Superbad e o enaltecimento do homem ridicularizado

Homens jovens tentam perder a virgindade antes de ir para a faculdade.

Essa é a sinopse de vários filmes. Como American Pie. Dê uma olhada nessa imagem do elenco.

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Elenco de American Pie — Google Imagens

Todos os garotos personificados por esses atores têm, digamos, o direito de sentir ansiedades e angústias sobre a virgindade e sua masculinidade. Mas, convenhamos, nenhum deles parece ridículo. Deslocado. Os personagens são suficientemente populares. Os atores são bonitos e parecem o tipo de pessoa que tem a vida um pouco mais fácil que os demais.

Não é o caso de Superbad.

Seth (Jonah Hill), Evan (Michael Cera) e Fogell (Christopher Mintz-Plasse) não são belos. Não são populares. Parecem os típicos nerds de filmes hollywoodianos. São nerds, mas não os típicos nerds. Eles passam o filme inteiro falando sobre mulheres, pornografia, pintos. Nunca falam de Star Wars ou de outras referências da cultura pop. Evan até reclama de não conseguir vencer em um jogo de videogame.

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Evan jogando videogame, logo antes de perder a partida e desistir.

Eles simplesmente estão à margem em suas turmas de escola, ridicularizados, cuspidos, sofrendo tipos de bullying. Repletos de ansiedades e angústias pelo medo de irem para faculdades diferentes (caso de Seth e Evan), projetando essas ansiedades sobre o mesmo foco de American Pie. A virgindade.

Esse é o elenco de Superbad.

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Evan, Fogell e Seth sentados, assistindo a algum filme pornô enquanto bebem

Eles são homens ridicularizados.

A semelhança para American Pie e outras comédias padronizadas a partir de ansiedades masculinas vive na sinopse e em uma primeira camada superficial. As diferenças são gritantes. Superbad é o raro filme que enaltece uma masculinidade ridicularizada.

As máscaras de Superbad

Coloque palavrões e referências pornográficas suficientes e você terá um filme que soa a comédia pastelão a que estamos acostumados.

Seth é o desbocado, uma máquina de pensar em sexo, viciado em pornografia. O personagem que parece feito sob medida para agredir mulheres e homens mais fracos ao longo de todo o filme.

Evan é o tímido, o emasculado. Ele não consegue conversar com Becca (Martha MacIsaac), a garota de que gosta. Não costuma usar palavrões, parece sempre muito frágil, como se precisasse ser protegido.

Fogell é deslocado mesmo entre Seth e Evan e chega a agir como stalker de tão inábil com mulheres. Apesar disso, ele transborda uma confiança que parece impossível, se vangloriando de dizer as horas para uma garota que não pediu ou fazendo uma carteira de identidade falsa para maiores.

Os três assumem perfis diferentes capazes de alcançar um resultado clichê: o da friendzone com suas representações que culpam as mulheres. Mas não é o que ocorre.

A obsessão fálica

Uma das piadas mais famosas do filme consiste no flashback em que Seth conta para Evan sobre sua obsessão de criança por desenhar pintos. Todos os tipos de pintos, em todos os tipos de situações.

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Os desenhos criativos de Seth. O horário não permite que eu os descreva.

Apesar de rirmos do absurdo, a cena representa perfeitamente a obsessão que os homens têm por seus órgãos genitais. Devido às expectativas sociais, ao modo como definimos a masculinidade, estamos o tempo todo avaliando nossa performance enquanto homens. Precisamos cumprir uma série de requisitos que nos mantenham no topo de uma cadeia social imaginária.

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(Dentro da caixa, os comportamentos esperados: forte, durão, intimidador, sob controle, respeitado, atlético, poderoso, rústico, assustador, não mostra fraqueza, provedor, macho, grande, não responde a ninguém, jogador, rico, sexual. Fora da caixa, como será julgado caso se comporte fora do esperado: bicha, viado, fresco, fraco, menininho da mamãe, trouxa, afeminado. Créditos: Papo de Homem)

O falo é o símbolo máximo dessa masculinidade esperada, conhecida como hipermasculinidade. Precisamos ter os maiores pintos, os mais grossos. O que acontece se eles forem curvos? Quanto tempo dura minha ereção? Não posso brochar.

Essas frases são exemplos que deixam clara a nossa relação com nossos pintos. Uma relação cheia de medos, inseguranças, portanto, ansiedade.

Essa é a cena do flashback. O comportamento de Seth, desenhando pintos a cada oportunidade, não é uma manifestação forte de ansiedade? A partir do conjunto de medos que ele sente com relação ao mundo externo — no contato com meninas, na sua autoimagem como um garoto gordo — ele se refugia no que entende como símbolo máximo da virilidade masculina. Imagina pintos perfeitos, imunes a todos os julgamentos geradores de sua ansiedade.

