“The Visitor”: sobre a alteridade e a construção de uma “família” não parental

Por Ana Lúcia Magela

*Filme “The Visitor”, americano de 2009, dirigido por Tom McCarthy

Em tempos de xenofobia exaltada o filme “The Visitor” (*) nos encaminha a reflexões sobre o confronto com a alteridade e o respeito para com o “diferente”.

Nesse filme acontece um encontro (ou um confronto) entre o casal de refugiados clandestinos, Tarek Khalil (Haaz Sleiman) e Zainab (Danal Gurira) e o professor Walter Vale (Richard Jenkis). Walter é um homem americano branco, professor acadêmico, literato, com emprego fixo, boa situação financeira, proprietário de uma confortável casa em Connecticut e deste apartamento em Nova York, de um lado da questão. Do outro lado, um casal de clandestinos não brancos, ela, Zainab, senegalesa, já foi presa pela imigração e só foi solta pelo fechamento da prisão, quando libertaram as mulheres prisioneiras. Artesã, cria e fabrica bijuterias que vende, numa situação de camelô, numa banca na rua.

Ele, Tarek Kalil, é sírio, músico percussionista, compõe e toca djembê, um tipo de tambor africano, apresenta-se em alguns shows e toca nas ruas.
O casal, equivocadamente, invadiu o apartamento do professor onde passaram a morar através de um “aluguel”, sem contrato, arranjo feito por um amigo. Lá já estavam há dois meses, quando Walter chegou e ao abrir a porta percebeu que algo estranho acontecia, até ir ao banheiro e dar com Zainab dentro da banheira. O susto de ambos é grande, aumentado com a chegada de Tarek que agride Walter, pensando ser ele o invasor. Esclarecido o equívoco a saída do casal é a via normal. Situação que precisava logo ser resolvida e que gerou sentimentos de vergonha e subserviência nos clandestinos. A diversidade dos estatutos sociais de cada um deles demarca a intransitividade nas relações.
 Até então, além do susto, Walter é a imagem da indiferença sobre o futuro do casal. Não demonstrou nenhum sentimento e aceitou, sem hostilidade, mas também sem condescendência, o engano e a saída da dupla. Walter é um sexagenário enviuvado, com uma vida tediosa, não gosta do que faz, leciona apenas um curso ao qual não se dedica, justifica suas parcas atividades docentes pelo tempo que precisa para escrever seu quarto livro, mas também não usa o tempo livre para isto. Como revelará mais tarde finge que está ocupado, finge que trabalha, finge que escreve. Tentou estudar piano, (sua esposa era pianista) mas, não tem nem aptidão nem apetência por esta atividade. Sua quarta professora propõe até lhe comprar o piano, porque ele parece propenso a desistir. É significativa a metáfora usada por ela para mostrar a posição correta das mãos no teclado “dedos dobrados como um túnel (…) dê espaço para o trem passar através do túnel”. Walter não entende a metáfora, ele é um homem intransitivo, pouco propenso a qualquer fluidez, suas mãos não abrem passagem, seus dedos estão esticados sobre o teclado. Veio a Nova York, a contragosto, para apresentar um trabalho que, aparentemente, teria escrito com uma colega, agora impossibilitada de vir. Ele titubeia, procura desculpas para evitar esta viagem porque, na verdade, não o escreveu, apenas assinou junto com a colega e se sente incompetente para fazê-lo. Seus argumentos, todavia, não são convincentes e ele se vê obrigado a comparecer.
 Nos é revelado então um homem envelhecido que não se interessa nem mesmo pela sua própria vida, que não tem nenhuma razão para lutar por ela. Como esperar dele sensibilidade para se preocupar com a vida de seus semelhantes, sobretudo, quando estes outros não são assim tão semelhantes? O que ocorre neste encontro é apenas um incidente de percurso. Esperava Walter chegar ao seu apartamento de Nova York, cansado da viagem, encontrar um lugar onde pudesse dormir e amanhã rumar para o malfadado congresso. É de incômodo e de desconforto o encontro inesperado com o casal. Problema que se resolve rapidamente frente a nenhuma resistência dos clandestinos em reconhecerem o erro, providenciarem a imediata arrumação de seus poucos objetos e deixarem o apartamento.
 Todavia, esquecem para trás um porta-retratos, com uma foto dos dois. Walter, sabe-se lá movido por que razão, talvez até para se ver livre das tralhas do dois, vai até a rua para entregar o porta retratos, vê que eles estão ao léu e convida-os a permanecerem no apartamento até conseguirem outro lugar. A partir dessa iniciativa, aparentemente filantrópica, a indiferença e o incômodo de Walter começam a se transformar em empatia. Zainab faz o jantar, e convida Walter a jantar com eles. É cerimoniosa a partilha dos espaços. 
