Revista Subjetiva
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Revista Subjetiva

Sou uma mulher heterossexual cheia de raiva dos homens

Como conciliar raiva e desejo?

my ranho-e-cabelo-ball. um sonho em 1992. desenho de Sylvio Ayala

Não tinha passado nem duas horas desde que saí da clínica quando recebi um whatsapp do médico. Dizendo que havia errado no laudo, precisava fazer outro. Não deu nem tempo de eu me perguntar "por que raios é o médico que está me mandando essa mensagem e não a moça da recepção?". Eu já sabia. Essa possibilidade já havia me passado pela cabeça: esse médico ia tentar falar comigo.

Eu tenho 50 anos na cara e ainda não aprendi. Estava lá eu deitada na maca, pernas abertas, quadril levantado, aquele lençol em cima de mim, esperando o exame começar. Para os leitores homens, que não sabem como é um ultrassom transvaginal, é assim: o profissional insere na vagina da mulher uma sonda que parece um dildo comprido e fino, com a ponta mais arredondada, coberta por um preservativo. Muito parecido com a coisa em si. Uma vez o dildo-sonda lá dentro, o profissional começa a cavocar o interior e, se a mulher tem sorte, a explicar o que ela está vendo na TVzinha que fica na frente da maca. Olha o ovário direito! Agora o esquerdo! Essa sombra aí é o útero! Fala oi pro teu mioma!

você deixaria um homem desconhecido enfiar isso em você? foto: h3med

Quando o médico usou a mão que não segurava o dildo-sonda para abrir minha vagina para introduzir o negócio, eu me dei conta. Em que roubada havia me enfiado (ou me haviam enfiado). Deitada sem calcinha, numa maca, à mercê de um homem. Consegue imaginar, amigo homem, o que é ser submetida a uma situação sexual sem ter consentido uma situação sexual? (uma mão sem luva abrindo sua vagina configura uma situação sexual, né não? ou tô viajando?)

Há poucos dias eu dizia que daqui pra frente até pra fazer uma compra eu ia escolher uma vendedora mulher. Como é que eu não perguntei, na hora que marquei o exame, se o profissional era mulher ou homem? Aquela mão, sem luva cirúrgica, abrindo caminho para o instrumento do exame, foi MUITO inapropriada (se não foi inapropriada na prática, foi inapropriada pra mim, na minha percepção, o que dá no mesmo). E eu, desde o começo, tentando fazer amizade, ser simpática, demonstrar que eu sabia das coisas do meu corpo, que eu era uma "igual", não inferior ao sabido doutor médico. Tenho mioma, hemangioma, não tenho vesícula nem apêndice; sim, doutor; por favor, o que é aquela mancha?; você acha mesmo que meu ovário é grande?

Como sempre eu fiz. A vida inteira.

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No mesmo dia, entro no OkCupid de novo. Depois de três anos solteira, muitos encontros, experiências em vários formatos, não-monogamia, sexo casual, amigos novos, algumas paixãozinhas, algumas decepções, resolvo admitir pra mim mesma e pra Universa que quero sim um relacionamento longo, estável, confortável, quem sabe até monogâmico. Quero ser a prioridade da atenção e do afeto de alguém, quero conhecer bem e ser conhecida por uma pessoa, quero intimidade, amor, interesse, risadas, conversas, olhares. Coisas que precisam de tempo e intenção para surgirem, e dedicação e trabalho para serem aprofundadas. Sou uma mulher heterossexual procurando um parceiro para a vida. Pronto, Universa: é isso que eu quero.

Mas só a deusa (e algumas amigas mais próximas) sabe a confusão interna que isso causa. Como é que se concilia o desejo pelo masculino — a companhia, o amor, o afeto, o corpo, o pau — com a raiva que tenho do masculino? Com a dor que os paus e seus portadores me causaram? Que caldo complicado se cozinha dentro de mim.

