Uma geração que sonha com mais flexibilidade no trabalho

Eu sempre reclamei muito do modelo de trabalho que nós estamos inseridos. E as pessoas sempre me chamaram de preguiçosa por isso. Vou ser sincera: eu não gosto de trabalhar. Pelo menos não do jeito que nós fazemos atualmente.

Eu cheguei a cogitar que realmente eu era o problema, que eu deveria ser mais proativa e menos inconformada. Mas, recentemente, tenho escutado muitos dos meus amigos fazerem das mesmas reclamações que eu: pouco tempo livre, chefes despreparados, empresas pouco abertas a novas ideias, inflexibilidade no ambiente de trabalho. Para mim, tudo isso resulta em apenas uma coisa: improdutividade.

No meu ponto de vista, funciona de uma forma óbvia: pessoas pouco motivadas tendem a sentir menos vontade de trabalhar. E ter que pedir autorização até para ir tomar um café no meio da tarde, sem dúvidas, é uma forma de desgastar a relação entre funcionário e chefe. Nós somos cobrados por resultados, e isso é totalmente compreensível, já que estamos inseridos em um sistema que visa o lucro. Mas, além do resultado, a impressão é que dá é que somos pagos pelo uso do nosso tempo. Então, muitas vezes, terminamos todas as nossas obrigações, somos rápidos, mas temos que continuar ali, batendo cartão e desperdiçando tempo, porque nos contrataram em uma escala das 9 às 18 horas, e o patrão não pode abrir mão disso, porque, afinal, ele está pagando.

A Exame publicou uma matéria afirmando que permitir mais flexibilidade aumenta os lucros e o engajamento da equipe. Não perder tempo no trânsito, cumprir horários mais alternativos ou trabalhar alguns dias de forma remota — em casa ou em qualquer outro lugar — são fatores que aumentam a produtividade. O El Pais também fez uma reportagem sobre a felicidade de trabalhar das oito da manhã às três da tarde. O diretor de recursos humanos desta empresa afirmou que eles ganham mais de meio milhão de horas por ano, reduziram as faltas em 20% e os acidentes de trabalho em 15% desde que a mudança foi feita.

E, apesar de estar falando tudo isso desde que eu entrei no mercado de trabalho, ninguém escuta uma menina de 23 anos que começou a sua vida profissional agora. Mas tá aí. Tem pesquisa. Tem empresas que já estão fazendo isso e estão tendo sucesso. Será que os empresários brasileiros vão demorar muito para finalmente entenderem esse conceito? Ou será que a nossa geração vai conseguir mudar esse cenário, quando estivermos nos cargos de liderança? Será que nós realmente estamos errados por idealizarmos uma vida profissional menos rígida? Acho que não, caso contrário, não estaríamos enaltecendo empresas como o Google, que tem um jeito muito particular de trabalho.

Eu sou uma pessoa que escolheu a profissão por amor. Tive o privilégio de fazer o curso que queria, em uma boa universidade, realizei diferentes estágios e, ao contrário de muitas pessoas da minha sala, consegui encontrar um emprego logo depois de formada. Eu tenho consciência de tudo isso. Mas tenho consciência também que eu poderia ser uma profissional muito melhor, se não me sentisse tão cansada o tempo todo, se não tivesse tão pouco tempo livre, se não tivesse que avisar um mês antes que tenho uma consulta urgente no médico ou que preciso ir ao banco. Eu não quero me sentir escrava da minha própria profissão. É aquela coisa: nós trabalhos para viver, ou vivemos para trabalhar? De verdade, eu nunca quis viver para trabalhar. Não sou assim — e já falei disso em outros textos — mas também não quero sentir que estou perdendo tempo da minha vida por ser “obrigada a trabalhar”. Quero trabalhar por acreditar na relevância do que eu faço, por saber que essa é uma fração da minha vida, mas que não ocupa o espaço inteiro. Eu sou e tenho muito mais do que uma carteira assinada.

Não é má vontade, não é preguiça. É tentar tornar nossa atividade diária — o trabalho — em algo mais prazeroso, e que seja visto menos como uma obrigação, e mais como uma escolha. Os chefes precisam entender que nós vão vamos respeitá-los menos porque eles sabem dizer sim ou porque são flexíveis. Pelo contrário: essa postura “ditatorial” cansa, desgasta e talvez seja um dos motivos pelos quais nós, jovens, mudamos tanto de empregos. Nós queremos experimentar, queremos nos encontrar e fazer algo que realmente amamos, em um ambiente que não nos deixe esgotados.


*Quando eu digo flexibilidade, digo flexibilidade de verdade. Não esse discurso falso da reforma trabalhista do Temer. Qualquer pessoa que trabalhe em uma empresa mais “tradicional” sabe que essa coisa do “funcionário vai poder negociar diretamente com o patrão” não funciona bem assim na prática.


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