[Terror] Penny & Freddy te convidam para passear

Crossover de IT — A COISA e Hora do Pesadelo.


Laura tinha acabado de pegar um táxi numa rua escura e chuvosa de um domingo em sua pacata cidade. O celular estava com pouca bateria e morreu quase logo após entrar no veículo.

Ela tinha acabado de guardar o telefone na bolsa, quando o motorista, repentinamente, questiona:

“Saindo a essa hora, moça? Estava no cinema?”.

Laura não era muito de dar papo para taxistas e motoristas de transportes particulares, então, só aquiesceu com a cabeça.

Por um acaso, com a pouca bateria do celular, a menina não tinha conseguido chamar um carro no aplicativo de transporte mais barato, então, acabou pegando o primeiro táxi que passou na rua.

As primeiras palavras trocadas com o motorista daquele táxi foi somente para falar de seu endereço. O motorista tinha uma expressão tão etérea que chegava a deixar Laura desconfortável quando ele a encarava do retrovisor assentado no topo do para-brisas.

A água da chuva pingava gentilmente nas janelas do carro.


Laura estava a umas três quadras de casa, quando o motorista resolveu reatar o papo:

“Qual filme você foi assistir? Gosto de cinema”.

A menina quase se segurou para não bufar ali do banco traseiro, mas respondeu:

“Assisti IT”.

It?”.

“Sim, IT, a Coisa”.

O motorista parou de falar por um momento, talvez pensando sobre se já teria ou não ouvido falar do filme.

“É baseado numa obra do Stephen King”, emendou Laura, embora tivesse suas dúvidas sobre aquele homem de vestes bem gastas algum dia ter tido acesso a algum livro, ainda mais de terror. Não culpem Laura por ter uma visão da burguesia.

“Ah, acho que é aquele do palhaço? Minha mulher falou esses dias”, devolveu o homem do táxi, para a surpresa de Laura.

Laura chegou a dar um meio-sorriso quando o carro pareceu passar por cima de uma coisa macia, pois que o veículo vinha pela rua solitária em menor velocidade por ocasião da chuva.

O sorriso na expressão de Laura se esvaiu. E quando se deu conta, o motorista parou o carro no acostamento, saltando para verificar sobre o quê havia passado por cima. Ou por quem.


Laura resolveu não olhar para trás. Se fosse algum cachorro morto, a menina certamente não teria estômago depois para comer o pedaço de pizza de calabresa que a aguardava no congelador e esperava aquecer no microondas de sua confortável cozinha.

Mas e se fosse gente? Também não olharia da mesma forma. Mas seria tolice pensar que o motorista passaria por cima de uma…

“Criança… É uma criança ali, moça!”, falou o motorista, exasperado, do lado de fora do veículo.

O homem, claramente, não sabia o que fazer. Digitava uns números rápida e descoordenamente em seu telefone celular e encarava a cena, provavelmente, sangrenta com que Laura ainda não havia se deparado.

Antes de sair do carro, Laura olhou para o relógio do painel frontal: marcava meia-noite.


Laura estava achando tudo aquilo muito estranho. Para não dizer tragicômico, pois, assim que tinha saído do cinema, havia reclamado com uma amiga sua pelo Whatsapp: “achei bem fraquinho esse filme”.

E, agora, Laura estava se cagando de medo, não só pela cena em si de ver uma criança atropelada, mas por carregar no imaginário o enredo do palhaço que surgia para se alimentar das crianças.

Laura proibiu a si mesma de pensar no nome dele.

“Já ligou pra polícia?”, indagou ela, finalmente, ao motorista, sem nem olhar para a cena ainda.

“A bateria do meu celular acabou. Perguntei pra um amigo meu advogado antes o que devia fazer. Ele não me respondeu e acabou a bateria”.

“A bateria acabou?”, só conseguiu repetir Laura. Irônico, disse ela, mas dessa vez só para si, pois seu celular também havia descarregado a bateria. Depois, involuntariamente, Laura girou e seus olhos perpassaram… A cena.


A moça chegou em casa e não comeu a pizza. A cena de uma criança sem um dos braços e que havia sangrado até a sua provável hemorragia: foi com isso que Laura se deparou.

E tal cena a deixaria sem apetite por dias. Mas sobretudo: noites.

E, naquela noite, um dia depois do choque, a menina tinha que dormir. Afinal, Laura não tinha conseguido dormir na noite anterior, muito por causa do tempo que gastou na delegacia, esclarecendo alguns fatos.

