Terceira dimensão

Qual a importância de viver o grande amor da sua vida?

Moulin Rouge —Baz Luhrmann (2001)

Em meados de 2006, por uma infame charada do destino, eu cometi meu primeiro delito em nome do amor. O.K. Talvez não tenha sido o primeiro, pode ser que eu não me recorde qual fora o último, e nessa ordem cronológica possuída por efeitos granulados cobertos por um tom de sépia, pouco importa pro roteiro, corrigir a minha má índole, por afanar de uma locadora um DVD (aluguei, esqueci de devolver e a locadora fechou, quem nunca?). Me tornei uma cidadã melhor com os anos, então peço encarecidamente, não desistam desse texto logo no início e não me deponham do meu cargo por conta de tal deslize. Meu nome não é Michel.

“A coisa mais importante que se pode aprender na vida é amar e em troca, amado ser”

Com os olhos marejados e o coração incandescente, eu, naquela versão de doze anos e um mundo psicodélico pela frente, fixei essa frase junto com o resto desse filme numa gaveta que tá sempre aberta. Com ela, iniciamos a história de Christian, romântico incurável, que alimentado pelo desejo de ser escritor, vai parar na antiga Paris dos anos 1920, caindo de para-quedas no Moulin Rouge e nos braços da sua futura amada Satine, cortesã em forma de diamante e atração especial do clube. Nesse enredo com cor de vermelho sangue e cheiro de absinto tal qual a volúpia das paixões inesquecíveis, num festival de excentricidades (o que faz do filme um complexo literário e musical perfeito) nasce a mais linda história de amor. O grande amor.

Parece extrema prepotência da minha parte usar desse filme pra falar sobre os grandes amores, os que dão pé e que de pouco romance se alimentam. Mas, essa é a minha analogia e foi como eu, lá atrás, descobri o tamanho da sua força e qual era de fato a sua importância. A metáfora inserida nesse show de cores e sensações e que permeia especialmente as cenas do final, consiste justamente na sua grandeza e no valor que ela tem.


Nós sabemos dimensionar o amor?

A arte da paixão, que envolve em sua miragem até os mais céticos mortais, é puramente projeção e nós já sabemos. Delírio, ilusão, furor e desejo, muitas vezes nocivo, em forma de sonho. Acordamos e ele terminou. Com a durabilidade de uma viagem e com pouca força pra se sustentar. O amor anda por outros caminhos.

Amar não é moldar alguém às suas idealizações, é, na verdade, se entregar ao mistério do desconhecido. É mergulhar de cabeça em oceanos inexplorados e ainda sim conseguir respirar tranquilo. Não é a apologia da facilidade e felicidade plena, mas é ter em si, a recompensa do esforço incessável da divisão, aceitação e compreensão, nas diferenças e na junção. Amor é batalha que se luta de mão dada. Amor é terceira dimensão todo dia.

Nos caminhos tortuosos, o amor é o guia paciente, que tateia, ensina e não desiste. É da sua natureza ser refém do destino e mesmo quando se revela, nem sempre sabe muito bem como se revelar. Mas, insiste em transparecer nos gestos, nos olhares e na presença. Ser duplo é consentir em desabrochar pouco a pouco, se descobrindo no dia a dia, na simplicidade dos momentos autênticos e se dispondo ao atrevimento da persistência. É se despir e aprender a viver na nudez da transparência. É o abrigo da identidade que não se constrói em ocasião. Amor é perene. Amor é caos calmo.

Há de se ter muita vontade e fôlego de maratonista pra entrar nesse combate, que não aceita desistência sem devidas justificativas. Dá pra entender então, quem passa a vida correndo pra bem longe desse ringue, certo? Errado.

Dominada por esse banho vermelho, eu, assim como o Christian de Moulin Rouge, não consigo enxergar por que alguém passaria a vida sem querer encontrar seu grande amor. Sem querer ser dupla e mão dada. Sem querer rir e chorar, sabendo que mesmo sem conseguir se esclarecer, é isso o que o amor faz. Sem entender finalmente o significado de guardar no peito um coração. Qual a graça? Não faz o menor sentido, mesmo sabendo que sentido a gente pouco alcança.

Não tem apelo nas entrelinhas, porque forçar a barra não faz parte do meu jogo. Mas existe essa ideia permanente, provida das minhas insatisfações e estranheza, provocadas pelo que vejo ao meu redor, de que essa lei da construção não deveria ter sido alterada ou sufocada com aplicativos de encontros e amores virtuais. Entopem os ralos com paixões de cinco dias e perdem a força pra sustentar um grande amor. Depois a busca continua pra tapar esse vazio (o coração tá lá “vivão”, no mesmo lugar) e esse ciclo se estende sei lá mais por quanto tempo. Até se tornar intragável. Até aparecer outra coisa. Onde é que esse barco leva?


Assistam Moulin Rouge. Pra quem gosta de musical a playlist é impecável. Pra quem não gosta, tem um misto incrível de arte e literatura. E pra quem não gosta de nada de nada disso, tem amor. Tem no começo, meio e fim uma das histórias de amor mais lindas que eu já vi na vida. Que enchem o coração. E isso por si só já tem seus méritos.

E quem sabe, pode nascer por aí o mesmo impulso que vive aqui.


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