Saindo À Francesa.

Sobre incoerências.

“Hoje eu não vim pedir por socorro, na verdade hoje eu tomei foi vergonha na cara, mas faz só 5 minutos… já me decidi… eu vou embora desse lugar.”

Espantado com tamanha balburdia, peguei um óculos escuros na mesa, coloquei meus fones de ouvido, dei aquela olhada por cima do ombro, fechei os olhos lentamente, apertei o “play” e sai de fininho, à francesa.


Não me leve a mal, juro que não estou deixando essa festa por sua causa, você entrou bem no meio do meu campo de visão enquanto eu encarava o outro canto da sala… é que estou farto, não consigo levar isso adiante.

O que eu estava olhando? Meu subconsciente materializou-se por alguns segundos no outro lado da sala e estava gritando comigo, faz tanto barulho aqui que só consegui entendê-lo através de uma leitura labial.

“O quê você está fazendo aqui, querido?”

Ora, não se faça de sonso uma hora dessas da noite, você está vendo as mesmas coisas que eu nesse lugar, olhe ao redor. Olhe a hipocrisia que baila por todos os cantos dessa casa.

Não sei o que eu fiz ao universo, mas o Karma ao invés de me cobrar parcelado me trouxe um boleto com pagamento à vista!

Eu e você temos várias camadas na nossa vida: Família, faculdade, trabalho, relacionamentos etc.,e hoje calhou de todos se encontrarem na mesma festinha. Um conclave das almas perdidas e eu ali… omisso com um ridículo sorriso amarelo.

O problema não é o encontro em si, mas o vínculo fora do normal entre eles, todo mundo se completa direta ou indiretamente, menos eu para variar.
Será que abri a Caixa de Pandora em pleno Século XXI?

O motivo de tanto descontentamento? Vou detalhar o climão generalizado.

No meio da sala está o chefe do meu tio com um microfone na mão, bêbado ele tenta acompanhar o karaokê, mas o álcool atrasou seu raciocínio há horas. Ele veio dirigindo e assim regressará para sua casa. Ontem ele disse que odeia gente hipócrita, hoje é refém de suas próprias palavras.

Perto das cortinas está meu tio e dois “amigos” conversando sobre uma outra festa (a tal “festa da democracia”). Meu tio faz um sinal de arma com a mão e os outros dois o imitam e brindam às suas respectivas ignorâncias. Um deles é gay abstêmico, outro sai com travestis (cá entre nós, ele negará a informação até a morte) e último é apenas um ser genuinamente ruim.

Lá do outro lado da sala temos duas pessoas da empresa dançando juntas, ele é o superintendente descolado, engraçadérrimo e com cara de bom moço perto da secretaria que ama dançar (apenas dançar, repito). Ela apenas se divertindo. Ele com segundas intenções. Ela percebe, diminui o passo e tenta sair de fininho. Ele a deixa ir, mas antes a apalpa. Ela gela. Ele a encara. Ela sai de cena rumo ao banheiro. Ele digita no celular para a esposa: “Amor, acabei de chegar no aeroporto, amanhã estarei em São Paulo”. Ele já estava em São Paulo há dois dias.

Sanda Anderlon (etsy space)

No sofá, minha prima encontra uma amiga do trabalho, elas conversam sobre seus objetivos de vida. Uma tenta se sobrepôr a outra. Quem já viajou para Paris? Quem fez pós-graduação primeiro? Quem possui um relacionamento mais sólido? Quem tem o carro do ano? Por fim, elas prometem se “ver qualquer dia desses”. Uma sai mais cedo da festa para correr atrás do último ônibus (já é quase meia noite). A outra pede um Uber, mais uma corrida para o cartão de crédito estourado (cujo o vencimento é amanhã).

Por fim, o cristão dono da moral e dos bons costumes, que mistura política e versículos bíblicos nos textos do Facebook (e fala de um tal de Olavo), acaba de subir na mesa com uma garrafa de tequila na mão.

Você sabia que “sair à francesa” em francês é “filer à l’anglaise”, que significa “sair à inglesa”? Engraçado, nunca é culpa de ninguém e sempre sobra para o álcool.

Essa festa faz a Divina Comédia parecer um conto de fadas (perdões, Dante). Não porque e mais poética, mas porque é real demais para ser verdade.

Cansei de fazer parte disso tudo, pois, querendo ou não, eu tenho um pouco de cada um desses que me rodeiam… sabe aquele chavão désagréable que diz: “Somos a média das pessoas que nos cercam”? Isso nunca foi tão real a essas alturas da noite.

Por isso eu, ilustre persona non grata do recinto que vive tentando abrir os olhos de todo mundo, vou fazer um favor a esse desconexo e caótico festejo pré-apocalíptico e irei me retirar.

Quem não fala nada quando pode, do climão partilha.
Quem não se posiciona, é posicionado.

Você me deu as costas e por um momento pensei que tudo tinha sido em vão. Eis que, sem mais nem menos, você depositou uns óculos escuros na mesa e sumiu.

Espantado com tamanha balburdia, peguei os óculos escuros na mesa, coloquei meus fones de ouvido, dei aquela olhada por cima do ombro, fechei os olhos lentamente, apertei o “play” e sai de fininho, à francesa.

Karma me desculpe pela afronta, mas dessa água não mais beberei.


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