 Tarek já tinha comparecido ao serviço de imigração, pediu o visto de permanência como refugiado e aguarda resposta estando agora na situação de clandestino. Ele ensaiava sua percussão quando é surpreendido por Walter que retorna de mais uma seção do evento. O músico se desculpa por estar tocando e sem calças e Walter lhe diz que não precisa parar de ensaiar, demonstrando que está assegurado a Tarek um território, não só físico, mas também simbólico. Interessa-se pela atividade do músico, que como Walter, aprecia a música clássica. Uma primeira experiência comum — a música — estabelece aquilo que pode ser chamado de “união em pontilhado”, uma tênue redução das idiossincrasias. Tarek o convida a pegar um tambor e também experimentar tocar. A princípio receoso Walter arrisca-se a uma percussão, batendo forte, ao que Tarek orienta para que seja mais leve, pois ele “não está com raiva do instrumento”. Walter esboça um primeiro sorriso. Ele acompanha Tarek numa parceria meio desajeitada e, aos poucos, vai sendo seu companheiro pelas ruas, já se soltando mais, tocando nas praças, carregando nas costas o instrumento, embora ainda de terno e gravata. A relação estabelecida já não é só de generosidade, mas sim de camaradagem. Pode-se reconhecer, entre eles, uma certa familiaridade que torna a vida mais tolerável. 
Zainab, é ainda muito arredia, intimidada pelo convívio recente com Walter. As diferenças existem e não são ignoradas pelo trio. Sabem-se diversos, a assimetria é marcante, mas agora não apenas se suportam. A alteridade os aproxima num caráter complementar. Tarek e Zainab tem abrigo e um amigo. Walter percebe que o piano pode não ser seu instrumento ideal. Tocar com Tarek está imprimindo mais leveza e cor à sua vida desbotada. Walter batuca o compasso da percussão no carro, quando está na escola, marca com o corpo, numa gestualidade que dispensa o verbal. Já se pode notar certo investimento afetivo na relação do trio, uma partilha afetual que alicerça uma certa arquitetura social.
 Tarek é preso ao atravessar com Walter uma roleta de metrô. Ambos carregam tambores, estão juntos, mas Walter é um americano branco e Tarek um tipo não americano. Todas as tentativas de intervenção de Walter junto aos guardas são rechaçadas e ele é avisado para não se meter ou vai preso também. Os atributos de Tarek denunciam, obviamente, sua estranheza na sociedade americana. Embora Walter tenha características que podem ser percebidas como desejáveis e integradoras, o fato de estar ao lado de Tarek, procurar intervir para evitar o constrangimento e a prisão, são suficientes para colocá-lo do lado estigmatizado. O estigma espalha-se, respingando também naquele que está próximo e solidário. Daí a ameaça que Tarek representa, também para seu pretenso protetor.
 Começa a cruzada de Walter para libertar Tarek. Ele conserva, de início, a calma que lhe é própria. Visita Tarek na prisão, contrata um advogado especialista em causas de imigração, consola Zainab que está assustada e, finalmente, vai abrigar e proteger Mouna Kalil (Hiam Abbass) que, sem notícias do filho, empreende uma viagem de Michigan para Nova York. 
 O tempo vai passando sem que Tarek seja libertado. Toda a insensibilidade do sistema demonstra a inutilidade dos esforços de Walter e as restritas informações concedidas às visitas são exasperantes. Tarek reclama com Walter das condições do centro de detenção, do isolamento, do silêncio sobre as razões de sua prisão e da falta de expectativas de ser libertado. O excluído não tem direito a voz, não se faz dele uma escuta, porque o estigma reduz o indivíduo àquilo que se convencionou chamar de imperfeição. A presença de Tarek nos Estados Unidos, sem documentação adequada, faz dele uma espécie de negação da ordem social. Uma vez que não cumpre as exigências para o convívio social legal e também não é reconhecido o seu direito de exercício de sua diferença. Agora, dentro de uma “instituição de sequestro”, como Foucault se refere às prisões. Formalmente excluído de uma sociedade onde habitava irregularmente, em nome da normalização é categorizado como ilegal, portanto, inapto ao convívio naquela sociedade. Assegurar a normalidade dentro do sistema é oposto ao desafio da diferença. Em que Tarek pode ser visto como uma ameaça social? Esta questão não se coloca, não é relevante. Dentro de um sistema de paranóia persecutória depois do 11 de setembro a xenofobia é o comportamento padrão.
 Mouna demonstra toda a determinação e dignidade em só aceitar, diante da insistência de Walter, o abrigo em seu apartamento. Ela não admite a idéia de sair de 
