Sobre as conexões que nos movem (e as que nos salvam)

Chester Bennington

Eu não sei quantos anos você que está me lendo tem, mas eu estou nos 27, quase 28. O início dos anos 2000 marcou também o começo da minha adolescência, que foi provavelmente a época mais difícil da minha vida. Nela, eu lidei sem ter muita consciência com o abuso sexual que sofria por parte do meu irmão, com o bullying feroz no ambiente escolar e com uma sensação de abandono muito grande dentro de casa. Não foi fácil, não foi indolor, mas eu sobrevivi e estou aqui, e não posso negar que Linkin Park e Chester Bennington tiveram muita relevância nessa minha caminhada.

Explico: com 11, 12 anos eu era totalmente excluída e desconectada do meu meio escolar. Não conseguia fazer amigos de verdade ali e as conexões que por acaso surgiam eu não era capaz de manter. Meus interesses eram muito diferentes dos que os meus colegas tinham e a minha forma de me comunicar com eles estava longe de ser a mais funcional. O resultado dessa equação é óbvia: eu passava muito tempo sozinha, o que era incômodo demais, por mais que naquela época o orgulho e a vergonha que eu sentia não me permitissem admitir.

Alguns gostos que eu desenvolvi, no entanto, foram me ajudando a criar laços e a desenvolvê-los através do tempo. Dois deles foram Harry Potter (um dia tenho que escrever sobre a relevância dessa história na minha própria, mas fica para uma próxima) e Linkin Park. Em termos musicais, eu era uma pré-adolescente bem chatinha, para ser bem sincera. Ficava ouvindo no meu diskman (POIS É!) CDs de bandas dos anos 80 e 90 que quase ninguém da minha faixa etária escutava, e como se não bastasse ainda por cima adorava música clássica, um gênero que está longe de ser popular. Quando eu comecei a me interessar pelo som criado por Chester Bennington e seus companheiros foi uma verdadeira benção, porque eu finalmente me vi musicalmente antenada com os meus colegas, que a partir daí permitiram a minha aproximação e com isso eu consegui fazer mais alguns amigos, algo que eu queria e que eu precisava demais naquele momento mais do que crucial da minha existência.

O mais legal é que eu não tive que fingir que gostava de Linkin Park para me incluir, pelo contrário. Eu curtia de verdade o som dos caras e as mensagens por eles passadas. Considerava-os incríveis no que se propunham a fazer e vivia cantando as letras a plenos pulmões, no intervalo entre as aulas, na volta para casa ou no meu quarto, sozinha. Elas eram tristes, muitas vezes desoladoras, mas a minha realidade naquele momento não era muito melhor e a identificação acabava sendo absoluta. Além disso, me fortalecia ver que aquelas pessoas com histórias de vida tão complicadas quanto a minha estavam seguindo em frente, vencendo na vida e de quebra inspirando tantas outras a fazer o mesmo. Era um alento reconfortante, como se alguém batesse continuamente nos meus ombros e dissesse no meu ouvido “essas merdas todas vão passar, você também pode chegar lá!”.

Na última quinta feira recebemos a notícia de que Chester Bennington se foi, o que de certa forma acabou paralisando todos aqueles que eu conheço que estão nos seus 20 e poucos anos, porque até quem não gostava de Linkin Park conviveu durante toda a juventude com a sua influência, constante e massiva. Seus clipes estavam na TV quando ligávamos na MTV, suas músicas foram até trilha de novela e a sua imagem era reconhecida em qualquer meio. Além disso, a confirmação de que foi um suicídio deu dimensões ainda mais devastadoras e trágicas a uma situação que por si só já era bastante triste. Bennington falava abertamente sobre a sua luta contra a dependência química e sobre seus impulsos suicidas, muitas vezes relacionados ao fato dele ter sido abusado sexualmente na infância. Ao mesmo tempo que as suas músicas e o seu exemplo foram primordiais no meu processo de recuperação e no de tantos outros jovens ele mesmo não conseguiu se impulsionar mais para continuar, o que é totalmente compreensível, claro, mas também é profundamente doloroso.

Eu não sou o tipo de pessoa que acredita que das tragédias podemos tirar grandes lições, porque às vezes é difícil pensar ou dizer qualquer coisa sobre o que aconteceu e esse me parece ser um desses casos. O que eu espero, sinceramente, é que a perda de um ídolo da nossa geração de forma tão dura e abrupta nos permita refletir sobre como nos comportamos uns com os outros, no hoje e no agora. O que percebo é que falta compaixão, empatia e gentileza no nosso trato interpessoal e na nossa relação com a gente mesmo, o que para mim é assustador. Raramente nos importamos verdadeiramente com o sofrimento alheio, normalmente não damos a devida atenção ao nosso próprio e, em pleno 2017, ainda somos muito ignorantes sobre as questões relacionadas a saúde mental. Não podemos continuar assim, porque isso não é bom para ninguém enquanto indivíduo e é terrivelmente negativo para nós enquanto comunidade, enquanto grupo.

Por mais motivador e inspirador que um indivíduo possa ser, dificilmente ele conseguirá se segurar sempre sem apoio. Em alguns momentos da vida todos nós precisamos de colo, de sustentação e de alguém que nos escute e que nos dê a mão, e eu não falo apenas de ajuda profissional aqui (muito embora ela seja primordial nesse sentido). Não viemos para esse mundo para vivermos isolados nas nossas próprias conquistas e nos nossos próprios dilemas, creio. A solidão (ou a certeza dela) machuca e dilacera tanto porque vai contra a nossa natureza, que é de trocar, de ligar, de construir e de prosperar junto. Que possamos nos lembrar disso nesses tempos difíceis, impregnados com tanto ódio, vazio e distanciamento. Que ícones como o Chester nos ajudem a não esquecer que o que mais importa é fazer o nosso melhor por nós mesmos, mas também pelo mundo e por aqueles que nos cercam.


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