Eu cresci e me tornei mulher nos anos 80/90. Naquele tempo, leitoras jovens, a gente não tinha essa consciência sobre machismo, feminismo, abuso que, ainda bem, existe hoje. Eu fui abusada muitas vezes — na maioria delas eu não sabia que estava sendo abusada. De uns anos para cá comecei a recordar e a identificar. Isso foi abuso. Isso também. E isso, e isso. E comecei a ficar com MUITA raiva. Uma raiva retroativa. Que não foi vivida na hora, e que portanto ficou encalacrada. Guardada escondida em lugares profundos. Sabe o que acontece com coisas guardadas, né. Um dia elas estouram e vêm pra fora com a força de uma onda gigante em Nazaré. Esse dia chegou pra mim. E é justo quando eu me sinto plena: uma mulher madura, feliz com as escolhas que fez na vida, contente com o que construiu, e agora procurando uma parceria. Foi nesse dia que a raiva arrebentou a casquinha que ainda a segurava oculta. Então, aos 50 anos, eu sou uma mulher heterossexual plena, feliz, contente — e cheia de raiva.

Nessa vida que tive nos anos 80/90 eu já entendia que precisava me proteger dos homens. Eu sofri um abuso quando tinha seis anos de idade, por um desconhecido, em um elevador. Não contei para ninguém. Eu nem sabia direito o que contar. Imagina uma criança de seis anos escondendo uma coisa assim, desconhecida, perigosa, suja, vergonhosa. Talvez tenha começado aí a crescer o bolo da raiva. Ou talvez antes, quando eu me vi no colo de um parente distante, bem mais velho, na frente da televisão, e ele fazendo movimentos com a mão em cima da minha vulva. Eu querendo sair, eu querendo nem estar ali, eu calada, me sentindo mal. Eu calada. Eu tantas vezes calada. Eu não querendo parecer exagerada, eu pensando que isso é normal, eu querendo ser legal, achar divertido, dar risada. Eu querendo ser um dos caras.

Nos anos 80/90 tive a sorte de ser surfista, o que mudou minha existência de muitas maneiras e trouxe coisas que me formaram e reverberam até hoje nas minhas escolhas e estilo de vida. Mas eu tive o azar de ter como "amigos" surfistas que eram homens péssimos. Preconceituosos, homofóbicos, racistas, obviamente machistas. Homens que no litoral norte paulista chamavam pessoas de "caiçaras" de maneira pejorativa. Que chamavam nordestinos de "cabeça chata" e "baianos". Que achavam que tinha mulher pra casar e mulher pra comer. Eu era dessas. Mulher pra ser comida. Mulher eu ainda nem era, eu tinha, sei lá, 16, 17 anos. Eu queria afeto. E ser aceita. Minha moeda de troca era meu corpo. Nunca consegui trocar. Eu só dava.

que vontade de abraçar essa guriazinha

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Enquanto escrevo isso começo a sentir uma coisa na garganta, uma pressão. Penso nos enjoos que tenho às vezes. Lembro do sonho que tive muitos anos atrás: uma bola de ranho e cabelo, nojenta, feia, com gosto horrível, presa na minha garganta. Talvez esteja na hora de botar pra fora essa bola nojenta de ranho e cabelo feita de raiva.

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Eu queria ser como eles. Eu queria ser um deles. Na primeira vez que viajei sozinha, com 19 anos, eu cortei o cabelo bem curto e levei na mala umas camisetas enormes, soltas. Pra disfarçar que eu era mulher. Eu sabia que andaria mais segura se fosse confundida com um menino. Peguei um ônibus e fui para o Chile. Uma viagem de três dias. Fiz amizade com um dos motoristas. Quando chegamos em Santiago ele me convidou para dormir com ele em troca de estadia no alojamento da empresa.