A percepção de como se é enxergado

Repare também como Seth parecia gentil em seu flashback. A partir do momento em que é ridicularizado pelos desenhos e obrigado a fazer terapia por seu comportamento tido como desviante, Seth se defende assumindo outra postura. A da agressividade.

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Seth, ainda criança gentil, guardando um desenho na lancheira do caça-fantasmas.

Essa agressividade permeia o tratamento que ele dá a seus amigos e a forma como ele fala sobre as mulheres ou age perto delas. Mas o filme vai tornando evidente como essa agressividade é uma máscara que ele veste. Suas ações indicam um outro caráter, nos momentos em que ele teria a “oportunidade” de demonstrar o mesmo tipo de comportamento que discursa.

Na festa que Seth e Evan “invadem” como recompensa por ele ter sido atropelado, uma mulher começa a dançar junto a seu corpo. Ela está visivelmente bêbada, situação em que muitos homens se aproveitam da vulnerabilidade sob o véu de uma “obrigação masculina”. Seth apenas quer conseguir bebida para a festa de Jules (Emma Stone) e inicialmente tenta escapar. Se sentindo acuado, ele acaba cedendo e fica para dançar, porém, completamente sem jeito. Ele evita o contato físico e só se permite colocar as mãos no corpo dela na última música, controlando onde ocorre esse toque.

Quando finalmente chega à festa de Jules com a bebida, Seth se sente parcialmente realizado por ser o centro das atenções, o sucesso da festa. Mas isso só alivia parte da sua tensão, pois essa validação externa só vale pelo objetivo de impressionar Jules, de parecer legal o suficiente para ela, e para deixá-la bêbada.

Acontece o oposto. Ela sequer bebe e ele, bêbado, fica inteiramente vulnerável. Ele tenta beijá-la e ela não o aceita. Ele se abre frente a essa decepção, revelando como ainda se percebe um homem menor, ridículo, apesar da máscara que projetou para o mundo. Ele não se vê homem suficiente para uma mulher como Jules. Porém, ela não o aceita apenas nessa condição: bêbado, sem controle de si, cedendo a regras implícitas e tóxicas que envenenam a masculinidade.

Respeito às mulheres

As ações de Seth mostram que, mesmo no seu exterior bruto, há um entendimento sobre limites e uma obediência a eles. Talvez essa relação com os limites seja o primeiro passo de uma relação respeitosa com as mulheres.

Evan, contraponto da máscara agressiva, leva a questão do respeito além. Ele é o cara tímido, com dificuldades até de abrir a boca perto de mulheres, especialmente daquela de quem gosta, Becca. Sua voz chega a tremer de nervosismo, falando ou rindo.

Ele não se sente apenas intimidado por mulheres, mas também por homens com trejeitos mais próximos da hipermasculinidade, mais identificados com o ideal padrão de homem. É o que ocorre na festa que invadem, quando ele é obrigado a cantar para pessoas que não conhece por ser confundido com outro homem.

Toda essa ansiedade faz com que Evan se sinta emasculado pelo mundo. Menos homem. A reação comum nas representações de filmes e séries é de homens emasculados buscando compensações exageradas, que reforçam características como a euforia (bebida e drogas) e agressividade (violência e até crimes, muitos contra mulheres).

Evan, no entanto, não compensa nada, pois essa ansiedade é travada por princípios básicos que ele carrega, como o do respeito às mulheres. Ele comunica a Seth que a maneira como o amigo fala sobre Becca o incomoda. O filme até brinca com o cenário de um Evan desrespeitoso em uma conversa de telefone com Becca. Mas isso só ocorre através da falha de sinal do telefone, em que ele xingando o aparelho soa estranho para ela do outro lado. Uma piada que caracteriza Evan como capaz de xingamentos, agressividade, mas que o revela como alguém que escolhe não ser assim com mulheres — ou até com todas as pessoas, podemos dizer.

A demonstração mais forte desse respeito chega na festa de Jules. Becca também estava interessada em Evan e o aguardava ansiosamente. Quando ele chega, conversa com a amiga dela, preocupado por ela estar bêbada, vulnerável. Ele entende que não é válido se relacionar sexualmente com alguém assim. Ele estaria se aproveitando.

A amiga o tranquiliza com uma regra prática: não é errado se ele estiver tão bêbado quanto. Evan então corre para se embebedar da forma mais rápida possível. O que isso desperta nele? Discursos sobre respeito às mulheres.

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Evan com uma garrafa de vodka, tentando ficar tão bêbado quanto Becca.

