Hoje o sino tocou diferente

Batem as doze. Os sinos anunciam novamente. Todo dia o mesmo toque, todo dia um dia diferente. Não pude notar o paradoxo antes, acostumada que estava às repetições. Ao meio-dia os sinos tocam. É assim. Às vezes escrevo; outras vezes almoço. E há também aqueles dias em que não escuto os sinos, porque estou longe. Mas eles batem dentro de mim, já fiz esse trabalho de interiorizá-los, de saber que o dia nasce de novo e eu acordo. Seria assim até a morte. Até que percebo. Os sinos batem o que é irremediável: o passado. Não há como apagar o incêndio antes que tudo desapareça. Não há como escavar de novo os fósseis. Ou comprar de um dono de circo uma coleção de múmias egípcias. Já foi feito. Iremos até os escombros deixar nossos lamentos.
O fogo destruiu uma parte de mim, porque destruiu uma parte de minha mãe, que chorou, que chorou, porque lembrou das visitas com minha avó. Uma parte de minha avó, uma parte de minha mãe, uma parte de mim. Engraçado que me lembrei do dia em que minha avó encontrou uma nota de cinco reais na entrada do museu.
Não sei se foi naquele dia, ou se ela contou naquele dia que tinha encontrado uma nota de cinco na entrada do museu. Não consigo escavar.
Hoje o dia tocou diferente. Apesar de ser repetição, de ser a necessidade de marcar na rua, nos ouvidos, que vivemos num círculo vicioso de rotina e pensamento. Minha mãe não conseguiu dormir direito. Acordei diversas vezes essa noite, última das minhas férias, porque meus sonhos estavam incendiados, e eu sabia, eu sabia, que amanheceria em escombros.
Minha avó acabou de ligar, com a voz de quem não dormiu e quer chorar. Foi a nossa história, vó, que desapareceu. Nas peças indígenas, nos fósseis, na materialidade das múmias egípcias, no maior dinossauro encontrado no Brasil, estava o passado vivo no presente. Agora sobra o passado irremediável, o passado morto, o passado que não pode ser salvo.
O anjo vê as ruínas. E não sabe, não sabe como prosseguir.

