O sedutor confuso e a dama teatral — Transnarrativas Cotidianas #1

Apesar de ser a balada mais cis-hétero que frequento, o Madame é um dos meus lugares favoritos para dançar bêbada. Sua pista é tão — tão — escura que, além de poder dançar azoretada sem me preocupar com os olhares, também não preciso me preocupar se alguém está julgando meu gênero.

Assim, depois de alguns drinks, gasto na pista de dança toda a minha energia acumulada no dia-a-dia por trabalhar sentada, em home office. Gasto essa energia dançando até que as pernas e pés implorem, em alemão, para que eu lhes dê algum descanso.

Na noite especial em homenagem a David Bowie promovida pelo Madame, usei o melhor vestido do meu guarda-roupa; coloquei na cintura o corset e na bolsa dinheiro o suficiente para me embebedar.

Como mencionei no início, o Madame é uma balada muito cis-hétero e, como tal, sempre recebo cantadas típicas de homens cis. Do tipo:

— Eu conheço os donos desse lugar, eu praticamente nasci aqui!

— Você sabe que atrai todos os homens daqui, né?

— Eu vou te fazer muito bem!

Como eu nunca tenho interesse em homens cis, essas frases, acompanhadas de bafo terrível, me causavam apenas as risadas. Acreditando que meu riso de deboche era bom sinal, eles prosseguiam no flerte com frases ainda piores.

Divertidíssimo.

Eu voltava à minha dança incansável aproveitando o efeito desinibidor do álcool.


Quando o lugar já estava esvaziando naquela noite de homenagem ao Bowie, eu ainda estava dançando e um rapaz se aproximou. Bem vestido, cabelos compridos e barba bem aparada, o típico homem cis branco meio gótico, meio metaleiro. Ou bardo. Não sei. Eu estava bêbada.

Não foi muito rápido. Eu acho. Ele se aproximava, dançava um pouco pertinho de mim, e se afastava até sumir de vista misturando-se às sombras. O Madame foi mesmo feito para esse tipo de mistério. Depois ele reaparecia, tocava em meus braços, e saia andando. Oh!, pensei, um jogo de sedução. Sorri.

Com o sorriso, ele ficou mais confiante, e novamente deixou a cena, nossas mãos deslizando uma na outra até que não podiam mais se alcançar. Eu voltei a dançar e percebi que a pista estava um pouco mais iluminada. Ele voltou. Tocou a testa na minha. Fechou os olhos. Repetiu esse pequeno ritual de caça vampiresca algumas vezes, enquanto eu fazia movimentos que, imaginei, deveria ser sensual.

Lembrem-se, eu estava bêbada. Posso ser perdoada por isto.

Também posso ser perdoada por fazer o mesmo jogo, até que ele, em vez de me despertar o interesse, fosse mais enfático em suas investidas. Até deixar claro quem era, de fato, a presa. Pois sou dessas que preparam feitiços para aprisionar o olhar de quem quer ser aprisionado. Aleatoriamente, sabe? Sem alvo. Para os que assim desejam.

Em algum momento, o rapaz meio gótico e meio bardo segurou minha mão e me conduziu, delicado, até a parte de trás da pista.

Se você já foi ao Madame, deve se lembrar que logo ali há uma poltrona chique e, ao lado, a entrada para os banheiros. Ou seja, há uma iluminação decente, e a intenção dele era ver melhor meu rosto.

Então, estou com o rapaz meio gótico, meio viking — era isso mesmo? — na entrada dos banheiros, com meu rosto trans e suado iluminadíssimo para que ele pudesse ver. Até então, imaginei que ele havia notado meus traços antes porque a pista, você se lembra, estava um pouco mais iluminada que o normal. Mas não. Talvez também estivesse bêbado.

Você é trans?

— Sou.

O rapaz ficou desconcertado. No lugar de toda aquela confiança de predador que parecia saído das fantasias eróticas de Anne Rice, incorporou-se a confusão. Por alguns instantes ele não soube o que fazer ou dizer, além de frases clichês.

— Não parece.

Agora tinha certeza de que também estava bêbado. Fiz uma cara de decepção e virei para o lado. O que sentia, de fato, era desprezo.


Você pode imaginar aqui uma cena bem teatral; o cenário temático do Madame facilitará a tarefa.

A mulher vira-se para o lado, desorientada; ela se sente abandonada e sem o chão sob os pés. O rapaz se sente culpado e tenta consolar a dama de vestes negras e maquiagem completamente borrada — pelo suor da dança, pois chorar nessas ocasiões não lhe cabe.

Ele segurou minha mão e me levou para subir as escadas. Depois do primeiro lance de degraus, onde a escada faz uma curva, ele parou e me encostou contra a parede. Estávamos agora em um ambiente muito mais iluminado e ele pode olhar bem o meu rosto.

— Eu não sei o que fazer.

Parece que me observar mais diretamente o deixou ainda mais confuso.

— Eu ainda me sinto atraído por você.

Oh, definitivamente confuso. O rapaz chegou ao famoso e incoerente questionamento a respeito de sua sexualidade.

— Você vai ficar chateada comigo?

— É normal, não é como se fosse a primeira vez.

Com rapazes transfóbicos me dou ao direito de exercer alguma crueldade teatral. Sim, mesmo quando há sinais de consciência pesada e mesmo que eu não tenha, de fato, interesse real.

— Me desculpe! Você é uma mulher linda… eu ainda estou atraído por você.

— Tudo bem… — olhei para o lado fingindo segurar uma lágrima.

— Não fica chateada.

Fiquei.

Nesse momento — mais ou menos, eu não lembro pois estava bêbada e concentrada em minha lágrima inexistente — ele me deu um abraço.

Me deu um abraço e pediu novamente:

— Desculpa.

E foi embora. Assim. Confuso e ainda atraído por mim. Deve pensar em mim até hoje. Falo sério sobre isso. A gente sabe quando a pessoa está mesmo muito interessada, para além de uma noite.


Já havia um sol nascendo lá fora e decidi ir embora também, pensando que algumas mentirinhas valem a pena. Podem me julgar o quanto quiserem. Se eu me diverti com a cena? Muito. Se espero que ele estivesse tão interessado quanto parecia? Com certeza.

Imagine se ele descobre que sou sapatrans.



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