Seguindo as orientações do Rei

Babi Vanzella
May 19, 2018 · 3 min read
Imagem do filme Alice no País das Maravilhas (2010)

Daqui desse momento/Do meu olhar pra fora/O mundo é só miragem/A sombra do futuro/A sobra do passado/Assombram a paisagem (Lenine)

Quando dei por mim já tinha sido devorada pela minha mente. E como sabemos e se não sabemos deveríamos, nem sempre a mente é um lugar seguro. Grande parte das vezes inclusive não o é.
Acontece que me deixei levar pelos túneis escuros e levianos do pensamento, comecei naquelas de achar que tava tudo errado e que pra ficar tudo certo só nascendo de novo e tals e fiquei super ansiosa, óbvio. E foi precisamente neste ponto que ouvi de uma amiga que por acaso é psicóloga algo singelo que teve o efeito de um bote salva-vidas lançado a um náufrago do Titanic: "o que tá ao teu alcance hoje? O que tu pode fazer agora, neste momento?".

Ela mesma seguiu respondendo que, geralmente quando se faz essas perguntas, acaba indo parar nas coisas da casa, como cozinhar, limpar, organizar.

Temos de concordar que aqui, agora, neste momento, vai ser meio complicado acabar com a fome na África ou comprar um apartamento à vista sem ter economizado um puto ou emagrecer 5kg ou “resolver a vida”. A verdade é que são bem mais simples as coisas que a gente de fato pode fazer aqui e agora. A gente pode lavar a louça, por exemplo. Pode terminar um livro, sair para caminhar. Neste momento rola pagar uma conta que tá pra vencer, cortar a unha, tomar um banho, um chá, regar a planta esquecida na sacada, pedir perdão pra alguém, comer uma fruta, escrever um e-mail, finalizar um capítulo. O presente é mais simples do que parece, e mesmo com dúvidas, inseguranças e problemas, no presente tá sempre tudo bem. Repara.

O problema é que seres humanos têm uma dificuldade louca de se manter neste momento e ficam projetando tudo lá na frente, no glorioso futuro que não é. Queremos entender e resolver situações abstratas e hipotéticas de toda sorte, queremos prever acontecimentos, antecipar conversas e momentos, queremos garantias invisíveis para coisas que nem existem. Queremos bola de cristal. E é nesse ponto que vai pelo ralo o controle sobre a mente e a vida vira um caos sem que a gente tenha sequer levantado da cama. Tá mesmo tudo errado quando bate a noia, se você reparar bem. E o pior: não sabemos por onde começar. Quando abstratas, as coisas tomam proporção de impossibilidade, se tornam grandes e assustadoras. Por onde se começa a botar ordem neste monstro?

Que tal aqui e agora. O que você pode fazer neste momento? Uma coisa por vez. Uma coisa simples por vez. São as coisas pequenas que formam as coisas grandes. É de hojes que se formam amanhãs, e não o contrário. Em vez de embarcar nas armadilhas da mente e na angústia da falta, focar naquilo que já existe, que já temos, que já somos, que já é. Um exercício capaz de salvar vidas.

E quando não soubermos por onde começar, é sempre bom respirar fundo e seguir as orientações do Rei de Copas ao coelho branco de Alice no País das Maravilhas: "'Por onde devo começar, por favor, Majestade?’, perguntou.
'Comece pelo começo,' disse o Rei gravemente, 'e prossiga até chegar ao fim; então pare.’"

Viu. É simples. A gente é que complica.

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