Uma conversa com um mendigo que se tornou um guru para mim — Arte Vivida #1

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A semana começou sob um turbilhão de pressões e cobranças, metas a bater, custos por cortar no trabalho. Mas também tem os projetos pessoais que precisam sair da imaginação para a ação.

É apenas quarta-feira, mas já sinto como se fosse uma sexta-feira, cansado e com a ansiedade pelo final de semana. Mesmo lutando arduamente para não ser mais um que ama a sexta-feira e que odeia a segunda-feira, esta semana estou querendo muito o final de semana.

Ignorando o fato de que a cada segundo, minuto, hora ou dia que queremos adiantar é parte da vida que se vai, sem possibilidade de volta.

No escritório, a manhã foi puxada, corrida, pressionada, mas não tão produtiva. A ansiedade me deixou meio sem fome, mas como era hora do almoço, saí para “reabastecer”. Comprei um lanche no Subway e fui comer na praça.

Me sentei, de modo que pudesse ver boa parte da movimentação da praça, alguns idosos faziam exercícios físicos, crianças brincavam sob o olhar atento dos pais ou adulto que os cuidavam, adolescentes namoravam com beijos sedentos e loucos de paixão. Pessoas passavam o tempo inteiro, indo e vindo num movimento que mais lembrava um formigueiro.

Então com um olho na praça e outro no lanche, começo sem pressa a desembrulhar o papel e sobre a orquestra sinfônica meio desarmonizada composta de carros, motos, pessoas falando e outros sons urbanos começo a comer, mas logo depois da primeira mordida apareceu um morador de rua.

— Boa tarde! — Ele me disse.

— Boa tarde! — Respondi.

— Estou com fome, poderia me dar um pouco do teu lanche?

Olhei para o homem que estava desgastado talvez por consequências das desgraças da vida, agredida, batida, sofrida e dos direitos banida.

— Sim...

— Muito obrigado!

Comecei a dividir meio lanche, entreguei para ele o lado que não tinha mordido ainda e ofereci o refrigerante. Foi quando ele me surpreendeu ao me perguntar:

— Posso me sentar ao teu lado?

— Claro. Fica à vontade.

E começamos a conversar. Ele me perguntou:

— O que te fez vir comer na praça?

— Bem, trabalho aqui nas proximidades e esta semana está loucamente complexa e confusa. Então para aliviar o estresse nada melhor que vir almoçar e observar um pouco.

— Isso é bom. Gosto de observar, mas levei muito tempo para começar.

— O.K, mas você mora por estas bandas?

— Não, sou andarilho, conheço um pouco deste “brazilzão” do norte, nordeste, centro, sul e sudeste.

— Nossa, você é uma caixinha de surpresa! Quem te olha não faz ideia disso… Sem julgamento.

— Verdade, nem tudo é o que aparenta. Por trás da gravata tem um mistério escondido.

— Bem, isso mesmo. Então me fale como você fez para conhecer o Brasil em detalhes?

— Está bem, mas antes me responde de onde é este sotaque aportuguesado?

— De Angola, sou angolano e vim aqui estudar.

— Seja bem-vindo ao Brasil.

— Obrigado.

— Então para te falar como conheci o Brasil, preciso te contar sobre a minha vida e vai demorar.

— Sem problemas, temos 30 minutos pelos menos.

— Acho que é suficiente.

— O.K, então podes começar.

— Eu era um empresário de sucesso, se posso assim considerar. Tinha imobiliárias em Cuiabá, era casado com uma linda e carinhosa mulher, pai de uma lindo filho, que nasceu quando eu tinha 19 anos. Até aqui a minha vida era uma maravilha. Quando o meu filho completou 18 anos, dei um carro para ele e ele recebia uma boa mesada, que permitia viver na noite, com muitas festas, baladas e gandaias e gostava disso, pois meu filho era uma garanhão e vivia me apresentando mulheres bonitas. Como nunca deixava de estudar, eu sempre pensava que isso era uma coisa de jovens. Mas uma certa noite saindo de uma balada para outra, ele bateu o carro e com ele morreu mais três jovens amigos dele. Quando soube da notícia comecei a me sentir culpado, pois não dei limites a ele…

— Nossa, deve ser sido um choque e tanto. Pai nenhum deveria enterrar o filho. Isso deveria ser proibido nas leis do universo.

