[TW] O grilo e o suicídio
Quinta-feira, 20 de julho de 2017.
20:34
Uma constante. A cada novo suicídio é como se um grilo falante sussurrasse ao meu ouvido a célebre frase de Martin Luther King: “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Essa é uma frase que me incomoda sempre que acredito ter algo de valor a dizer, mas cogito me calar e, ao mesmo tempo, é ela quem me impulsiona a descer a letra, rasgar o verbo, trocar em miúdos, etc.
Incomodada pelo grilo, em 2015, publiquei dois textos tratando da temática. Textos muito metafóricos, o grilo me acusou. É preciso algo mais, digamos, tangível. Até cogitei inserir no meu “9 verdades e 1 mentira” um “eu já tentei suicídio”, mas, como sempre dizem por aí que isso “é muito pesado”, deixei quieto. Quando rolou o bafafá da Baleia Azul, suscitei gravar um vídeo, mas minha onda é escrever e, eu confesso, não gosto muito de me expor para uma câmera — acho até que tenho que vencer isso, mas, para que meu grilo se assossegue, antes que eu tenha tudo o que penso que tenho que ter para gravar vídeos (ou antes que eu meta a cara e grave, sem ter nada mesmo) eu vou logo escrevendo.
De acordo com relatório da Organização Mundial de Saúde — OMS, o suicídio figura como a segunda causa de morte na faixa etária que vai dos 15 aos 29 anos e, a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida no mundo. Isso levando em consideração que, devido ao estigma, muitos países sequer possuem dados a respeito.
Enquanto nossos pudores, misticismos, medos ou seja lá o que for nos impedem de quebrar o tabu, os prognósticos revelam que esse número tende a crescer ainda mais. Precisamos aprender a falar disso sem grilos!
Todo mundo já ouviu falar sobre alguém que se suicidou. Ultimamente, talvez, as notícias tenham ficado até mais corriqueiras. As redes sociais contribuem. Todavia, até bem pouco tempo, suicídio não virava notícia de jornal — a menos que fosse um famoso. Quando trabalhei na PCDF e os repórteres ligavam atrás das novas, se era suicídio a gente já dizia logo: “não irmãozinho, é suicídio”! Ou seja, é o assunto proibido, o próprio Lord Valdemort, a quem não se pode mencionar.
Você pode estar aí pensando “ah! Falar sobre isso é muito cruel com a família”. Bom, eu não consigo ver os veículos de comunicação lá tão altruístas assim, nem tampouco acho menos cruel, à família, ver no jornal o rosto de seu filho morto a pancadas por traficantes ou o de sua filha estuprada, morta e desfigurada — e tem jornal que estampa isso na primeira página, porque há quem adore nutrir a mente só de desgraça.
Outro dia, em uma conversa com um amigo, ouvi uma confidência. A ideia já tinha passado por sua cabeça, mas ele nunca houvera tido coragem sequer de comentar com quem quer que fosse, afinal, que iriam pensar sobre ele?
E assim seguem tantos outros que cogitam, mas não falam. Permanecem sem entender, sem questionar, varrendo os sentimentos para baixo do tapete, até que um dia, voilà!
É preciso falar sobre suicídio. É preciso falar sobre morte. É preciso entender o que no íntimo se sente quando se pensa em morrer. E, não! Um comprimido não fará isso por você!
Sim, eu já tentei suicídio e por alguma conspiração astral não consegui. Digo uma conspiração astral porque, segundo consta, o suicídio do rapaz de Pará de Minas envolveu 5 cartelas de antidepressivos. À época em que decidi partir dessa pra melhor — e, não, não foi na primeira vez em que cogitei que isso rolou — eu estava em tratamento para depressão. É bom falar que, até ficar num estado lastimável, eu nem acreditava que depressão existisse. Frescura, eu dizia. E se é frescura, não precisa de tratamento, certo? Pra quem ainda acha que é frescura, recomendo Andrew Solomon: Depressão, o segredo que compartilhamos, um remédio para a alma.
Mas, retomemos o foco. Eu estava em tratamento para depressão, o qual só iniciei quando a coisa ficou realmente grave. A vida era cinza e sem qualquer sentido. Na melhor das intenções, algumas pessoas muito queridas tentavam me motivar: “você precisa ir a um hospital, ver o tanto de gente que tem motivos de verdade pra sofrer”. Comigo eu pensava, “mas por que cargas d’água eu vou ficar feliz vendo os outros sofrerem”? Eu olhava para toda essa configuração social e pensava: mas que merda é essa em que a gente trabalha, trabalha, compra coisas e morre? Se é esse o destino final, eu vou “me matar” de trabalhar pra quê?
Como eu disse, eu estava em tratamento para depressão. Não sei como é hoje, mas, dez anos atrás, quando tudo aconteceu, o método para definição do tratamento era tentativa e erro, ao menos era esse que minha médica usava. Funcionava assim: eu ia à psiquiatra, dizia o que estava sentindo e ela me passava um remédio. Na sessão seguinte, se eu dissesse que não estava fazendo efeito, ela trocava o remédio e eu ficava com uma caixa do remédio anterior estocada. Com isso, fiz minha própria farmácia. Eu tinha quase de tudo! Rohypnol, Haldol, Fenergan Citalopram, Donarem, Dormonid, Dalmadorm, Carbolitium… No dia fatídico, resolvi tomar todos. Tomei à noite, óbvio. Não queria que desse tempo de fazerem lavagem estomacal. Era véspera do dia das mães.
