Shoujo é um lixo — e aqui está o porquê

Escrito com auxílio de Ana Cecília Correia.

Carol Correia
Nov 6 · 8 min read

Mentira. Eu amo shoujo. Mas todos sabemos que falar que odiar algo é razão o suficiente para outros clicarem no link e discutirem com você, não é mesmo?

Para começarmos, precisamos definir o que é shoujo:

Shoujo manga é um tipo de mangá comercializado para o público feminino entre os 10 a 18 anos.

Tal mangá possui uma variedade de histórias, mas comumente é apresentado o típico drama de vida colegial, isto é, primeiros amores, dúvidas sobre profissão e futuro.

Nos shoujos mangá, há certos coisas que são frequentemente apresentadas e aqui vai uma lista de cinco destas que me são queridas:

1. Demonstrações de afeto são eventos marcantes

Demonstrar afeto publicamente é algo marcante para os personagens — assim como estar no lado de receber o afeto.

É comum personagens que nutrem sentimentos por outro passarem diversos capítulos apenas olhando afetuosamente a pessoa amada ou ainda apenas aproveitando a presença desta.

A confissão de seu amor é um evento em que ambas as partes estão vulneráveis.

— A pessoa que eu gosto é você, c#ralho!

— an?

— Não diga ‘an’ para mim! Eu te disse, Ayame já tem um parceiro, a pessoa que eu gosto é você e eu não tenho uma noiva, p#rra!

— …

— Estou cansado disso hoje. Você entendeu tudo que estou falando?

— Sim…

— Ó-ti-mo!

— Eu te amo.

Pensando além da confissão de amor, há pequenas demonstrações de afeto, tais como o cuidado com presentes que recebem ou dão.

Em tantas festividades, a entrega de presentes é algo quase que cotidiano — sejam eles chocolates nos dias dos namorados, bijuterias ou utensílios comuns — e eles materializam o certo zelo de um para com o outro.

Da mesma forma, a forma que o personagem que recebe o presente o guarda para não ser danificado ou o utiliza em momentos especiais demonstra afeição.

— Você não tem uma borracha? Toma aqui.

Em Sakura Card Captor, é mostrado que Sakura dá uma borracha em forma de coelho para Tomoyo em sala de aula — o que mais tarde é apresentado como o objeto mais precioso desta, sendo guardado a chave.

Em Kimi ni Todoke, após o casal Kazehaya e Kuronoma ter se oficializado enquanto namorados, Kuronoma entrega todos os presentes que comprou ou fez que não teve coragem de entregar e guardou por dias a Kazehaya.

Kazehaya, em pleno verão, se entusiasma e passa a pôr em uso adorno típicos do inverno, tais como o gorro e o aquecedor, assim como comer os chocolates feitos a mão do dia dos namorados.

Enquanto Kuronoma está feliz por finalmente se sentir confortável de demonstrar afeto através da entrega de presentes, Kazehaya está feliz por ter estado na mente de sua amada a ponto de ser presenteado.

2. Personagens secundários (ou terciários) tem seu arco próprio

Protagonistas são o centro de atenção de toda a produção e seu antagonista (ou vilão) é uma das personificações de obstáculos que esse deve superar. Todos os holofotes estão sob o protagonista, mas ninguém pode negar que a história se torna mais completa — e por que não dizer, relatable — quando os personagens próximos ao protagonista têm seus próprios arcos [inclusive, podemos até observar uma tendência em apresentar a história dos antagonistas antes dos mesmos serem definidos quanto oposição ao protagonista].

Personagens bem construídos a ponto de terem suas próprias histórias independentes de outros personagens, que possuem jornadas e motivações distintas e, mais importante, que não apenas se materializam na história tão-somente para servir de muleta emocional ao protagonista dão profundidade a história.

E por mais difícil que a construção de personagens seja; sua adição além de alívio cômicos, muletas emocionais e superficialidades — para mim — apenas normaliza as diferenças e semelhanças nas pessoas.

A título de exemplo, podemos ver que quanto a dúvida sobre o que fazer quando o colégio acabar em Kimi ni Todoke: temos Kuronoma, Ayane e Yoshida que possuem questionamentos diferentes (para onde devo ir? quem eu quero acompanhar? para onde minhas habilidades me permitem ir? meu relacionamento aguentaria a distância? quero acompanhar meu namorado? o que eu sinto vontade de fazer?), possuem decisões diferentes sobre como levar seu futuro (tanto em continuar ou não os estudos, quanto para quais experiências são necessárias para seu desenvolvimento pessoal e/ou profissional) e possuem processos também diferentes que as levam a essas decisões.

As três garotas tem suas histórias apresentadas com naturalidade, as quais cada uma têm seu momento de brilhar sob os holofotes dos espectadores. Traços de suas personalidades, formas de se relacionar com os outros, pensamentos sobre si e suas motivações, dentre tantas coisas são pinceladas não com o objetivo de pintá-las como santas ou putas (como recorrentemente é narrado em outras produções, infelizmente), mas como pessoas comuns.

