a imagem de Certal

Há poucos dias sonhei que visitava as galerias vazias, em ruína, do museu. Atravessava colunas, paredes que não existiam mais; outras que ainda separavam um tanto, conectavam linhas e pontos que formavam o mapa erodido de uma terra arrasada. Seguindo rastros deixados por outros sonâmbulos, me deparei pela primeira vez com Certal. O nome, em sonho, à coisa — me parecia natural, como se estivesse inscrito no meu código genético. Eu me dividia entre um grupo de crianças que, revendo agora em pensamento cada um de seus rostos, não teriam mais de oito anos. Todas olhavam embasbacadas na direção da criatura bizarra, que parecia, era incrível, intacta entre os destroços.
Certal era enorme, embolado em sua própria confusão. Se pudesse ser enquadrado numa foto, remeteria a uma espécie de injunção colossal orgânica-inorgânica, homem-mulher. Do ponto de vista das crianças, parecia mesmo um macho humano que penetrava uma fêmea humana por trás. Mas difícil dizer sem poder perguntar a elas. Dois meninos se aproximaram do bicho ou coisa, ousando ingenuamente tocá-lo. Por onde as pequenas mãos seguiam, era possível notar que não havia nenhum atrito, nem mesmo diferença de textura, reentrâncias ou protuberâncias muito acentuadas. A pele do Certal, se aquilo era pele de fato, não tinha pelos — era viscosa e escorregadia na verdade, como a de anfíbio. Seus contornos estavam absolutamente contidos por essa superfície lisa, tão fina e elástica ao mesmo tempo, que parecia prestes a rebentar. Aquela figura dupla, retorcida, se tornava assim um só corpo, unido em coito num gozo infinito. Era difícil precisar se estava viva demais ou intensamente morta.
Uma das crianças mais afastadas resolveu tomar coragem e espetou Certal com a ponta afiada do dedo indicador. O que se assemelhava muito a uma estátua nova ou um animal espalhado deu, então, de se mover. A região onde o menino o tinha cutucado, onde talvez houvesse uma espécie de saco escrotal, começou a inchar muito. As crianças assistiam fascinadas o inchaço crescer cada vez mais. Alguma delas disse que a lembrava uma bola de festa. Pouco antes de ficar cheio de ar e estourar, no entanto, o pseudo-saco murchou, se tornando uma espécie de pequena buceta em flor. Cerca de um minuto depois, outra região do corpo passou a inflar também, e o ciclo se repetiu. Impressionada com o espetáculo, uma menina encostou o ouvido na criatura. Um som gutural abafado parecia querer sair daquele corpo, fazendo agitar a pele sob a sua orelha. Mas Certal, ela percebeu, não tinha orifício visível. Estava nu, exposto ao escrutínio de pequenos seres como ela; era tábula rasa.
Poderia ser objeto mecânico de montaria, usado pra ensinar as filhas de grandes senhores de terra a evadir à cavalo de suas vidinhas campestres insossas, garantindo certa segurança e classe. Poderia ser peça de arte, que desafiasse as formas fisiológicas do desejo humano e pusesse Freud às voltas com seus velhos fantasmas. Poderia ser espécime raro, cujo parenteso com o nosso tipo tivesse se perdido entre as linhas evolutivas, enredado nas redes truncadas da memória ancestral e só acessível a nós através de instrumentos mágico-arqueológicos de ponta. As crianças passaram então a disputar teorias imaginadas, cada qual mais excitada em se haver com a própria ignorância. Afinal, o que não era Certal?
No final do sonho, já nos instantes de véspera ao despertar, me lembro de sentir a ideia que elas produziam, de que o que importava era ver Certal como ele merecia ser visto. Impassível. Impossível. E por isso mesmo, intacto. Sonho agora com mais sonhos como esse.
