Venezuelização no Brasil.

Usa-se o argumento das relações entre PT e regimes autoritários para tentar igualá-los a Bolsonaro. É uma mentira.

Fernando Henrique Cardoso, cercado por Chávez à esquerda e Fidel à direita da fotografia.

Os “isentões” do pedaço estão fazendo de tudo para unir os petistas e Bolsonaro sob o mesmo espectro, o do extremismo. O problema dessa análise, irracional e movida pelo antipetismo mais feroz, é que ela não se sustenta racionalmente. E um dos principais argumentos é, sem dúvida alguma, a questão do “apoio” conferido à Venezuela e à Cuba. Pouco importa que Fernando Haddad tenha declarado, há meses, não acreditar que o governo de Maduro possa ser caracterizado como uma democracia. O que realmente seria relevante? O suporte partidário. Vale, assim, ir aos fatos.

Em primeiro lugar, é importante perceber que as relações internacionais costumam ser movidas por interesses próprios dos Estados, e não somente em razões morais. Não é por acaso, por exemplo, que foi Richard Nixon quem reconheceu, como presidente dos Estados Unidos, a República Popular da China. Como um conservador do Partido Republicano, a sua decisão em relação aos chineses — que o levou a visitar a China, em 1972 — foi vista com surpresa. A sua “diplomacia pingue-pongue” com os comunistas foi puramente estratégica, o que justifica suas ações no comando da potência em questão.

Mas os exemplos não faltam no que tange o Brasil também. Como ter sido o primeiro país do mundo, em pleno governo Geisel, a reconhecer a independência de Angola sob um governo comunista, do MPLA. Ou ainda as boas relações cultivadas entre Lula e Bush — o brasileiro já se referiu ao segundo como “amigo” — e até mesmo entre Lula e Sarkozy, também mais à direita, da França. Nesse último caso, os laços afetivos foram bem maiores. Uma evidência disso é que o francês convidou o antigo metalúrgico para o Palácio Eliseu, sede do governo em Paris, quando este nem sequer era mais presidente, em 2011.

Esse fato explica porque não é nenhum absurdo, ou algo fora da realidade, o Brasil ter mantido relações com Cuba, Venezuela e ditaduras africanas durante o governo de Lula e, em menor escala, de Dilma Rousseff. Tudo isso se insere dentro de uma lógica de como se fazer relações internacionais Sul-Sul, terceiro-mundista e latinoamericana, pregada pelos correligionários de Fernando Haddad há muitos anos. Tudo isso, por mais incrível que pareça, com forte senso patriótico por trás. A intenção era, e ainda é, fazer o Brasil assumir um papel de liderança no contexto geopolítico que lhe caiba à sua grandeza, de maior economia da América Latina e de todo o Hemisfério Sul.

Além disso, é preciso analisar tudo com o enfoque para questões estratégicas. A Venezuela, além de uma grande produtora de petróleo, tinha o maior PIB, sem contar o Brasil, do continente sul-americano — antes da crise que hoje acomete o país, em virtude da ingerência econômica. O Banco Mundial, em 2010, colocava a Venezuela como a 24ª maior economia mundial, com a Argentina no 27º lugar e a Colômbia na 33ª posição. Para além disso, os venezuelanos são os fornecedores de energia elétrica para o estado de Roraima, não integrado ao sistema nacional de transmissão. Isso, aliás, desde um acordo de FHC, em 2001, com Chávez.

Além de Cuba, também fala-se muito da África, por exemplo, ignorando que o continente tem forte papel estratégico para o futuro. Não é por acaso que a China se faz presente ali, introduzindo até mesmo a sua moeda em algumas nações. Por razões demográficas, a economia do continente vai ter um “boom” daqui a alguns anos, e o Brasil pode se aproveitar disso. Sem contar ainda aquilo que é de curto prazo, como o apoio que a África, como bloco, poderia nos dar por um assento permanente no Conselho de Segurança — ou o aumento de nossas vendas para o litoral africano, e até mesmo a participação de empresas multinacionais brasileiras em solo moçambicano, angolano e de outras nações amigas.

Todas essas relações travadas, por mais autoritários que sejam os outros países envolvidos, não significa que o Brasil, internamente, corra o risco de ficar assim. E nem mesmo que outras nações, que a mesma coisa fazem, corram esse risco. Os Estados Unidos, por exemplo, possuem excelentes relações com a monarquia absolutista teocrática da Arábia Saudita, que recentemente assassinou um jornalista dissidente no Consulado de Instambul. No século XX, nem deveria ser necessário discorrer sobre os apoios conferidos pelos estadunidenses a regimes ditatoriais, seja pela sua instauração na América Latina ou mantendo-os existindo, como o Apartheid da África do Sul.

Mas enfim, isso não se restringe aos Estados Unidos, e sim para todos os países inseridos no sistema global. É o caso, por exemplo, da França em relação às ditaduras da África em locais antes colonizados por franceses. Na época da Primavera Árabe, lembrou-se muito de o quão amiga Paris era para Ben Ali, da Tunísia. A ministra das Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie, ofereceu até mesmo ajuda policial e militar ao governo da Tunísia para pacificar o país. Lembre-se que era o governo Sarkozy, à direita do espectro político.