No verão seguinte eu fui para Salvador pela primeira vez, com meus amigos Sylvio e Monteiro. Era carnaval, eu não gostava de carnaval na época (burraaaa, perdeu o carnaval de Salvador na época que ainda era roots, década de 90). Pois é, perdi. Os guris foram atrás do trio elétrico e eu fiquei sentada na mureta do Porto da Barra bebendo uma cerveja, fugindo do assédio dos homens que achavam que eu era uma turista gringa, olhando para os navios que passavam lá na frente. E pensando: ahhhh, se eu fosse homem… eu estaria aí dentro de um navio desses, singrando pelos mares, me aventurando no mundo. Eu sempre quis isso que eles podiam ter e fazer: a liberdade. Eu queria ser um deles. Queria a admiração deles. Me sentia especial quando percebia o interesse de certos homens. Mas eu queria que esse interesse fosse pela pessoa, e não pela buceta. Eu queria ser amiga, e não foda. Eu não queria ser mulher pra comer e nem pra casar: eu queria ser parça. E eu perdi a conta de quantas vezes eu dei pra um cara desses sem querer dar, apenas para poder ser aceita. Nunca fui.

(nesse mesmo verão do navio eu quase fui estuprada por um homem imenso, devia ter quase 2m de altura, que vestia apenas uma sunga, num barraco perto da praia. ele era o vendedor de coco, eu fui com ele fumar um no barraco. eu tinha feito "amizade" com ele. eu era um dos caras, né? eu só queria fumar um, mesmo. para conseguir me livrar do estupro tive que fugir do cara, empurrá-lo fisicamente (imagina, eu tenho 1m52 de altura) e passar a conversa nele, prometendo que amanhã eu voltaria para consumar o ato. quando contei isso pros meus amigos, eles acharam engraçado, ficaram tirando uma onda da minha cara e perguntando por que eu não tinha dado. pelo resto da viagem eu nunca mais comprei coco do cara e evitei até passar na frente da banca. se eu tivesse sido estuprada não poderia nem ter reclamado, afinal eu fui porque quis para um barraco com um homem imenso de sunga, e para "usar drogas". ok, eu era totalmente ingênua e absolutamente imbecil. mas, como sabemos, não é não — e já era naquela época, ainda que a gente não soubesse)

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Uma vez um dos homens que eu admirava e de quem eu queria ser parça veio me dizer que eu estava gordinha. Ele usou uma metáfora. A lua tá cheia, ele disse, ou algo assim. Eu demorei para entender o que ele estava dizendo. Eu demorei para entender não apenas porque sou ruim pra entender metáforas, entrelinhas, ironias e sarcasmos, mas também porque não me passava pela cabeça que eu estar ou não gordinha fosse uma coisa que dissesse respeito a ele. Afinal, ele não diria isso para um amigo homem. Mas era: ele queria me comer. E as meninas surfistas tinham que ser gostosas e magras. Ele estava me criticando, mas ainda assim queria me comer. Ele estava me dizendo que eu estava inadequada para ser comida por ele, e que se eu quisesse continuar a ser desejada por ele eu deveria emagrecer. Eu, que queria ser vista como a íntima do surfistão fodão descobridor dos sete mares, não fiz o que seria óbvio fazer: mandar ele à merda, vai cuidar da sua vida, seu velho feio e barrigudo! Não, eu dei uma risadinha sem graça e mudei de assunto. Disfarça e vamos voltar a ser parças, porfa. Anos fugindo de assédios de caras assim, de quem eu, mesmo assim, queria ser amiga. Aceita.

Amiga, tenho mais é que ter raiva. Muita raiva.

Agora me vingo na imaginação, dizendo coisas horrorosas pra esses homens na minha cabeça, capando todos eles com requintes de crueldade, torturando, impalando, ouvindo-os chorar, gritar, chamar a mãezinha deles.