Becca acaba o levando para o quarto e tenta transar com ele. Pode-se dizer que Evan está no paraíso. Mas ele sente aquilo como mentira. Nem ele nem Becca tem agência. Os dois estão completamente alterados. Becca realmente gosta dele? Tem interesse nele? Ou é só a bebida falando?

Mesmo bêbado, os princípios de Evan se sobressaem e ele evita transar com ela naquele estado. Assim ele perde o que costuma ser lido como “a grande chance”. Não cumpre sua “obrigação masculina”.

Mas o título diz que o filme enaltece esses homens ridicularizados, certo?

A última cena faz exatamente isso, tanto com Seth como com Evan. Para o primeiro, através de Jules, o filme dá a lição de que Seth não é ridículo, pode ter confiança em si, especialmente porque ele teve a capacidade de se abrir. Apesar de suas máscaras, seu coração está no lugar certo. Para o segundo, através de Becca, o filme dá a lição de que Evan é confiável. Ele não “perdeu” uma noite com ela. Ele ganhou a chance do que sempre quis, uma relação de verdade com a mulher que gosta.

A ascensão da confiança

Mas e Fogell? Se Seth projeta agressividade e Evan abraça a timidez, Fogell não é um nem outro. Ele simplesmente cria confiança. Ele claramente tem inseguranças: antes de tentar comprar bebida alcoólica no mercado com uma carteirinha falsa. Para conversar com os policiais. Para ajudar na prisão do senhor baderneiro no bar.

Em todos esses casos, Fogell tenta projetar confiança. Seu arco, basicamente, é conseguir alcançar esse estágio. A beleza desse desenvolvimento está no fato de que a confiança não está atrelada a comportamentos e ideias tóxicas. Ele o faz obedecendo aos princípios do restante do filme: transformando a forma como se vê; respeitando as mulheres.

Fogell vai mais longe que Seth e Evan no objetivo de transar antes da faculdade, e o faz apenas desenvolvendo a confiança para dançar com a mulher que antes ele seguia no corredor sem conseguir chamar para conversar. Ele não precisa diminuir a autoestima da garota que seria “bonita demais para ele”. Não precisa ser agressivo. O filme enaltece seu desenvolvimento ao tornar sua confiança o suficiente.

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Fogell desenvolve a confiança e vai para a pista, dançar com Nicola (Aviva Baumann)

O amor de homem para homem

Os três personagens não são perfeitos. Fogell mente para projetar confiança, Seth mente para Evan e o cobra injustamente, Evan omite a verdade de Seth e os dois melhores amigos se agridem.

Os desenvolvimentos pelos quais os três passam trabalham no fundo o triângulo homoafetivo que existe entre eles. Especialmente entre Seth e Evan, suas questões estão intrinsecamente ligadas a ansiedade de que os dois vão se separar ao irem para faculdades diferentes.

Como assim homoafetivo?

A masculinidade apresenta a heterossexualidade como ideal. Mas isso não significa que o homem reserva o seu afeto para mulheres. No ideal masculino, o afeto é direcionado para outros homens. Uma série de frases ilustram isso, como “bros before hoes”, “homem que é amigo de verdade”, dentre muitas e muitas outras. Homens confiam em si antes de confiar em parceiras.

Só que essa homoafetividade não pode parecer homossexualidade, porque um homem não pode parecer feminino. O que faz o afeto ser comunicado de maneiras tangenciais. Abraços com tapas. Piadas em que um ataca o outro, em que até se humilham, são rotineiras. Simulações de lutas.

Beijos são proibidos. O que não pode é falar que ama. Isso é coisa de mulher.

A questão aqui não é que a homoafetividade é errada. É só afeto. Tá tudo bem. A questão é fingirmos a existência dela por meios que nos protejam de sermos vistos como menos homem. Ou seja, nosso afeto para outros homens é cercado de ansiedade.

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Evan e Seth abraçados, bêbados, declarando o amor pelo outro. Um fato que não muda a amizade, apenas a reconhece pelo que é.

Portanto, quando Seth e Evan trabalham a ansiedade sobre sua separação, confessam seus erros e pedem desculpa e, por fim, declaram seu amor um pelo outro, sem vergonha alguma, sem medos, o filme não está só enaltecendo esses homens ridicularizados.

Está no caminho de libertar a todos nós. E o melhor? Faz isso enquanto estamos vulneráveis, rindo.

Esse texto foi inspirado no excelente vídeo do canal “Film Radar” tratando como Superbad ainda é uma comédia relevante. Ele traz várias questões além da masculinidade, vale muito a pena.

Posso deixar uma recomendação final? Baixar essa guarda e assistir Superbad novamente. Só vai. Você também pode ler outras análises de representações masculinas em histórias aqui. Para outros tipos de análise de filmes e séries, pode seguir por aqui. Esse texto foi originalmente publicado no Além do Roteiro.