Laura estava na sala de sua casa. Já eram duas e meia da manhã.


Laura estava no sofá e começou a ouvir a torneira da cozinha próxima à sala pingar. Ela se levantou e foi fechar.

No que fez isso, algo a cutucou por trás. Parecia um objeto cortante e muito afiado.

Não, não era só um arrepio. Alguma coisa estava efetivamente lhe espetando no meio de sua coluna.

Laura encara aquilo que havia de estar detrás de si e se depara, realmente, com a coisa: Pennywise prestes a enfiar um faca nas suas costas.


“Por favor, não…”, soluça Laura, o ambiente começando a ficar em um tom de luz vermelha ao seu redor e sem qualquer motivo.

“Por quê não deveria fazer isso, Laura? Não é divertido cortar as pessoas em pedacinhos?”, devolveu o palhaço grotesco e rindo.

Nisso, Laura fecha os olhos e diz:

“Por favor… Meu Deus, pare!”.

“Você não está num sonho, querida”, falou uma outra voz, tão horripilante quanto à do palhaço.

A voz era conhecida à Laura e isso a forçava mais ainda a manter os olhos fechados. Ela sabia que tinha sido uma voz que a aterrorizara mesmo durante a infância. Sobretudo, quando ela dormia.

Mas mesmo depois de tantos anos?

“É, Freddy, querida. Os tios Penny e Freddy vão te levar para passear”.

Laura gritou. E a menina sentiu uma coisa fisgar-lhe no fundo das costas. O seu corpo tremeu e caiu em choque no chão. O líquido rubro saindo-lhe das entranhas.

Antes de perder a consciência, Freddy murmurara:

“Palhaço tonto… É assim que se faz”.


Quando Laura acordou, estava andando naquele mesmo táxi que tomara depois do cinema.

Estava tão assustada que já tinha se mijado nas calças e ficou com medo, inclusive, de o motorista notar o cheiro de urina.

Pensou ter cochilado, sem querer, no táxi quando estava indo para casa. Estava já respirando de alívio, quando percebeu que o motorista, agora, usava um chapéu social preto.

Laura começa a suar. E, ao que o motorista finalmente a encara pelo retrovisor frontal, mostrando o rosto grotesco que o chapéu não podia mais esconder muito, ele disse:

“EU SEI QUAL FILME VOCÊ ASSISTIU, QUERIDA”.

A face do motorista era deformada. Foi a menina reconhecê-lo que ela acabou se cagando nas calças.

Freddy ia levar Laura para passear. Mas não antes de, no caminho, dar carona para Pennywise. Tios Penny e Freddy iam cuidar bem de suas crianças.

Ao entrar no carona, o palhaço segurava, com um sorriso indelével e sinistro, a criança de braço decepado.

Laura baixou o olhar, mas nesse movimento, reparou aquela criança, que estava morta e parecia descansar a cabeça no vão pertencente ao freio de mão.

Naquele momento, a criança passa a girar a cabeça vagarosamente num ângulo de 90 graus, em direção à Laura. Os olhos do cadáver estáticos, como se uma força invisível estivesse fazendo isso, o movimento de girar a cabeça.

“Estamos todos flutuando”.


Sobre a Autora S. Paiva:
S. Paiva é o “alter-ego” literário de Karolline Maria dos Santos Paiva, ou, para os íntimos, Karol. Karol é carioca de nascença, mas nordestina de criação. Escreve desde os 9 anos de idade, quando começou a ensaiar seus primeiros versos. Na adolescência e no início da juventude, com o “boom” das redes sociais, passou a publicar seus escritos em blog’s e sites diversos, dentre eles: SuperEla, ONDDA e Revista Subjetiva. Com 23 anos, formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas sua verdadeira aspiração de vida está na escrita. Assim, com 25 anos, está prestes a lançar sua primeira obra, da saga A Herdeira de Auramon, na Amazon. Mais recentemente, fundou o Clube de Escrita Criativa de Curitiba, organização sem fins lucrativos voltada para o aprimoramento do escritor contemporâneo e realização de eventos e palestras sobre a carreira literária para ambientes além de escolas e universidades. Você pode acompanhar o trabalho da escritora e receber textos exclusivos, inscrevendo seu e-mail na Newsletter: http://tinyletter.com/karolsantos

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