Carta para meu assaltante

Rio de Janeiro, três semanas após o assalto.

Caro assaltante,

Não lhe escrevo para reivindicar meus pertences — eles já não são meus. Tampouco escrevo para atingi-lo com minha raiva ou meu rancor. Não. Na verdade, quero, com as minhas palavras, conquistar seu carinho e, quem sabe, um sorriso. Não sei se tem dentes, mas isso não importa. Sorriso não se faz com dentes.

Naquela noite, lá pelas dez e meia da noite, não sei se lembra, você me assaltou. Eu estava carregando uma bolsa enorme, bem colorida. Foi em frente à igreja, lembra? Não havia ninguém na rua além de nós. Eu, voltando de um curso no Humaitá, cansada, bem cansada; você, com medo de me assaltar, temendo que o pegassem. Um encontro esquisito, não é?

Em nenhum momento desconfiei que você estava vindo me roubar. Pensei que fosse um maluco, que me pararia para fazer alguma predição sobre o mundo inexplicável em que vivemos. “O mundo vai acabar em cinco minutos’. Só percebi que se tratava de um assalto quando a faca estava na minha costela. Você me pediu para tirar o celular e o dinheiro da bolsa, lembra? Obedeci. Você estava com pressa, claro. Eu estava cansada, bem cansada. Tirei o dinheiro — vinte e cinco reais — e o celular com a tela rachada. Os fones de ouvido ainda estavam plugados.

Você seguiu o seu caminho, eu não olhei para trás. Quando cheguei no elevador, gargalhei, acredita? Achei engraçado que o seu assalto me fez perceber quanto quero a vida! Vão-se os celulares…

Eu fiquei.

Só não rezei em agradecimento pela minha vida porque a sua ainda não estava salva. Lembro dos seus olhos. Não vi maldade neles, vi desespero. Você precisava de dinheiro e eu apareci, sonolenta e com uma bolsa grande. Eu o entendo. Quando as pessoas dizem que você é uma praga, fico triste. Elas não compreendem. Como é que você vai sorrir e me cumprimentar se os seus pés estão descalços? Como é que você vai me perguntar as horas se atravessam ao vê-lo descer a rua? Por favor, não pense que é uma praga. Não dê ouvidos a eles.

Me escute.

Você anda pelo escuro, esconde-se nos becos.

Você assalta e foge.

Você ameaça com uma faca.

Você corre.

De dia você dorme e sonha. Deseja comer bolo de chocolate.

E quando assalta, não deseja machucar.

Sei disso.

Gostaria de mudar o vocativo da carta, colocar seu nome no lugar de “assaltante”. Gostaria de vê-lo com o rosto lavado e as roupas limpas. Com um sorriso no rosto, quem sabe. Gostaria de encontrá-lo caminhando à luz do dia, indo comprar pão e café.

E adoraria que não tivessem medo de você. Nem da sua cor.

P.S.: Desejo que encontre a paz, aqui neste mundo, não após a morte.

E, mais do que tudo, desejo que todos desejem que você esteja

Vivo.