“Vai Malandra” e as diferenças entre feminismo branco e negro

Foto: Divulgação

Quando a Anitta lançou “Vai Malandra” nesta segunda-feira, a primeira coisa que eu pensei foi “EU AMEI DEMAIS ESSE CLIPE, SOCORRO”. Amei as celulites, amei o cenário, amei que tinha homem besuntado de óleo, amei que tinha gorda, magra, travesti... Enfim, achei um arraso! Essa opinião durou, pelo menos, pelas próximas 24 horas. Mas é claro que nesse mundo maravilhoso da internet, a gente começa a ler outros pontos de vista, e passa a refletir sobre tudo de uma outra forma.

Minha primeira reação foi de uma feminista que luta pela nossa libertação sexual, em que eu possa, sim, dançar, rebolar, e isso não vai me fazer menos inteligente ou menos capaz de qualquer outra coisa. “Vai Malandra” mostra que nós temos celulites SIM e nem a Anitta, AKA RAINHA DO MUNDO, foge disso — e tá tudo bem. Que funk faz parte do nosso patrimônio cultural e, se as letras só falam de sexo e drogas, é porque aqueles jovens vivem esta realidade, e a forma de mudar esses padrões não é impedindo um estilo musical, mas sim, trazendo outros tipos de experiências para essas pessoas.

Achei incrível retratar a periferia, mostrar que tem bar que vende dois latões de cerveja por R$9,00, coxinha por R$3,50, que tem mina que usa fita isolante para tomar sol na laje e ficar com um bronzeado maravilhoso. Amei que a Anitta chamou pessoas do Vidigal para contracenarem, e achei demais ela não negar suas raízes no funk e na periferia, mostrando que mesmo querendo expandir para o mundo, ela não vai esquecer de onde ela veio.

Então vamos às críticas…

Eu pensei tudo isso e, de certa forma, continuo pensando — mas com ressalvas. A primeira questão que já vinha me incomodando antes do lançamento do clipe foi a direção de Terry Richardson. Quando Anitta anunciou que ele teria participação, muitas pessoas a criticaram, e sua resposta foi dizer que não sabia das denúncias de assédio contra ele. Em comunicado, a cantora afirmou que foi atrás das medidas legais cabíveis para tirá-lo da produção, mas que o clipe já estava pronto e que ela não poderia descartá-lo em respeito à todas as pessoas da equipe, e do próprio Vidigal. Você pode ver o pronunciamento completo aqui.

Ok, Anitta. Você tem razão. Mas Richardson tem sido alvo de denúncias há anos. Eu mesma fiquei sabendo dos seus abusos em 2014 e, desde então, outros inúmeros casos relatando seu assédio foram divulgados. A Lady Gaga já desistiu de lançar um clipe dirigido por ele por causa dessas acusações. Não que a Anitta tenha obrigação de fazer o mesmo, mas será que ela realmente não sabia que o cara estava envolvido em todas essas polêmicas?

Além desta crítica, a colunista Stephanie Ribeiro apontou muito bem que nesta situação do clipe no Vidigal, Anitta usou tranças e um visual periférico, sendo que ela não costuma fazer isso em seus outros vídeos. Foi como se ali, naquela situação, a cantora se fantasiasse de negra. Em todos seus clipes românticos ou de músicas mais lentas, ela usa o cabelo alisado, paletas de cores mais claras, apaga as celulites. Fora do contexto de “Vai Malandra”, Anitta vende uma imagem de pele mais clara, cabelo liso, nariz afinado.

Não entro na questão da apropriação cultural ou não, porque na minha visão ela é negra de pele clara — apesar de muitas pessoas não concordarem, e essa é realmente um ponto mais difícil de definir. Mas a cantora seleciona os momentos em que vai usar essa performance periférica, mesmo que a própria tenha vindo de bairro pobre no Rio de Janeiro. O ponto é: a Anita não precisa se fantasiar de negra da periferia, mas ela mesmo assim o faz e é porque essa imagem vende, em momentos oportunos. Isso se chama conveniência racial.

É claro que também tem o ponto da sexualização dos corpos negros — já falei dessa mesma questão no clipe da Mallu Magalhães — e que Anitta reforça vários estereótipos da mulher negra e periférica ali no vídeo. Isso também incomoda, e com razão.

Mas o que tudo isso tem a ver como feminismo branco ou negro?

Esses dois pontos de vistas são válidos, e acho que nós conseguimos compreendê-los quando vemos que mulheres diferentes lutam por causas diferentes, e aí acabam enxergando o mundo de jeitos diferentes também. O clipe pode ser empoderador para uma parcela, mas também pode ser ofensivo, porque enquanto a mulher branca luta pela libertação sexual e pelo direito de ter corpos imperfeitos, a mulher negra luta para não ser vista como mulata exportação, que é vendida para gringo.

Mulher negra e periférica não é só bunda, mas parece que a Anitta reforçou esse estereótipo com esse clipe. Ao mesmo tempo, ela mostrou que também tem celulite, e que pode fazer o que bem quiser com seu corpo e com sua sexualidade.

A Anitta é humana. Comete erros, acertos e dificilmente vai agradar à todos. Ela está inserida em um regime que visa o lucro e, como boa empresária, quer lucrar. Emponderamento vende, libertação vende, aceitação vende. Ela acertou em cheio nessa, porque conhece seu público e sabe o que ele quer. Mas isso não quer dizer que a cantora esteja imune à críticas. Algumas de suas ações podem ser compreendidas e até justificadas. Outras — como contratar um abusador — não. Cabe entender que reações diferentes acontecem porque pessoas são diferentes, e cabe a nós não diminuir ou menosprezar o incômodo de ninguém.



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