Sorry to bother you: o capitalismo é um experimento científico mal sucedido

Um filme sobre trabalho, ficção científica, e telemarketing.

Fernanda Maria
Oct 21 · 4 min read

A comédia de Boots Riley se passa em um mundo muito parecido com o nosso, mas provavelmente sob o efeito de algum psicótico. Usando o cenário de um escritório o enredo questiona os caminhos que são impostos para minorias identitárias para que possam conseguir algum tipo de acensão social. Utilizando hora de metáforas e hora de discursos bem diretos sobre raça, classe social e capitalismo.


Estrelado por Lakeith Stanfield (Corra, Atlanta), Tessa Thompson (Creed, Thor: Ragnaröke) e Steven Yeun (The Walking Dead, Em Chamas). O filme começa acompanhando Cassius ‘Cash’ Green (Stanfield) que trabalha como atendente de telemarketing, e mora na garagem do tio Sergio Green (Terry Crews) que está prestes a perder o imóvel e namora Detroit (Thompson) uma artista plástica. Nessa realidade existe uma fábrica que oferece moradia, alimentação e vestiário (todos uniformes) para seus empregados. A mesma companhia, que tem como CEO Steve Lift (Armie Hammer de Me Chame Pelo Seu Nome), é dona da agência onde Cash trabalha, RegalView.

Em seu trabalho Cash usa sua “voz branca” pra falar com os clientes, após ser aconselhado por um funcionário negro mais velho Langston (Danny Glover, de A Cor Púrpura). Assim, ouvimos uma pessoa dublando a voz original do ator por cima da dele. O efeito é bem interessante, e esse “talento” o ajuda a subir na carreira. Enquanto isso seus amigos, liderados por Squeeze (Yeun) resolvem fazer um protesto para exigir melhores condições de trabalho. Ele se vê então dividido entre seus ideais e a oportunidade de melhorar sua carreira e resolver seus problemas financeiros. A medida que sobre de cargo vemos mais pessoas brancas ao seu redor e as tenções raciais vão se tornando cada vez mais evidentes.

Pra entender melhor de onde vem essa história, é interessante dar uma olhada em seu diretor: Raymond Lawrence Riley, mais conhecido por seu nome artístico Boots Riley. Ele é um rapper, produtor, roteirista, diretor de cinema e ativista americano, vocalista principal do The Coup e do Street Sweeper Social Club, que se descreve como “mais que uma banda, é um clube social”. Sua familiar é de formada de militantes baseados em Chicago, seu interesse pela política começou cedo, ingressando no Comitê Internacional Contra o Racismo aos 14 anos e no Partido Progressista do Trabalho aos 15 anos. Em 1994, formou o The Young Comrades, com alguns outros ativistas da comunidade negra americana. Em 2000, liderou um grupo de jovens artistas com quem criou o “Concertos de Hip-Hop de Guerrilha” , que distribuiu dezenas de milhares de cassetes gratuitas de “The Rumble”, que ele chamou de “jornais em fita”. Em 2002, Riley ministrou “Cultura e Resistência: Escrita Lírica Persuasiva”, na Escola de Justiça Social e Desenvolvimento Comunitário em East Oakland. E em 2011, se envolveu fortemente com o movimento Occupy Oakland.

É no personagem de Squeeze que vemos a figura do líder sindical, organizando protestos e mobilizando outros trabalhadores, e é assim que ele conquista a confiança de Salvador (Jermaine Fowler), melhor amigo de Cash. Enquanto isso Detroit enfrenta seus próprios desafios se juntando a causa ao mesmo tempo que tenta se expressar como uma artista negra. Já a dose de ficção científica fica por conta, além da colônia de trabalhadores, de um experimento criado para transformar pessoas em funcionários mais eficientes.

Percebemos a aproximação com a nossa realidade, mas, ao mesmo tempo, nos perdemos nos absurdos dos cenários do enrendo. E falo absurdo no sentido de que não se enquadra em regras e condições estabelecidas na nossa realidade. Lá encontramos a figura da mídia representada por um reality show onde os contestantes batem uns nos outros pra entretenimento do público, por exemplo, o que nos coloca em uma situação onde o roteiro está sempre nos empurrando um pouquinho a mais do que estamos esperando. E em outros momentos surgem discussões sobre a políticas em tempos de virais na internet, bem próximo do que vivemos atualmente.

O filme traz essa veia ativista com grandes doses de um humor sarcástico e uma estética em tons fortes e exagerados, nos deixando meio confusos em que tempo e espaço estamos. Recomendando pra uma viagem que te leva pra um mundo fantástico e no fim de trás provocações sobre o seu mundo corrente. Com um enredo engraçado e provocador que mistura ficção científica com crítica social.


Revista Subjetiva

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Fernanda Maria

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