Foto por Oscar Sutton via Unsplash

Você se cancelaria?

Dalmo Kawauchi
Nov 26, 2019 · 3 min read

Quem frequenta as redes sociais há algum tempo já deve ter percebido que a cultura do cancelamento se tornou problemática. Artistas e pessoas famosas são cancelados (seja lá o que isso queira dizer) toda vez que dizem ou fazem algo que desagrada (com ou sem razão). Muitas vezes é razoável se indignar, protestar, criticar, mas a partir do ponto em que você cancela alguém, significa que você não vê a mínima possibilidade da pessoa mudar, ou de que no momento em que ela disse ou fez algo inusitado ela foi apenas descuidada e pode ter se arrependido depois.

Agora, trago aqui o meu ponto: se for cancelar todo mundo que fez ou falou merda em algum momento, quem é que não seria cancelado? Eu tenho convicção de que eu seria facilmente cancelado (apesar de que não faria muita diferença, já que não sou famoso nem nada). Vou além: muita gente, e novamente, me incluo nisso, tem o hábito de cancelar a si mesmo e, por isso mesmo, acha natural cancelar os outros. Cancelamos a nós mesmos quando não nos sentimos dignos de algo, seja de estar em um certo curso, trabalho, ou relacionamento, seja de estar nas redes sociais, expressando aquilo que pensa. Alguns chegam a se sentir indignos até mesmo de estarem no mundo. Isso acontece porque vamos acumulando faltas ao longo da vida; se cancelamos uma pessoa por um momento de vacilo, imagina com o tanto de vacilo que encontramos na nossa própria vida? Logo, cancelar os outros, em última análise, é um bumerangue que acaba se voltando contra nós mesmos, uma vez que conhecemos nossos próprios erros e, em geral, eles são muitos.

Por outro lado, se olharmos com mais cuidado pras nossas próprias vidas, veremos que não faz sentido se cancelar por conta dos próprios erros, especialmente olhando pros nossos erros mais antigos. Percebemos que já não nos identificamos com certas atitudes e palavras do nosso passado, confiamos que já não somos mais a mesma pessoa. Da mesma forma, podemos olhar pro presente e confiar que já não seremos mais os mesmos no futuro, ainda que não consigamos visualizar claramente. Podemos confiar que, ainda que não estejamos vendo nossos erros atuais, se nos mantivermos vigilantes, os veremos em algum momento. Talvez, seja necessária uma boa dose de paciência quando demorarmos pra reconhecer um erro. Nesse ponto, não importa quem errou: se foi eu, ou se foi o outro. Se conseguirmos cultivar essa paciência coletivamente, a cultura do cancelamento perde o sentido. Para isso, precisamos começar a apontar menos dedos, ou melhor, apontar o dedo para os erros, e não para as pessoas, que por um mero descuido (um longo descuido, às vezes), os cometeram.

Não é fácil, ainda mais porque algumas pessoas realmente persistem em alguns erros, de forma que fica difícil desvincular o erro da imagem que temos da pessoa. Assim, se não conseguir “descancelar” uma pessoa que você cancelou, tudo bem; a curto prazo, para evitar a fadiga, pode ser até melhor manter a pessoa nessa “zona do cancelamento”. Mas descancele quem você conseguir descancelar, e especialmente, descancele a si mesmo. Até o ponto em que cancelar alguém não faça mais sentido pra você e você sempre veja, por trás de cada erro, a liberdade da pessoa fazer diferente da próxima vez. Se ela fará ou não, aí já é com ela, mas você segue enxergando novas possibilidades.

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