sapatos brancos
ou “a minha rua não tem asfalto”
A impecabilidade desde sempre foi um dos sinais de poder e status social. A alta monarquia europeia vestia roupas limpíssimas e raramente tocavam o chão que rodeava seus castelos ou mansões. As peles das damas e dos cavalheiros da época levavam camadas e mais camadas de pó de arroz para, caso as vestes não bastassem, diferenciarem-se dos meros camponeses que tinham a pele do rosto queimada pelo sol.
Segundo os deuses do Reveillon, quem estiver vestindo branco no primeiro segundo do novo ano terá paz nos próximos 365 dias. Muitos dos que estão ali na praia, pulando sete ondas enquanto comem sementes de qualquer fruta auspiciosa, usam as vestes alvas que foram compradas alguns dias antes, e calçam suas Havaianas também recentemente adquiridas caso queiram que o conjunto esteja completo.
Os sapatos brancos dos que não precisaram esperar amanhecer para pegar o metrô e voltar para suas casas não necessitam dos mesmos cuidados do outro grupo. Alpargatas, sapatilhas, tênis, etc, que não precisam que o portador carregasse consigo uma flanela para, a cada meia hora, limpar a poeira de terra que repousaria ali.
Nos lugares a quilômetros de distância de onde não tem asfalto, os sapatos brancos são tão comuns quanto arroz e feijão. O saneamento, o asfaltamento e a segurança elevada estão para aqueles que hoje são descendentes dos monarcas que, algumas centenas de anos atrás, nem pisavam no chão. Estes que quando falam “obra”, pensam em tapumes de madeira — e ainda assim dizem que “enfeiam” a cidade — não sabem o que é sujar seus sapatos com a lama da própria rua, negligenciada pelos seus próprios governantes.
E há aqueles que do outro lado da balança ainda calçam os sapatos brancos. Querendo esconder dos outros a sua própria realidade, limpando vez ou outra os sinais da sujeira que não querem limpar, pois acreditam que só merece calçar despreocupado o sapato branco quem anda em asfalto de gente que usa sapato branco.
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