;sufoco meu;

destruí meus muros. havia lhe mistificado. atribui-lhe irresponsavelmente sonhos de salvar-me do abismo em que eu mesmo havia me arrastado. egoísmo meu. desespero teu.
sufoquei teu corpo e supliquei pra que não morresse, eu precisava de ti. mastiguei você. regurgitei, guardei, soneguei a mim mesmo e depois pus-te em minha boca novamente quando precisei. engoli e o gosto ruim me fazia aprendiz da desgraça fétida criada em meu hálito podre.
eu precisava de socorro, e você não tinha escolha, era arrastado pra minha confusão e eu estava cego. queria cura e por isso triturava você. lhe oferecendo cárcere enquanto experimentava doses de felicidade. egoísta e mesquinho.
e agora que partistes para não mais voltar, fico-me a divagar sobre os meus feitos tortos ao passo que experimento de minha própria saliva banhada pelo tumulto que eu mesmo criei em mim e agora pago o preço.
sem cura, sem você. miserável sem lar. sem par. mendigo de atenção pra tapar buracos em minha boca, salvando-me desse gosto de esgoto que me acompanha desde o acordar até o morrer de mais um dia.
remédios com bula comprados com receitas médicas não compreendem o meu pesar como tu o fazia. não sabem de mim e nem se importam em fazer.
arrependido moribundo, desfruto do teu legado amargo. os sonhos esquecidos, os dias perdidos em vão em frente ao papel em que me lavro a morte palavra por palavra.
resguardo meu canto, que está fragilizado. vivo meus dias contando-os para não me perder porque só me encontrarei em ti. esqueço-te enquanto enfio goela abaixo remédios pra dormir e recordo logo ao acordar e ver-te em cada cômodo. ao sentir em cada bocejar, um hálito aglutinado de arrependimentos e mortes.
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