— Tens razão garoto. Mas não foi isso o principal ou o único motivo. Na verdade, isso apenas balançou as minhas estruturas.

— Imagino como!

— Então, pouco dias depois de ter enterrado o meu filho, descobri que o meu sócio e a minha mulher estavam me traindo e tinham um caso há muito tempo.

— Sério?

— Sim… Queria muito que não fosse verdade, mas era. E como a caso era de muito tempo sem ela se perceber, fiz um teste de DNA na nossa filha caçula e a relevação não foi boa.

— Como assim?

— Ela não era minha filha. Era filha do meu sócio.

— Mas isso não deveria te afetar tanto, pois pai é quem cria.

— Este ditado popular é muito lindo, mas apenas quando não é você que está na pele do pai traído.

— Não posso negar que estás coberto de razão.

— Confrontei minha esposa e meu sócio, com fortes ameaças, até os dois assumirem e me confirmarem.

— Acho que este foi o pior momento para você então…

— Também achava, mas não era não. O faturamento na empresa começou a cair, as dívidas começaram a aumentar, sem perceber meu sócio tinha me roubado e deixado a empresa a beira da falência. Para piorar, comecei a beber cada vai mais, a fumar cigarro, maconha e a usar cocaína e uma coisa leva a outra. Pirei totalmente e quando vi já estava a usar pedra de craque e os momentos de lucidez foram se tornando poucos… Até que perdi tudo. E fui parar em uma casa de recuperação. Fiquei internado lá por muito tempo, mas depois venci o vício das drogas.

— Sério? Como você venceu o vício das drogas?

— Foi muito difícil, mas quando percebi o estrago e que as drogas não eram um remédio e sim um falso paracetamol que apenas nos engana…

— Verdade isso…

— Foi então que vi que minha vida não tinha mais sentido. Nem as drogas estavam dando algum sentido a ela. Então decidi ser andarilho e conhecer outros lugares, outras pessoas e viver sem uma meta, sem obrigação, sem um padrão e sem esperar nada. Literalmente estava pronto para morrer, mas não iria me matar ou me deixar morrer fácil. Eu iria viver feito um animal pacífico na selva selvagem, sei que é utópico… Mas aqui estou. Muitos momentos sinto fome, sede, frio e muita coisa ruim.

— Tenho apenas mais duas perguntas, vou fazer as duas em simultâneo.

— Você se arrepende? Valeu a pena ser andarilho?

— Não me arrependo, até porque apenas reagi aos dissabores da vida… Mas a pergunta não seria o que aprendi com o sofrimento que passei e passo?

— Não tinha pensado nesta pergunta. Mas, agora, qual é a resposta?

— Sofrimento é parte da vida, mas somos educados a pensar na vida como uma ferramenta para buscar felicidade a todo custo e assim nos acovardamos e não conseguimos lidar com instantes da vida que não são prazerosos.

— Caramba… Isso é muito profundo. E pior é que para mim faz sentido.

— Não só para você e pra mim, mas para quase todos seres humanos. Vivemos mais como turistas, aproveitando apenas o destino e nunca a caminhada, o trajeto. Próxima página do livro ou próximo livro, próxima meta no trabalho ou próximo emprego…

— Entendo, mas falas como se isso estivesse resolvido para você.

— Isso nunca se resolve, mas podemos sempre melhorar. Estou em uma nova fase, deixei de ser o turista e passei a ser o peregrino que não fica mais ansioso para chegar ao destino, mas aproveita ao máximo a caminhada. E o próximo passo talvez seja juntar o melhor do turista com o melhor do peregrino.

— Muito louco isso, mas no bom sentido… Te admiro.

Neste momento, olhei para o relógio e estava 10 minutos atrasado. Olhei para o homem e estendi a minha mão para uma saudação de despedida.

— Muito obrigado pela conversa e partilhar a sua experiência de vida. Prazer, sou o Álvaro.

— O prazer é todo meu. Sou o Carlos. Nem sempre pessoas na minha posição de mendigo conseguem conversar com outras pessoas…

E assim sai correndo para o trabalho.

Mas uma lição que aprendi é que não deve apenas ouvir pessoas que dizem que estão no topo ou são o “sucesso”. Sempre podemos aprender com a caminhada de alguém.

Talvez nunca volte a ver o Carlos, mas certamente o levarei comigo.

Obrigado. Ndapandula.


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Afrodescendente — Arte vivida #2


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