Caso insista-se em uma questão ideológica — afinal, existem alas radicalizadas do PT que gostam de soltar manifestos por Maduro – e que os apoios não se dariam por razões de política externa, então vale tentar outra abordagem. Na França, o Partido Socialista — assim como o PT, na centro-esquerda política — volta e meia elogiava o regime bolivariano. Viu até o homem que fizeram presidente da República, François Hollande, chegar a declarar, elogiosamente a Chávez, que ele havia “marcado profundamente a História da Venezuela”.

Enquanto isso, pode se observar a mesma situação no Reino Unido, com o Partido Trabalhista, que se posiciona na mesma posição do espectro político. Jeremy Corbyn, hoje líder do partido, declarou em 2012: “Parabéns ao Hugo Chavez; vitória enorme com votação alta em eleição limpa. Justiça Social para a Venezuela!”. E, olha só, o Labour já fez seis primeiros-ministros, dentre os quais alguns mais à esquerda e outros mais ao centro (como Tony Blair). Já o PS, por sua vez, elegeu dois presidentes, Miterrand e Hollande, sendo que este último fez até visita histórica a Fidel Castro em Cuba. Nenhum deles nunca ameaçou a democracia de seus países.

Afinal, se fôssemos pelo critério das relações exteriores, FHC seria autoritário por ter mantido relações cordiais com Cuba e Venezuela também. E se fôssemos condenar como totalmente antidemocrático o internacionalismo esquerdista, então nenhuma centro-esquerda do mundo sobreviveria ilesa. É por isso que atacar o PT como autoritário por razões de relações internacionais, quando o partido governou por treze anos respeitando e mantendo a democracia, é absurdo. Por mais que se possa e se deva, evidentemente, criticar qualquer tipo de ajuda a ditaduras — da mesma maneira que Trump sofre críticas, hoje, por causa da Arábia Saudita.

Sim, por mais que possamos condenar moralmente, sob um viés humanitário, esses apoios a autoritários — como eu faço — isso não faz do PT antidemocrático. Apesar de todas as besteiras feitas ao longo dos anos, ou uma fala proferida por um radical aqui e outro ali, dizer que o Estado foi aparelhado seria mentiroso. Os ministros do STF, por exemplo, agem com plena independência. Basta recordar a votação do HC de Lula. Na ocasião, foram a favor de conceder o habeas corpus os ministros Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello, Celso de Mello, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski. Os três primeiros não foram indicados pelo PT. Votaram contra o HC seis ministros, cinco deles indicados pelos governos petistas.

Para além disso, algumas instituições foram até mesmo fortalecidas. É o caso da PGR (Procuradoria-Geral da República), cujo cargo passou a ser indicado a partir de lista tríplice vinda de sindicato, apontando-se sempre o primeiro colocado de votação interna. Essa tradição, inaugurada de forma inédita por Lula, se seguiu durante todos os mandatos petistas e só foi quebrada por Temer. Raquel Dodge, a apontada, ficou em 2º lugar nas eleições entre procuradores.

Há dois outros grandes exemplos que mostram o compromisso democrático do partido. Mesmo discordando da Constituição e votando de forma contrária à sua aprovação, o PT assinou o texto constitucional, comprometendo-se a cumpri-lo. Anos mais tarde, em 2009 no Congresso Nacional, corria PEC para fazer com que Lula, no auge de seus 80% de aprovação, tivesse um terceiro mandato. Quem enterrou a proposta não foi a minoritária oposição, mas sim o PT. O partido articulou para que José Genoíno, figurão da legenda na época, barrasse a PEC ainda na CCJ, como relator, sem a deixar continuar tramitando para o Plenário. E Lula, por sua vez, sempre manteve a postura de se negar à essa candidatura pela terceira reeleição.

É um partido, que apesar de todas as besteiras que pode-se achar que fez, nasceu e cresceu com a democracia. Aprovou a Lei da Ficha Limpa e a Lei da Delação, que culminou na Lava Jato, em 2014. Já respeitou o resultado nas urnas quando derrotado, por exemplo, algo que Bolsonaro já diz que não fará caso perca, pois acusa as urnas eletrônicas de serem fraudadas — uma tremenda idiotice, diga-se de passagem, e um sinal autoritário dos mais claros.

O deputado também já defendeu a tortura para o Brasil, e passou toda a sua vida pública criticando a democracia e exaltando a ditadura militar. Por isso mesmo, é adorado por esse setor da sociedade, ligado às Forças Armadas. Os dois candidatos deste segundo turno não são simetricamente extremados, e não tem Cuba ou Venezuela que façam o argumento ir nesse sentido. E, por fim, faz-se mister ressaltar que o único risco de venezuelização seria colocar um autoritário com respaldo do Exército no poder através do voto. Afinal, foi assim que Chávez começou.

Revista Subjetiva

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Thiago Süssekind

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