E isso é excepcional.

3. Amizade é valorizada, apesar de ser um romance

É muito comum o tema da amizade em livros ou séries serem tratados de forma rasa, de modo que as amizades apenas estão presentes para a protagonista desabafar sobre seus problemas ou almejar conselhos ou ainda ser apenas um recurso cômico para o público — para depois a protagonista seguir seu arco, o que costuma significar, ir aos braços de seu par romântico e isso ser a maior representação do final feliz.

No entanto, nos shoujos as amizades são relacionamentos muitas vezes construídos e mantidos através do cuidado, tempo e disposição das personagens.

Como elas se conhecem poder ser comentado entre elas ou pode ser apresentado no próprio mangá enquanto a história corre. A amizade não é pronta, como costuma acontecer nos livros e séries/filmes fora do shoujo — ela é constantemente formada pelas partes envolvidas.

4. Tramas são bem pensados — e não costumam ser prolongados

Esse ponto é apenas uma impressão que eu tenho que tem a possibilidade de ser provado errado posteriormente (inclusive, estou aberta a pontos contrários sobre).

Afinal, consumo qualquer produção norte-americana das muito bem produzidas as porcamente produzidas [em termos mais chulos: qualquer porcaria que aparecer no netflix, eu assisto], enquanto apenas consumo produções japonesas — ou, mais especificamente, shoujos — que recebem o selo de recomendação de amigos — logo, as chances de consumir produções medíocres ou ruins é bastante baixa.

De qualquer forma, as tramas em shoujos parecem ser melhor pensadas. Isto é, enquanto outras produções recebem aprovação de novas e mais temporadas, além do que a história tinha a oferecer apenas pelo critério de popularidade [ninguém pode negar que não havia necessidade alguma de uma segunda temporada de 13 reasons why, quiçá, uma terceira temporada]; os shoujos parecem ter uma data de validade.

Sendo a vida no colegial o cenário mais frequente, a história se inicia com a protagonista nos primeiros dias do colégio e finda com ela se formando — tendo direito as vezes a um posfácio com a protagonista feliz.

Em Sailor Moon, finda com Usagi casando com Tuxedo Mask; em Kimi ni Todoke, finda com Kuronoma se reencontrando com Kazehaya; em Sakura Card Captor, finda anos depois com o reencontro de Sakura e Shaoran, entre outros.

Mas nem sempre o colégio é o cenário. Em Kaleido Star, que se passa no circo, a história finda com Sora realizando seu maior sonho.

Como a possibilidade de finalizar não é algo a ser evitado, a história corre em seu próprio tempo a fim de resolver mistérios maiores e complexos, tais como a maldição milenar da família Sohma em Fruits Basket ou como os conflitos políticos no universo fantasioso de Akatsuki no Yona.

Da mesma forma, os dramas entre os personagens são explorados até sua resolução; as motivações pessoais são visualizadas através não apenas de algumas falas casuais, mas especialmente por suas ações, isto é, pela ativa busca de seus objetivos.

O que nos leva a pensar que ter uma data de validade não é de modo algum algo negativo — na verdade, deve ser a razão do gostinho doce sempre que finalizo um shoujo.

5. A proposta de esperar pelo outro — e realmente esperar pelo outro

O questionamento de se relacionamentos a distância podem existir vira e mexe é levantada todo ano. E é interessante que enquanto essa pergunta ainda é feita em tempos em que a tecnologia é grande auxiliadora para manter-nos envolvidos, nos shoujos o pedido de esperar pelo outro, muitas vezes por anos e sem qualquer forma de contato, é feita e aceita.

Ter a esperança de reencontrar o amado é suficiente para suportar a espera. Os personagens finalizam sua vida acadêmica, resolvem pendências da família, eles seguem sua vida — mas suas vidas românticas permanecem a mesma até o reencontro.

— Daqui pra frente, nós vamos sempre estar juntos!

Nem sempre o retorno da pessoa amada acontece, mas a proposição de esperar um pelo outro ainda é feito — por mais improvável que ele seja.

— Eu vou estar te esperando no futuro.

— Eu vou estar lá; eu vou correr até lá.

6. Mulheres são escritas para serem pessoas

Isso pode ser apenas uma conclusão de pontos anteriores, mas ainda é relevante de mencionar — as personagens femininas em shoujos são escritas para serem indivíduos.

E o que eu quero dizer com isso? Que as personagens femininas são escritas além da dualidade de santa ou puta, elas têm personalidades, ambições e comportamentos distintos; que elas não são escritas para serem escadas emocionais para homens (e aqui); que elas não são a única garota cercada por rapazes que não tem muito desenvolvimento; que elas não são objetificadas nem tratadas como troféus para mocinho; que elas não são reduzidas a arquétipos sexistas, nem são reduzidas a estereótipos sexistas (aqui e aqui).

Significa que elas são indivíduos.

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Carol Correia

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uma coleção de traduções e textos sobre feminismo, cultura do estupro e racismo (em maior parte). email: carolcorreia21@yahoo.com.br

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