Enquanto isso, ali no OkCupid, passeio pelos perfis de um monte de homens do mundo inteiro. Falei pro app que queria ver gente de "everywhere", porque já viu os perfis de homens da minha idade em Santa Catarina? Perdão, homens da minha idade de Santa Catarina, mas, com poucas excessões, é show de horror. Se eu fosse uma mulher mais convencional poderia até dar certo. Por mais convencional eu quero dizer: usa salto alto, se maquia, mora em uma cidade, vai no shopping, gosta de sertanejo. Sem querer estereotipar, mas tentando definir uma mulher de 50 anos dentro do padrão esperado para mulheres de 50 anos de maneira geral. Nada contra essas mulheres, mas não sou eu. E portanto também não quero um homem de 50 tradicional, convencional, padrão: sucesso na vida é dinheiro e apartamento em Camboriú, diversão de domingo é churrasco, foto segurando peixe morto, foto com carrão; em Santa Catarina provavelmente também é bolsonarista. Não dá, gente. Não tive filhos, sou toda tatuada, moro na roça, uso xampu só uma vez por mês, só calço havaianas e quando muito All Star, não raspo o sovaco, não como bicho morto, não tenho a menor tolerância pra machismo, fascismo, burrice eleitoral. Além disso, um homem "tradicional" pode muito bem vir a ser o abusador, estuprador, o médico que toca sem luva a vagina de uma mulher que está à sua mercê para ser examinada. Essa é outra treta séria: como distinguir um homem decente de um abusador? Como não ver em todos os homens potenciais abusadores?

Então fico ali no OkCupid olhando os homens gringos, que estão bem longe, potencial de dano quase zero. Sei que 1) não vou entrar em um relacionamento por mensagem e 2) a chance de alguém viajar é mínima. Portanto, é só distração mesmo. É bom ver que existem homens aparentemente legais de 50+. Mas talvez essa seja mais uma maneira de me afastar de uma possível conexão de verdade, ao vivo, real — com todas as tretas envolvidas nessa tarefa, principalmente em se tratando de uma conexão comigo e minha raiva. Sou boa nisso: achar gente indisponível e gostar de quem não gosta de mim pra poder botar a culpa no outro, enquanto a indisponível, mesmo, sou eu. Ou melhor, meu inconsciente, cheio de medo e de raiva. Eu, euzinha, aqui fora, acho que quero e fico triste quando não rola. Mas não rola porque o inconsciente tratou de gostar do homem certo, o "perfeito", aquele que espelha dentro dele o grande NÃO que está estampado na minha testa.

E para conseguir isso eu adoro aderir a coisas como não-monogamia, afetos fluídos, relacionamentos não-convencionais. Invento escapes, deixo sempre portas abertas para que eu ou o outro possamos sair antes do bicho pegar, antes da gente se envolver de verdade. Mas agora chega, eu digo pra mim e pra Universa. Essa coisa de não-monogamia é muito boa quando o relacionamento é velho e a gente não quer mais transar com o marido. No começo tem que focar na pessoa, e ela em mim. Pra conhecer e se envolver de verdade precisa tempo, vontade, intenção, dedicação, curiosidade, tesão. Pra se envolver comigo, especificamente, precisa também autoconhecimento e paciência. Tem que estar BEM a fim: a fim de passar por dentro da minha raiva e sair inteiro, a fim de dormir também com meus gatos, a fim de aguentar meus discursos ativistas, a fim de me amar tanto que eu vou usar esse amor como um bálsamo para a dor que eu senti e como um antídoto para a raiva guardada durante tanto tempo. A fim de ser um homem melhor que os péssimos que formaram minha percepção do que é um homem.

Mulherada, que tenhamos sorte — e coragem. Coragem de bancar os desejos e de destampar as dores, e sorte de encontrar parcerias.

Enquanto isso, escolham profissionais mulheres, quando possível. E tenham a força que eu nunca tive de levantar da maca, fazer um escândalo e denunciar cada vez que um homem tocar em você inapropriadamente (mesmo que seja "na sua cabeça"), para que ele nunca mais tenha a chance de fazer isso com nenhuma de nós.

Ále Nahra mora atualmente na Guarda do Embaú, Santa Catarina. Acaba de lançar seu primeiro livro: O Chão que me Fez — uma jornada de agroecologia e autoconhecimento pela América Latina, que relata a viagem por cinco países das Américas do Norte e Central em busca de projetos de agricultura urbana e permacultura. Enquanto viajava, escrevia matérias para o site Herbívora e um diário de viagem no Medium. O Chão que me Fez reúne as duas narrativas e conta como a autora se deparou com a história da chegada dos europeus em Abya Yala, e suas consequências dolorosas que perduram e se reproduzem até hoje — e, ao mesmo tempo, se descobriu desejante mulher latinoamericana.

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