Sobre um pássaro em dias de caos

Um pássaro entrou na minha casa. Mais precisamente um sanhaçu-do-coqueiro, uma espécie que corre pela nossa varanda aos pares, desde os primeiros raios do dia até o final da tarde. Voou, pousou em uma grande lamparina vermelha, como não poderia deixar de ser, e de lá observou o terreno meio inquieto e ressabiado.

Ficamos sem saber como reagir ao visitante inesperado. Para ajudar o bicho, tentamos de tudo, mas ele não quis comida e estava visivelmente incomodado com o ambiente desconhecido. Ressabiado, apenas nos observava atentamente, quase imóvel, como se estivesse em tamanha agonia.

Em uma tentativa frustrada de guiá-lo ao caminho da saída, reproduzimos sons da sua espécie. Nessa hora, ele reagiu: girou a cabecinha para tentar encontrá-los, escutou atentamente e depois piou, aguardando uma resposta. Piou solitário, piou alto, piou desesperado.

Nossas piores suspeitas se confirmaram: ele estava perdido. Chorei dali em diante por todos os minutos enquanto tentávamos levá-lo até uma janela para que pudesse se lançar na noite. Chorei de pena, chorei da sua solidão, chorei por identificação. Mais um se sentindo perdido por aqui.

E ao chegar no parapeito da janela, adormeceu. Como quem procura abrigo, ele não seguiu seu caminho, não vagou pela casa, não se escondeu. Ficou ali na beirinha, confortável e quietinho aguardando um novo dia. E, quando a luz da manhã apareceu, foi ao encontro dos seus.

Voou o sanhaçu, verde como a esperança, não por acaso, e acinzentado como o medo em tempos nublados.

Sentia medo, mas era livre. Que sorte a dele.


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