?)

Carlos Massari
Feb 14, 2019 · 6 min read

Esse texto contém spoilers sobre o filme Roma, de Alfonso Cuarón.

Oficialmente, Roma tem seu título derivado de um bairro de classe média alta da Cidade do México. Porém, não é muito difícil de fazer uma conexão entre ele e a obra do mestre italiano Federico Fellini e perceber que também existe aí um caráter de referência/homenagem.

Pela sinopse divulgada e boa parte do marketing, a impressão passada é que trata-se de um filme de nostalgia, daqueles que cineastas fazem para contar sua infância ou adolescência de forma empática e carinhosa. Ninguém fez isso melhor do que Fellini em Amarcord, uma de suas obras máximas.

Além disso, Fellini começou sua carreira trabalhando em obras neo-realistas, chegando a ser indicado ao Oscar como roteirista de Paisà, de Roberto Rossellini. E durante sua carreira, contou histórias com protagonistas femininas fortes, especialmente na fase que empregava constantemente sua musa Giulietta Masina — destaque para Noites de Cabíria e A Estrada da Vida.

Roma é um filme de nostalgia, flerta com o neorealismo e é uma história sobre mulheres fortes sofrendo com uma sociedade extremamente machista. E, ao mesmo tempo, não é nada disso. A aproximação e a homenagem a Fellini são ao mesmo tempo a glória e a ruína do aclamado filme de Alfonso Cuarón.

A parte do filme de nostalgia aparece mais do primeiro terço, antes dos dramas serem completamente expostos, com a relação entre a personagem da empregada e as crianças. Mas esse claramente não é o foco da narrativa, ou pelo menos não é a partir do início do segundo terço. E mesmo enquanto isso acontece, é de maneira um fria e pouco inspirada, longe dos melhores momentos de grandes obras que já se aproveitaram do tema.

O flerte com o neorealismo é claro em algumas escolhas de Cuarón — a escalação de Yalitza Aparício, que nunca tinha atuado na vida, é a principal delas. No decorrer do filme, há algumas cenas que lembram demais esse cinema italiano do pós-guerra, principalmente quando a protagonista vai em busca do pai de sua filha e passa por comunidades muito pobres. Ali, a estética parece saída diretamente de um Rossellini ou Visconti dessa época.

E nada é mais claro do que a tentativa de Roma de contar a história de duas mulheres que sofrem com questões de gênero em um México dos anos 70, sociedade ainda mais machista do que a que conhecemos hoje. Desamparadas, elas precisam sobreviver com forças que muitas vezes parecem não existir. Vale dizer que são duas personagens fortes e bem-construidas.

Ainda há um quarto filme dentro de Roma, esse nem tanto fellinesco, que é a aparente tentativa de contar uma história como pano de fundo para a recordação de acontecimentos históricos. Alguns dos fatos mais importantes da história mexicana estão pincelados dentro do filme e são relacionados diretamente com os dramas pessoais de suas protagonistas.

Durante dois terços de filme, Roma tenta ser quatro coisas diferentes, e não consegue ser nenhuma. A impressão que eu tenho é de uma obra confusa, que não sabe quais rumos tomar. O filme de nostalgia é abandonado bem cedo, o neorealismo nunca deixa de ser um flerte, as histórias das mulheres em uma sociedade patriarcal são pinceladas, a narrativa épica nunca é aprofundada, de maneira que se você não sabe o que são aqueles acontecimentos que acabam em atos de extrema violência na Cidade do México, continuará sem saber. Afinal, aonde Cuarón quer chegar com tudo isso?

É por isso que eu digo que, durante seus primeiros dois terços, Roma me aborreceu. Eu fui aos poucos perdendo o interesse no que ele tinha a dizer, perdendo interesse em seus personagens, perdendo interesse no que parecia ser uma tentativa megalomaníaca de um diretor talentoso de fazer vários filmes dentro de um, mas sem jamais conseguir um aprofundamento relevante em qualquer um deles.

Tudo isso, é claro, acontecendo debaixo de uma estética que é não menos do que espetacular. Desde a cena inicial, com o avião refletido no chão, passando por várias construções de planos e usos de luz, Cuarón cria várias imagens poderosas, que sozinhas podem ser impactantes, mas não vão muito além disso justamente por não terem um apoio mais natural de sua narrativa.

Felizmente, no último terço Cuarón parece encontrar qual é a história que quer contar, e essa é a história não nostálgica, mas ainda empática, daquela mulher que serve como empregada na casa de classe média. E essa não é uma narrativa sobre a relação entre ela e a família, como algumas críticas negativas fizeram parecer — em breve, retomo esse ponto.

Aos poucos, a tela passa a ser toda de Cléo, toda de seus dramas internos, de sua sensação de pertencimento ao mundo, ao espaço que a envolve, às suas obrigações. E tudo isso culmina com uma cena que é fantástica, quase uma obra-prima por si só, que é a da praia. Ali, a narrativa tem momentos de potência, a personagem é construída em extremos de sentimentos e pode finalmente ter seu momento de expressão e de catarse em relação ao que antes tinha sido mostrado de forma simplesmente monótono.

O flerte com o neorealismo fica para trás, o contexto histórico também. O que continua é o momento no qual os filhos da patroa contam a avó que Cléo salvou a vida deles, e em seguida viram para a protagonista e dizem: “Faz uma vitamina de banana para mim, por favor?”

Roma é, portanto, um filme com dois terços confusos e monótonos e um terço espetacular, sempre apoiado por uma estética que é provavelmente uma das melhores do ano e merece todos os prêmios que forem a ela entregues.

Mas seria um filme melhor se assumisse desde o início que essa era a sua história, sem se preocupar com nostalgias ou contexto histórico. Ou se abordasse toda a questão de maneira diferente, o que provavelmente o transformaria em um épico de três horas e pouco, mas aí sim com grandes chances de ser uma obra marcante.

Eu gostaria, sim, de ter aprendido com o filme, e não com pesquisas feitas depois, que a cena da loja de móveis relata um momento conhecido como Massacre de Corpus Christi, no qual grupos paramilitares conhecidos como Los Halcones, que eram treinados pela CIA para reprimir movimentos estudantis e de esquerda com violência no México, mataram cerca de 120 estudantes que protestavam pelas ruas da capital do país. Se é pra pincelar, por favor se aprofunde, amigo Cuarón.

Estou feliz pela estética e pelo último terço de filme, e estou triste que os dois primeiros sejam de tanto aborrecimento perto disso. Cuarón poderia ter sido mais ele mesmo desde o começo, ter se afastado de homenagens e referências e feito um filme verdadeiramente bom.

Deixe Fellini para Fellini. Temos Amarcord e Noites de Cabíria nos nossos corações.


PS: Sobre a questão da relação entre patroa e empregada, que muitas páginas citaram como sendo romantizada ou ao menos não problematizada, não vejo nenhum problema. Não é o foco do filme e ele não é assertivo positiva ou negativamente sobre isso em parte alguma. Comparações com Que Horas Ela Volta?, que tem esse tema como central, me parecem bastante equivocadas.

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Carlos Massari

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Jornalista, roteirista, escritor. Falo aqui sobre cinema e os esportes que não falo em outros lugares.

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