Sobre mudar nos tempos da internet — esse cemitério a céu aberto

“O homem que sabia demais não sabia
Não sabia esquecer
Nem voltar atrás
Pois sabia mais, muito mais,
Do que podia saber”
(“O Homem que sabia demais”, de Samuel Rosa, Fernando Furtado e Tavinho Paes)

No último domingo, 27 de agosto, foi dia do psicólogo. Acho uma boa ocasião para externar uma reflexão que venho alimentando já há uns bons tempos: como as pessoas podem mudar nos tempos da internet?

Viver é mudar. Você pode colher esse entendimento na Grécia clássica, com o mui citado Heráclito de Éfeso, ou no existencialismo europeu do século passado, pode até dizer que é possível “ler” essa máxima no darwinismo (sobretudo substituindo “mudar” por “adaptar”). Novos desafios exigem novas respostas, situações diferentes exigem posicionamentos diferentes.

Nessa equação a memória ocupa um papel ambíguo: por um lado, lembrar-se é fundamental para a mudança. Dou um exemplo banal: certa vez, passei muito mal com um sabor específico de uma determinada marca de sucos de caixinha. Muito mal. Como estou escrevendo isso, você sabe que eu sobrevivi, mas a grande questão é: e se eu esquecer qual sabor/marca me fez mal? E se eu não me lembrar que um dia passei muito mal tomando suco de caixinha? Viver é mudar: até aquele fatídico dia, tomei sucos de caixinha tendo por única preocupação saber se estavam gelados ou quentes. Tal qual a pedra de Drummond, aquele dia marcou-me em definitivo: se quero continuar vivendo, preciso mudar o comportamento. Toda nova marca ou sabor de suco de caixinha, daquele dia em diante, será encarada com medo ou tensão — a memória estará aí pra tentar garantir que, pelo menos no que tange aos sucos industrializados, não morrerei mais ingenuamente.

Só posso mudar, me adaptar, fazer diferente… se me lembrar como fiz da outra vez.

Por outro lado, pra viver também é preciso esquecer. Veja você que loucura, se nos lembrássemos de tudo, absolutamente tudo, se não esquecêssemos de nada… não viveríamos. Pelo menos não em sociedade.

Imagine nunca se esquecer de qualquer ofensa sentida? Imagine ter vividamente na memória a lembrança de cada bom momento, de cada mau momento? Há um episódio perfeito (e, pra mim, absurdamente angustiante) de Black Mirror sobre isso: sem esquecer, ser feliz é impossível. Ou, com mais brasilidade, evoco João Bosco e Abel Silva: “o amor quando acontece, a gente esquece logo o que sofreu um dia”. Porque se não esquecer, não vai. Não se arrisca. Se pudermos evocar cada detalhe emocional de cada vivência passada, não haverá estímulo para tentarmos coisas novas, nem coragem para arriscar coisas novas. A vida será um eterno retorno: buscaremos refazer as coisas boas e evitar todas as coisas ruins.

Mas eu falei da impossibilidade entre viver em sociedade e não esquecer, e é aqui que quero chegar, é neste campo que quero propôr o jogo: como esquecer nos tempos da internet?

Exatamente um mês atrás, compartilhei na fanpage em que discuto educação, uma imagem sobre acessibilidade da ciência no Brasil. Na ocasião, um seguidor da página pontuou que aquela publicação era equivocada. Discutimos o assunto e ficou por isso mesmo. Bem, não ficou. Passei o último mês pensando nisso e cheguei numa conclusão oposta ao meu posicionamento inicial. Mudei, o seguidor estava certo. Mas só mudei porque fiz aquela postagem, porque discutimos, porque passei um mês refletindo.

Fim do problema? Não, o problema começa agora.

Vou ser direto: a internet não nos permite esquecer. Facebooks, Twitters, Blogs, Mediums… todos são como imensos cemitérios a céu aberto, nos quais tudo o que fomos continua plenamente acessível, mesmo que mudemos. Meu primeiro tweet foi postado em 2009. Passados oito anos, sou eu mesmo sendo outro: mudei radicalmente em muitos assuntos de lá pra cá, em muitos outros me mantive o mesmo. Mudei, portanto.

Há coisas que eu acreditava e não acredito mais. Há posições que eu combatia e hoje não combato mais. Amores que já não amo mais, ódios que já esqueci. Mas basta uma busca bem feita, algumas doses de paciência, e tudo pode ser evocado. Um Lucas Ed. mais machista, mais homofóbico, mais racista, menos sensível ao outro pode ser reeditado, presentificado, como se ainda existisse.

