Vem aqui me dar um abraço, Aurélio

Quando eu tinha quatro anos, a minha mãe me deu um dicionário. Ela disse: “Usa isso aí, porque as palavras são importantes e saber o significado delas também. E o que você não souber, você procura. Esse é um livro para sua vida”. Ele era um livro tão para minha vida que eu mal conseguia carregá-lo. Eu tinha que abraçá-lo contra o meu peito para andar pelo corredor da minha casa e guardá-lo na estante da minha mãe.

Por muito tempo, o ritual foi o mesmo. Eu passava a mão pela capa dura para sentir a textura daquele fundo azul com letras douradas em relevo formando “A-u-r-é-l-io”. Depois, eu fechava os olhos, abria o livro ao meio e procurava a definição de algum termo por acidente. Exatamente como fazemos quando queremos uma mensagem para o nosso dia em algum livro de sorte. Foi dessa maneira que descobri o significado de “Hemácias”, “DNA”, “Genética”, “Aviação” e tantas outras. Entretanto, de vez em quando eu procurava o significado de algumas palavras intencionalmente. Neste momento eu não me recordo de quais eram, mas sei que uma eu nunca esquecia de pesquisar: Amor.

A primeira coisa que eu busquei depois de “Amor” foi “consanguinidade”, que mais tarde eu descobri que tinha algo a ver com relação de parentesco. Naquela época, eu entendi que as primeiras palavras a fazerem parte do amor são “pai” e “mãe”. Mas, achei muito pouco o Aurélio classificá-las como substantivos. Uma vez eu procurei por “Bob” e “Nick”, que foram os meus primeiros cachorros de estimação, e descobri que o dicionário não carrega nomes próprios e nem dá significados profundos para eles. Só o coração faz isso.

Hoje em dia, o Aurélio que a minha mãe me deu de presente quando eu era criança ainda permanece na estante do quarto dela. Eu nunca mais o peguei para descobrir significados por acidente. Quando eu não sei algo, eu uso o Google, que é uma invenção tecnológica mais incrível que a roda ou qualquer outra coisa que você ache importante na sua vida.

O amor tem infinitas páginas tentando expressar o seu significado

Mas, no meu intelecto, há algo que o Google ainda não conseguiu substituir: a descrição de sentimentos do Aurélio. Pesquisar sobre eles no dicionário me parece muito mais amplo e inspirador. Claro que, ao longo dos anos, eu fui percebendo mais palavras correlacionadas ao Amor que eram sinônimas ou antônimas a ele. “Afeto”, “Ternura”, “Raiva”, “Saudade”, "Dor", entre outras. Mas, não é tudo. “Cinema”, “Gatos”, “Cama”, “Plantas”, “Músicas”, “Estradas”, "Porre" também são termos que podem fazer parte das suas vivências amorosas e nem o dicionário mais sabichão do mundo vai ser capaz de traduzir isso.

Quando eu era pequena, eu abraçava o Aurélio contra o peito, porque mal conseguia carregá-lo pela casa durante as minhas pesquisas. Hoje em dia, eu abraço as palavras, porque são muitos os sentimentos que eu sinto por dentro durante o meu dia a dia. Não dá nem para guardá-los na estante da minha mãe. É por isso que eu escrevo.

No livro da minha vida, eu propositalmente procuro o sentido de muitas coisas das quais eu não consigo me recordar agora. Mas, uma delas eu nunca esqueço: Amor.

Letícia Cardoso


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