Nova York enquanto o filho não for libertado, mesmo não podendo ir visitá-lo. Envia bilhetes que Walter mostra para Tarek durante as visitas, fala com ele algumas vezes por telefone e vai conhecer Zainab. Estranha que a namorada de Tarek seja “tão negra”! Os atributos de Zainab, negra e senegalesa, também ensejam a exclamação de Mouna. A negritude se coloca como uma singularidade que gera a estranheza mesmo naquela que também sofre a segregação. 
 Mouna convida Zainab para um chá, mas não há ninguém para ficar na banca de bijuterias… Essa tarefa sobra para Walter que nada conhece do ofício, mas até arrisca algumas informações aos compradores sobre as mercadorias. Já não se trata só de uma manifestação de empatia ou solidariedade. Neste microcosmo relacional os quatro compõem, com suas diversidades, um “cimento social” que funda uma unicidade, um “nós”. Apesar de todas as diferenças ou, talvez em razão delas, estão irmanados no apoio mútuo e na libertação de Tarek. Quando Zainab diz a Walter que nenhum homem tinha sido libertado da prisão que ela conhecia, Walter lhe assegura: “Nós vamos libertá-lo. ” 
 O espírito de proxemia que caracterizava, na Grécia antiga, apoio e hospitalidade pública prestada ao estrangeiro, inaugurado na partilha do espaço-tempo, cria um enraizamento antropológico que os une com mais força do que laços de consangüinidade. Eram estranhos, diversos em tantas particularidades, atravessaram as suas dissemelhanças para um ser-estar-juntos, fundando a negociação com a alteridade. 
 Esta agregação social, formada agora por estas quatro pessoas, nasceu de uma efervescência circunstancial — o equívoco da ocupação do apartamento. Deste fato é possível observar uma importante regra sociológica: toda efervescência é estruturalmente fundadora, mesmo quando caótica. Juntos eles estão, cada qual em maior ou menor grau, inaugurando uma nova família não parental.
 Um código de honra nesta nova tribo é a ajuda mútua, as vezes não dita, a selar o laço social. O constrangimento é ritualizado em diversos momentos e pode ser observado: Zainab faz o jantar e convida Walter a partilha-lo; Walter cuida da banca de bijuterias para que Zainab possa ir tomar um chá com Mouna; Walter compra comida chinesa e convida Zainab que não aceita, mas ele diz que vai deixar na geladeira, para no caso dela mudar de idéia; Mouna limpa os vidros das janelas do apartamento enquanto Walter esta viajando, organiza o espaço e compra o jornal para Walter; este traz para Mouna o jornal sírio, juntamente com o seu; Tarek empresta o tambor e estimula Walter a tocá-lo, lhe dá as primeiras lições, convida-o para almoçar um churrasco grego, lhe presenteia com um CD de percussão, propõe a Walter tocarem juntos numa estação do metrô e dividirem os lucros, pede a ele que não se esqueça dele na prisão; Mouna pede a Zainab que a leve a lugares onde ela e Tarek gostavam de ir; Walter arrasta pelas ruas o carrinho com as bijuterias de Zainab para que ela possa conversar mais livremente com Mouna. É com muita animação que Zainab mostra para Mouna a Ilha de Manhattan, o lugar das Torres Gêmeas, a estátua da Liberdade. Mouna se interessa pelo trabalho de 
Walter, faz-lhe perguntas sobre o evento e mesmo longe, já em Connecticut, Walter telefona para Mouna para se inteirar se tudo vai bem. Pequenos e grandes gestos de cortesia, atenção e afeto a demonstrar que os jogos da proxemia se organizam como nebulosas policentradas que ora aproximam ora distanciam, num ritual que, com toda a dinâmica da difratação, constrói um território simbólico de pertencimento.
 Walter propõe sair com Mouna, quer fazer-lhe uma surpresa — levá-la para ver o “Fantasma da Ópera”, que ela tanto se interessa. A partir daí a ritualística entre eles já se põe como uma aproximação romântica, cerimoniosa. No jantar que se segue é interessante notar na confissão de Walter sobre suas pretensas ocupações, quando se desculpa com Mouna pelo embuste e ela lhe pergunta o que faria se não fosse professor. Walter diz não saber e ela reconhece “que é excitante o não saber o que fazer”.
Ele, ainda intransitivo, apesar das últimas experiências, se coloca como a porta fechada, sem saída, entre o afeto desejado e a tensão da insegurança. Ela é a ponte que pode ligar o domesticado ao estranho, contida, mas não temerosa. Esta, como tantas outras pequenas tribos, são efêmeras, mas nem por isto deixam de amalgamar um forte investimento afetivo num estado convivial que parece destinado a ser perene. É assim que Walter agora desconstroi o estereótipo de sisudez, licenciado das funções acadêmicas, distante de sua nova “família”, anda mais solto pelas ruas carregando o tambor que toca em Broadway-Lafayette St.


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