Na manhã de domingo, meu filho me encontrou. Ele tinha oito anos. Minha boca espumava. Inocente, ele não fazia ideia do que estava acontecendo. Resolveu chamar a avó. Ela encheu uma sacola de supermercado com as embalagens dos remédios que eu ingeri. Nem preciso dizer que eram muito mais que cinco, né? A psiquiatra sugeriu que me levassem ao Hospital de Base. Mesmo eu tendo convênio, era a rede pública a mais capacitada para esses casos — não costumamos reconhecer o que de bom há na prestação de serviços públicos. Isso é um equívoco. Não me lembro direito o que aconteceu lá. Só sei que realmente não teve como fazer lavagem. Acordei muito confusa, no soro e sem conseguir sentar. Não tinha o controle muscular. Fiquei uns dois dias assim.
Minha psiquiatra suspendeu os remédios. Acho que como uma forma de me fazer dar valor ao tratamento. Fiquei dois dias sem dormir e implorei a ela que os receitasse. Comprometi-me a buscar uma saída. Os medicamentos foram úteis para controlar sintomas como insônia, mas o que efetivamente representou uma luz foi encontrar pessoas que já tinham passado por situações semelhantes. Elas me enchiam de esperança ao relatarem como suas vidas estavam diferentes, como era possível encontrar uma vida plena e repleta de significado. E nesse caminho, eu não precisava ver ninguém se fodendo pra me sentir mais feliz. Eu precisava olhar pra mim. Precisava ouvir o que eu sentia. Precisava falar sobre. Precisava admitir meus problemas. Precisava aceitar que eu não era responsável por muito do que fizeram a mim, mas, como diria Sartre, era responsável pelo que eu faria daquilo que o mundo fez a mim. Era responsável por escolher o que queria da vida dali pra frente e por adequar minhas ações aos meus objetivos. Era responsável por conhecer a mim mesma, meus valores, meus sentimentos, meus limites… e por pedir ajuda quando não fosse capaz de conseguir sozinha.
E foi me aceitando vulnerável que efetivamente me tornei forte, como ensina a Brené Brown.
Não vou mentir. Senti vontade de cessar a existência outras vezes, mesmo com toda uma rede de apoio e com uma vida muito, mas muito repleta de significado mesmo. Quando o mundo ao meu redor parece muito barulhento. Quando eu e ele estamos num relacionamento muito conturbado, é a primeira coisa que me vem à mente. Daí eu paro e me questiono: o que de fato penso que alcançaria com a morte? Paz, silêncio interior, alívio da dor, tranquilidade… Isso é o que eu imagino que aconteça quando a gente morre, mas, honestamente, não tenho como determinar com 100% de certeza que é. Logo, não vejo porque apostar na ideia. Então volto o foco para o meu real interesse, a paz, o silêncio interior, o alívio da dor, a tranquilidade… Em seguida busco me perguntar: o que me trouxe isso em vida? Não tem uma receita pronta. Cada um tem que descobrir o que funciona para si, mas o autoconhecimento é fundamental. Ou seja, é preciso aprender a se ouvir e, pra isso, é preciso aprender a expressar aquilo que se sente.
Só nos sentimos à vontade para nos expressar num nível tão íntimo, quando encontramos um ambiente livre de julgamentos, em que não precisemos ficar cheios de dedos pensando se irão achar que somos loucos e coisa e tal. De igual modo, não ajuda receber um monte de conselhos e sugestões — por mais bem intencionados que sejam — sobretudo de quem não faz a menor ideia do que é sentir isso. É de um requinte de crueldade ímpar olhar para uma pessoa em depressão e dizer “por que você não esquece isso e fica feliz”? Não temos botãozinho de liga e desliga, mano! Veio faltando.
A melhor coisa que alguém que nunca nem sonhou com passar por isso pode oferecer a quem vive algo assim são seus ouvidos. Não precisa dizer nada demais. Um “eu estarei aqui, se você precisar de mim, para te ajudar como você quiser” é o suficiente. Sem conselhos, sem receitas, sem julgamentos. A Dra. Ana Cláudia Quintana Arantes fala lindamente sobre compaixão — é disso que se trata — não é calçar o sapato do outro, mas estar ao lado dele, dando apoio na caminhada.
E se você vive uma dor assim, por favor, não exploda antes de se permitir falar, de se permitir entender. Mesmo que não haja ninguém em sua vida capaz de te ofertar esse espaço para se expressar. Eu, a Dra. Ana (um anjo, que nunca tentou, mas cogitou, segundo ela própria, dadas as difíceis questões com que teve de lidar no curso de medicina) e tantos outros que vivemos isso estamos dispostos a te ouvir para muito além da objetividade da fria pergunta tão comum nos consultórios “tem ideação suicida”? Para a qual um “sim” ou “não” significa pouco, se não se mergulha profundamente na alma para conhecer essa dor.
Lembre-se de que:
Continue a nadar! Keep walking! E conte comigo!
Gostou desse texto? Clique no ❤ e deixe seu comentário!
Redes sociais: Facebook| Twitter |Instagram | YouTube | Sarahah.
Ouça o nosso podcast oficial com seus autores favoritos do Medium!
Entre no nosso grupo fechado para autores e leitores.
