seis da tarde

trabalhava muito sem saber o porquê

Gabi Favarini
Aug 21 · 2 min read

Chegava às sete da manhã e, por quatorze horas, habitava o mesmo prédio. Nunca admitia, apesar das olheiras darem na cara. Trabalhava muito mesmo sem saber o porquê.

Pela manhã, pegava a chave com o porteiro — esse que terminava o turno da noite — , e subia as escadas escuras. Quando entrava no escritório, sentia o cheiro de água sanitária e banheiro limpo; a louça ainda úmida no secador.

Abria o computador e começava a digitar de forma intensa. Com o café no organismo, se perdia entre as prioridades e as urgências disfarçadas. A cada cinco atividades, dava-se um prazer: lia algum artigo mal escrito de um jornal qualquer para lembrar que tudo bem escrever mal às vezes — essa fica na conta do leitor.

Então às nove da manhã, o ciclo de reuniões começava. Daqueles ciclos que não deixam a gente nem esquentar a cadeira. Um, dois, três cafés e o almoço. Àquele seria mais um dia daqueles: até tarde. As olheiras venciam o corretor e depois de escovar os dentes dava uma leve retocada na maquiagem.

Ela, que sai às nove da noite, sabia bem dos corredores vazios. Corredores que mal assombrados ecoavam perguntas como: todos foram embora e, seria ela, uma impostora que nada entrega? Arrepios.

Dia de revolta. Logo após o almoço, decidiu que às seis horas partiria. Estava ansiosa e já esperava por olhares acostumados: ela não era assim; ela não era de passar na porta tão cedo. Quem fecharia a janela, desligaria o ventilador e apagaria a luz. Que se virem, pensou.

Faltavam duas horas e, como uma boa moça, tentava encaixar todas as entregas naquele intervalo de tempo. Havia prometido para si mesma e não queria se decepcionar mais uma vez (na mesma semana). O último email foi enviado às cinco e quarenta e cinco.

Fechou o laptop, guardou o celular, deixou a xícara na pia e foi no banheiro que já não era tão limpo. Desceu as escadas ensolaradas e deu de cara com o porteiro — que era outro, não o da noite.

A felicidade de quem tem tempo de sobra era mesclada com o desespero de não saber como aproveitar.

Impossibilitada de caminhar devagar perante tanta excitação, correu para pegar o ônibus. Um pouco mais rápido teria conseguido, mas foi atropelada.

Os colegas lamentavam da janela do escritório. Ela partiu um pouco mais cedo do que queria. Às seis da tarde.



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