Yakisoba

Uma crônica quase familiar para quem foi criança fresca.

Na imagem: um yakisoba caprichado, com muito mais carne que o da história, encontrado aqui.

Quando eu era criança era super fresca para comer. O pior era quando eu nem era tão criança assim e ainda não comia um verdinho sequer. Todo dia era arroz, bife e batata; às vezes uma couve, até porque, um bom mineiro, mesmo aquele que não gosta de nenhuma verdura ou legume, não nega uma couve bem temperada e cortada fininha.

Minha mãe nem ligava mais. Assumiu que eventualmente eu me desenvolveria e passaria a comer feito gente. Minha irmã, 10 anos mais velha e fã de batata frita, nunca reclamava. Só meu pai destoava. Sorte minha que ele nunca almoçava em casa. Mas ainda tinham os jantares… Toda noite em que ele chegava a tempo para jantar, um novo drama se desenrolava. Era não como pra cá, vai comer pra lá até terminar em uma ou outra porta batendo e a minha mãe mediando as pazes.

Em uma calma terça feira de feriado, ao fim do mês de novembro, dispensa vazia, pré compras do mês, meu pai resolveu sair cedo do trabalho. A família, feliz de estar reunida e em vistas de comemorar o aniversário da minha mãe dali a alguns dias, resolveu pedir sushi — que eu também não comia, porque, afinal, peixe, até onde eu sabia, era pra ser comido cozido ­– e, para compensar a falta de miojos na dispensa, um yakisoba para a pré-adolescente chata.

Em minha defesa, antes que meu pai pedisse, eu já tinha avisado umas trinta vezes que não gostava daquele estranho miojo oriental que tinha gosto de tudo, menos do meu amado pozinho de galinha caipira. E que, sim, eu já tinha experimentado — mesmo que não tivesse, até porque só pelo cheiro eu já sabia que não ia gostar.

Entregador na porta, comida na mesa, família feliz e: eu não vou comer isso. A situação era pior que a esperada e, o que meu pai descrevera como “miojo misturado com carne, é melhor ainda que o que eu faço pra você” surgiu da quentinha como um bololô de miojo meio marrom com cenoura, brócolis e tudo aquilo que eu sabia que não gostava, mas era obrigada a provar de novo sempre que meu pai comia em casa. E três cubinhos de carne. Não, eu não tô exagerando pra gerar um efeito dramático, eram três cubinhos, bem inhos, de carne.

Para manter a paz, eu provei um pouco dos verdes, comi as três carnes e um tiquinho da maçaroca marrom até que não aguentei e falei que estava satisfeita, já preparada para a briga. Eu não aguentava mais e não havia criança passando fome no mundo que me fizesse comer mais uma garfada daquela gororoba.

Meu pai parecia também estar em espírito pacífico em respeito ao aniversário da minha mãe e tentou comigo todos os seus argumentos mais razoáveis em um tom de voz bem mais contido que o usual:

  • Mas ele tinha provado e tava muito bom: não. Era ruim.
  • Mas eu que tinha pedido e agora ia jogar fora, era desperdício: não. Ele que tinha pedido, eu avisei que não gostava.
  • Mas eu comia miojo todo dia, era EXATAMENTE A MESMA COISA! Olha só as ondinhas: não. Era ruim e eu não comia miojo todo dia.
  • Ele não acreditava, tinha criança passando fome na terra da minha avó e o que a gente ia jogar fora dava pra alimentar pelo menos três delas: não. A gente guardava e dava pra elas então porque eu não ia comer.
  • Se minha avó fosse viva vinha de Minas até o Rio só pra me obrigar a comer: não. Ela também não ia conseguir porque eu ia vomitar porque estava ruim.

Foi aí que meu pai perdeu o controle. seu rosto ficou vermelho e a voz, naturalmente rouca, se elevou uns cinco tons quando ele começou a falar, de modo que metade do prédio pôde acompanhar o discurso:

– É minha sina ter filha fresca! Para de drama, menina! Você fala essas coisas, mas não sabe nada da vida. Não dá valor ao que seus pais te dão! Quando eu era criança em São João, tinha uma sobrinha do seu avô que era fresca igual a você, a Catarina Leite* e tinha tudo, a Catarina. Toda vez era o mesmo drama para fazer ela comer, tinha que sentar todo mundo na mesa com ela, pedir e mesmo assim ela não comia nada. Só o que ela gostava. Passou a infância toda assim. Toda vez que Catarina vinha almoçar lá em casa era o mesmo suplício, tinha que fazer comida separada para a Catarina, porque ela não comia uma verdura sequer. Sua avó odiava. Eu não acredito que eu fui ter filha assim… Falava tanto da Catarina… Depois disso tudo, minha filha, você sabe o que que aconteceu com ela? Sabe o que que aconteceu com a prima Catarina Leite?

Eu, que tinha começado a chorar de birra no meio da discussão, parei, temerosa com o que o futuro reservara para a Catarina Leite e muito provavelmente reservaria para mim. Procurei o olhar da minha mãe e irmã que também tinham os olhos arregalados, já que nunca uma prima Catarina Leite havia sido mencionada na casa do meu pai. O clima tornava óbvio que ninguém tinha ideia do destino de Catarina Leite e todas o temiam.

– Sabe o que que aconteceu com ela? FICOU BURRA! Mas tão burra, que noivou com…

O absurdo da frase fez com que gargalhadas explodissem das três ouvintes que segundos antes temiam por Catarina e, muito provavelmente, de alguns apartamentos vizinhos. A risaiada foi tanta que não cheguei a descobrir qual era exatamente o problema com o noivado da prima, já que meu pai, sem entender a graça, só se ocupava em reiterar o todo tempo:

– Ficou mesmo, burra demais. Não sei do que vocês estão rindo. Burra, burrinha.

Depois dessa fui liberada, por votação unânime das componentes imparciais da mesa, para deixar o yakisoba de lado e comer um biscoito para tapear a fome.

Algumas coisas não mudam… Hoje, quase dez anos depois, eu como de tudo: verde, vermelho, laranja, cru, cozido, não importa. Me salvei de ficar burra, eu acho. Mas yakisoba? Só o cheiro já me dá ânsia de vômito.

Ah, e se querem saber da Catarina Leite, nunca cheguei a conhecer, mas até onde eu sei continua burra. E noiva.


*Já que a história é quase toda verídica, o nome foi alterado para preservar a identidade da querida prima do meu pai. Se eu tenho alguma prima Catarina Leite por aí, desculpa por usar seu nome, mas garanto que não é você!


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