Aí você me diz: “Oras, é só apagar as fotos, postagens e tweets que não te representam mais”.

Sim, em tese basta isso. Mas lembre o que eu falei de memória: viver é também lembrar. O Lucas Ed. de hoje, menos machista, menos homofóbico, menos racista, mais sensível ao outro, só existe porque aquele do passado existiu. Me apresento agora como o rescaldo de tudo o que já fui: essas experiências desagradáveis são somadas para a construção do todo de agora. Sou também o que eu fui. Reconhecer (“conhecer de novo”) aqueles momentos impede que eu os repita e, ao não os repetir, faço de mim hoje um eu que não é mais aquilo que fui.

Aqui entra o problema: a internet não nos permite essa “amnésia experimentada”, quer dizer, aquela derrapada da qual a gente não quer se lembrar, mas que precisa ter incorporada para não repetir. A internet é cruel: a memória é pública.

Nesse sentido, penso que a internet dificulta a mudança. Às vezes, impossibilita mesmo a mudança. Ninguém mais está autorizado a esquecer ou ser esquecido. Lembra quando você estava apaixonado por aquela pessoa terrível, detestável? Quando você menos esperar, alguém resgatará um tweet, um post de Facebook (por sorte o Orkut acabou, senão resgatariam um testimonial), um cache do Google com juras de amor eterno (isso sem contar que alguém pode simplesmente ter tirado um print, né?). A internet é anti-humana nesse sentido.

Então, como fazer? Como reproduzir na internet aquele verso do Waly Salomão, e lembrar que “a memória é uma ilha de edição”? Como podemos mudar (e, portanto, crescer) num mundo de internet pluripresente, acessível a partir de computadores, de tablets, de celulares? Será que teremos de operar como caminhões de lixo na madrugada, dia sim, dia não, apagando todas as postagens que não nos representam mais? Será que no futuro criaremos uma nova profissão, o cargo de past hunter, profissional capacitado exclusivamente para caçar nossos passados, seja para revisitá-los (imagina numa campanha política?), seja para impedir que sejam revisitados, uma espécie de anti-past hunter (imagina numa campanha política?)? Como separaremos a história da mera picuinha?

Fico pensando que talvez a saída seja uma separação mais enérgica entre íntimo e público (e a clareza dessa separação é o fiel da balança no uso da internet que ainda não dominamos). Veja bem: Todo mundo aqui, repito, todo mundo aqui, quando terminou um relacionamento amoroso e começou outro, apagou as fotos do antigo. Removeu as postagens. Não acredito que essas imagens (e memórias) tenham sido de fato excluídas da existência. Vou por mim: há uma caixa na prateleira mais alta do escritório, um arquivo .rar num disco de back-up por aí contendo fotos, bilhetes, presentes dos relacionamentos que já se foram. A gente pode ser como Ryan Bingham, o personagem de George Clooney em “Amor sem escalas”: não carregar nada, não acumular nada. Mas não sei: o obsessivo em mim não dá conta. Gosto da ideia clara de que sou o somatório de tudo o que fui… mas divago. O que dizia sobre a caixa no topo do armário ou do arquivo compactado num disco de back-up é que as lembranças do vivido foram preservadas, mas recolhidas do público (a internet) para o estritamente privado (a caixa no armário). Com isso não estamos negando o passado (afinal, o quanto aprendemos com ele?) mas tornando-o exclusivamente íntimo. Não somente como forma de preservar uma espécie de “reputação”, mas também em atenção ao outro: imagina pipocar numa lembrança do Facebook uma foto daquele relacionamento que terminou há anos? A cálida lembrança para nós pode ser incômoda à quem hoje convive conosco, ainda que esse alguém saiba que sim: cada um de nós tem um passado, uma história. Não é fazer segredo: é tirar de cima da mesa da sala.

Não sei se o que proponho é solução — nem sei se pretendia apresentar uma solução. Mas sei do problema, sei dos seus danos e empaco. Para onde, José? Portanto, a você que chegou até aqui, minhas desculpas. Este texto não tem conclusões a te dar. Porque não as tenho: por um lado, acho o direito ao esquecimento um direito importantíssimo (mas não absoluto: um certo cidadão se dizer feminista hoje, não apaga todo o seu histórico de violência doméstica cometido até ontem, por exemplo), mas também acho que o apagamento completo não é a saída. Assim como acontece em nosso cérebro, é preciso uma mistura muito bem feita de lembrança e esquecimento — resta saber se os tempos atuais nos permitirão o uso dessa mistura.


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